 

Lindsey Longford
Seu para sempre!
 

Ttulo: Seu para sempre!
Autor: Lindsey Longford 
Ttulo original: Baby, youre mine
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2000
Publicao original: 1999
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao: Nina
Reviso: Bruna
Estado da Obra: Corrigida

E com o beb so... 4!

Quando a bela, grvida e sem recursos Vivianne McAllister apareceu-lhe  porta, Murphy Jones no pensou duas vezes para dar abrigo  futura mame e a sua adorvel filhinha. Mas o despreocupado solteiro estava abrindo as portas da sua casa, e no do seu corao...
Houve uma vez em que Vivianne chegara a pensar num futuro promissor ao lado de Murphy. Mas quando o solteiro superprotetor insistiu em afirmar que ela merecia algum muito melhor, Vivianne fugira com o firme propsito de esquec-lo... a qualquer custo. Agora ela retornava, mais madura e confiante, mas ainda incapaz de resistir ao homem simples que lhe tocara a alma. Aquela era a sua ltima chance com Murphy, e Vivianne jurou fazer qualquer coisa para torn-lo seu... para sempre!


CAPTULO I

Abanando-se com o exemplar da revista Notcias de Manatee Creek que encontrara jogado no cho, Vivianne apoiou-se no batente da porta do alpendre. As malas que formavam sua parca bagagem estavam a seus ps.
Mais cedo ou mais tarde, Murphy chegaria em casa. Com certeza. Era questo de esperar.
Afinal, Vivianne apostara at o ltimo centavo que ele estaria ali. Bem, na verdade ainda lhe sobravam alguns trocados. Aps comprar as passagens areas e pagar o txi do aeroporto at a casa de Murphy, restavam-lhe exatos cinquenta dlares. Se levasse em conta a situao de muitos sem-teto, podia considerar-se uma mulher rica.
A cadeira de balano que estava na varanda rangeu, o rudo preguioso da armao curva rompendo o silncio do fim da tarde quente. Era Frances Bird, filha de Vivianne, que, no colo da me, empurrava a cadeira com os pezinhos calados em tnis coloridos. A menininha tinha o rosto rosado molhado de suor.
Depois de abrir o primeiro boto da blusinha da filha, Vivianne ergueu um pouco seus prprios cabelos do pescoo e queixou-se:
 Puxa, nem um ventinho para refrescar...
Naquele calor mido, os cabelos finos e encaracolados dela pareciam colar-se ao seu rosto,  sua nuca, aos seus ombros. Seu batom desaparecera horas atrs, e a leve maquiagem que ela havia feito com cuidado, na fresca manh em Wisconsin, estava toda derretida. Se conseguisse encontrar um resto de energia, Vivianne passaria nos lbios mais uma camada do batom vermelho a fim de apresentar-se a Murphy com um rosto mais alegre. Mas havia gasto todas as foras no empenho de juntar suas coisas e rumar com determinao  procura dele.
Agora estava ali. E pretendia ficar.
Se Murphy lhe permitisse.
A cadeira de balano rangeu outra vez com o impacto dos pezinhos de Frances. Foi a vez de a menina queixar-se:
	Estou com sede, mame. Quero alguma coisa gelada para tomar.
	Tenha pacincia, Frances.
Ela apertou a garotinha junto ao peito. Sentiu-lhe ento o perfume quente e adocicado e descansou o rosto de encontro  testa mida de Frances Bird. Amava a filha mais o que tudo no mundo.
Com um sorriso, Frances empurrou novamente o encosto a cadeira. Um sorriso que no durou dois segundos.
 No tenho mais pacincia, mame. Estou morta de sede; queria uma soda, com  pedras de gelo. Muitas pedras de gelo. 
Se dependesse da sua vontade, Vivianne mergulharia numa piscina de gelo e ficaria ali at transformar-se numa tatua cristalina. Mas como aquele desejo jamais se conscretizaria, uma outra idia lhe ocorreu.
	Talvez haja uma torneira nos fundos da casa. Vamos procurar, Frances? No momento,  tudo o que posso lhe oferecer.
	Oh, est bem.
Vivianne colocou a filha no cho e estendeu-lhe a mo, antes de aceit-la, Frances afastou uma mecha dos cabelos castanhos do rostinho e suspirou.
Observando a expresso desolada da filha, Vivianne conscientizou-se que as mulheres McAllister andavam suspirando demais naqueles ltimos tempos. Era preciso comear a cortar o mau hbito de ambas.
	Venha, Frances Bird. No se aborrea, encare isto como uma aventura.
	Aventura, que nada.
De mos dadas, as duas desceram os degraus do alpendre e tomaram um corredor lateral. Encontraram a torneira nos fundos da casa de Murphy.
	Que baguna...
Vivianne franziu as sobrancelhas ao ver as ervas daninhas e os grossos talos de videiras que cobriam a mangueira de gua largada sobre o terreno arenoso. Enrolando a bainha da camiseta ao redor do metal quente da torneira, girou-a devagarzinho. Aquecida pelo sol, a mangueira agitou-se e sacolejou nas suas mos, cuspindo gua barrosa nos seus braos. Frances Bird deu um passinho para trs e torceu o nariz ao sentir a gua escura bater nas suas pernas.  Est quente, mame!  gua  gua, docinho. Vamos deix-la correr um pouco e vai esfriar num instantinho.  Ser?
	Tenho certeza.  Vivianne apontou a mangueira para filha.  Olhe s uma menininha toda ensopada!
	No, eu no! Vamos molhar voc!
Frances correu para junto da me e pegou-lhe a mangueira. O plstico amolecido pelo sol desenrolou-se nas mos da garota e, em questo de instantes, as duas estavam encharcadas da cabea aos ps.
Vivianne ento segurou a mangueira para que Frances bebesse da gua agora limpa e fresca, comentando:
	Ainda bem que resolvi trocar o seu vestidinho bordado por short e camiseta na ltima hora, no foi?
	Boa idia, mame!
Feliz pela primeira vez naquele dia, Frances Bird saltou numa poa de lama e tratou de se divertir. Vivianne deixou-a entreter-se  vontade. Afinal, no iriam a lugar algum depois daquela farra.
Sentindo a ansiedade diminuir, ela ps-se a correr atrs de Frances. As duas brincaram juntas por um tempinho e logo estavam sem flego, as pernas cobertas por uma lama plida.
	Agora chega  disse Vivianne afinal, afastando cachos de cabelos ensopados do rosto.
Limpou ento a filhinha e a si mesma antes de fechar a torneira e deixar a mangueira, cuidadosamente enrolada, onde a tinha encontrado. Quando as duas retornaram para o alpendre diante da casa, Vivianne sentiu o estmago se retorcer ao perceber que a rua continuava deserta. Nem sinal de Murphy.
O que iriam fazer se ele no voltasse para casa at tarde da noite? E se ele tivesse sado da cidade? Oh, Deus, devia ter telefonado! Tinha sido uma tola em ir para l sem ao menos uma ligao!
S que no estava em condies nem sequer de telefonar. Toda mulher tinha os seus limites, ela havia alcanado os dela.
Disfarando a apreenso, Vivianne sentou-se num degrau do prtico ao lado de Frances Bird. Pelo menos agora estavam resfrescadas.
O sol j se escondia atrs da espessa ramagem coberta de musgo dos carvalhos perfilados diante da casa de Murphy quando ela ouviu o ronco do motor de um carro. No teve tempo sequer para prender a respirao. Num instante ele estava  sua frente, descendo devagar de uma picape azul-marinho, cruzando o porto, caminhando com passos tranquilos rumo ao alpendre, a sombra do fsico alto e robusto projetando-se sobre ela. Como uma impassvel geleira, Murphy no demonstrava emoes.
 Ol, Murphy. Faz um tempo, no?
Ele no respondeu. Vivianne sorriu e permaneceu sentada, pois tinha certeza de que as pernas bambas no iriam sustentar-lhe o peso. Pequenos pingos de gua ainda escorriam dos seus cabelos, molhando-lhe as costas da camiseta. Sua respirao estava alterada e, sem saber muito bem o que fazer, ela levou uma das mos ao alto da cabea de Frances; com a outra, apontou as latas de tinta e os cavaletes que estavam na carroceria da picape, perguntando:
 Muito trabalho?
A camisa dele, surrada e descorada, tinha grandes marcas de suor; o primeiro boto, dependurado na linha, s no devia ter cado por alguma graa divina; os outros, abertos at a metade do peito, revelavam uma trilha do manto de plos queimados pelo sol que lhe cobriam o trax largo. Seguindo a trilha com o olhar, Vivianne deparou-se com o cs de um jeans manchado de mil cores, um jeans to velho e gasto que no deixava a cueca de Murphy  mostra por mero milagre. Por alguns instantes, ela deu-se ao luxo de imaginar como seria a cueca que ele usava: samba-cano? Tipo short? Cavada? Ou Murphy Jones tinha se modernizado e agora vestia sunguinhas de delicado algodo?
Ele descansou no primeiro degrau do alpendre um p calado num sapato salpicado de tinta e, abaixando-se para Vivianne, disse num tom satisfeito:
 Que a minha alma seja abenoada! Olhe s o que o gato trouxe para a minha casa... e num escaldante dia de junho! O que a traz at este pedao de bosque, Vivianne?
Enquanto Murphy se afastava um pouco e cruzava os braos sobre o peito, ela passou o brao ao redor dos ombros de Frances e a trouxe para junto de si, arrependendo-se amargamente por no ter passado mais um pouco de batom. Quando reencontrou a voz, respondeu com um sorriso:
	Vim para c contando com a sua hospitalidade. Mas voc no vai me perguntar como estou passando? No quer saber como a vida tem me tratado? Afinal, depois de tanto tempo... Uns oito anos, no?
	E verdade, deve fazer uns bons oito anos. Veio me fazer uma visita?
Por sob a bandana vermelha e azul que Murphy tinha atada ao redor da testa, seus ondulados cabelos castanhos estavam midos de suor. Seu rosto moreno tambm estava umedecido, o que lhe ressaltava os traos angulosos. Com uma expresso indecifrvel, ele sorriu para Frances e falou:
 Ol, pequena.
A menininha mostrou-se contente, balanou a cabea e bateu os clios espessos. Sua boca, que mais parecia um boto de rosa, curvou-se num sorriso.
 Ol, sr. Dono da Casa.
Vivianne conteve um suspiro. At parecia que Frances Bird nascera para flertar! Seria pelo fato de no ter um pai? Ou por no ter carinho suficiente? Ou eram os sapecas genes do sul que se manifestavam, apesar de ela ter sido criada no meio-oeste? Fosse o que fosse, ela achou que aquele no era o momento mais indicado para ficar analisando a reao de alegria da filha na presena de representantes do sexo masculino. Dando um suave tapinha no ombro da garotinha, apresentou-a:
	Frances Bird, quero que conhea o meu... O que somos mesmo, Murphy? Irmo e irm no seria a definio mais correta, no ?
	No, no seria  ele concordou.
	Bem, ele  um membro da famlia  prosseguiu Vivianne, engolindo o n que se formara na sua garganta.  E isso  muito importante, mesmo depois de oito anos. Certo?
Murphy no proferiu palavra.
	Sabe  comeou a pequena de quatro anos de idade, com as bochechas coradas de entusiasmo , mame e eu vamos morar com voc.
	E?  Ele no moveu um msculo sequer.
Mas a calma aparente de Murphy no enganava Vivianne. Ela percebeu de imediato que os olhos verdes dele haviam se tornado sombrios, imperscrutveis. No mesmo instante, sentiu uma forte onda de ansiedade apertar-lhe o peito e, evitando encar-lo, passou a mo pelo rosto da filha, dizendo:
 Bem, docinho, isso ainda no est decidido.
E se Murphy as mandasse apanhar as malas e ir embora dali? Que outra escolha teriam? Nenhuma, claro.
Como ele continuasse calado, Vivianne falou a primeira coisa que lhe ocorreu:
	Viemos at aqui para uma visita no meio da tarde. Conversar sobre os velhos tempos, sabe? Apenas isso. Voc no precisa se apavorar, Murphy.
	Mas, mame, voc disse que...  interveio a menina.
	Eu sei o que disse, Frances Bird  Vivianne interrompeu-a, incapaz de controlar nova onda de nervosismo.
	E o que foi que voc disse, Vivianne?  Um rufo de brisa ergueu uma ponta da camisa de Murphy e morreu sem deixar vestgios.  Que viria morar comigo?
 Conte-lhe o que voc resolveu, mame.  Frances deu um tapinha no joelho dela.
Ao ver que Vivianne permanecia muda, a garotinha debruou-se sobre si mesma e, agarrando os pezinhos com mos desajeitadas, olhou para Murphy e falou:
	Fomos colocadas no olho da rua. Ento viemos morar com voc porque no temos mais nenhum outro lugar para ir. E mame disse que com mil demnios...
	No blasfeme, Frances Bird  a me corrigiu-a num sopro de voz.
	Mame falou que lar  o lugar onde as pessoas nos acolhem, por isso voc tem de nos acolher  finalizou a menina.
	 mesmo?  ele no parecia muito convencido.
	, sim.  Frances balanou a cabea como se quisesse persuadi-lo.  Mame, voc falou "demnios" e "inferno" uma poro de vezes.

	Fique quietinha, querida.  Vivianne reprimiu um suspiro enquanto colocava a filha no colo.  Os adultos precisam conversar agora.
	Pelos demnios,  claro que precisam!  Murphy ajeitou a bandana sobre a testa, sombreando os olhos.
Ao ouvi-lo falar a palavra proibida, Frances cutucou a me e revirou os olhinhos.
Murphy ficou a observ-las por um longo momento, lapso de tempo no qual Vivianne flagrou-se torcendo os dedos dos ps enquanto um calor imenso lhe afogueava o rosto e o pescoo. Por fim, ele indagou:
	No olho da rua, ?
	Mais ou menos...  Vivianne ia comear a explicar.
	No olho da rua  confirmou Frances aos borbotes.  Mas ns no tivemos de dormir em caixotes, isso no. Passamos a noite num hotel. Com sabonetinhos cor-de-rosa to lindos... Guardei um para mim. Depois vou mostrar para voc.
Vivianne desejou afundar entre as tbuas do piso da varanda num fresco e calmo esquecimento, onde os observadores olhos verdes de Murphy Jones no pudessem alcan-la. Embora tivesse um temperamento excelente, tolo ele jamais fora, e seria muito pouco provvel que tivesse se tornado um desde que haviam conversado pela ltima vez. Ah, aquela volta para casa ameaava transformar-se num retumbante desastre!
	Perdemos o emprego, fomos despejadas, tnhamos dvidas e...  Frances parecia querer falar mais do que as palavras que a sua pequenina boca comportava.
	Agora chega, Frances Bird.  O tom firme de Vivianne fez com que a menina se calasse.  Bem, Murphy, pretende deixar-nos em p aqui fora at o cair da noite?
	Me parece que vocs esto sentadas, Vivianne, e no em p  respondeu ele, coando o queixo lentamente.
	Murphy tem razo, mame, estamos sentadas  disse Frances, puxando a bainha da camiseta dela.
Vivianne ergueu-se antes de declarar:
 Pois bem, agora estou em p. Ficaram contentes?
Com isso, virou-se e subiu os degraus do alpendre, rumando com ps determinados e meio sujos de lama para a porta. Aquilo tudo estava lhe saindo bem pior do que havia previsto. E muito mais humilhante tambm.
Estava cansada, preocupada, impaciente. E, ao que tudo levava a crer, Murphy parecia disposto a atorment-la e brincar com ela at lev-la  loucura, como fazia quando eram crianas. Vivianne nunca entendera muito bem a relao de ambos, mas tambm no estava com nimo ou humor para pensar nisso naquele instante. Sua situao era simplesmente desesperadora. E saber que os olhos verdes estavam pregados nos mnimos gestos que ela fazia no era nada encorajador.
Depois de apanhar uma das sovadas malas, girou sobre os calcanhares e olhou para a filha, anunciando:
	Vamos andando, Frances. Despea-se de Murphy e diga que foi um prazer conhec-lo.
	Mas, mame...!
Ela ps-se a descer a escadinha, ignorando o puxo que Frances Bird lhe dera no short. Mas, no ltimo degrau, seu p ficou parado no ar quando a menina lamentou-se num murmrio choroso:
 Voc mesma falou que no tnhamos mais para onde ir.
Como se tivesse se contagiado dos suspiros das mulheres McAllister, Murphy ofegou levemente antes de dizer:
 Venham, vamos entrar. Precisamos ter aquela conversinha que voc mencionou, Vivianne. E a pequena deve estar com fome.
Enquanto ele tirava um chaveiro do cinto do jeans e se encaminhava para a entrada da casa, o humor de Frances mudou da gua para o vinho. Colocando-se atrs de Murphy, ela observou-o colocar uma chave na fechadura da porta de madeira macia e confirmou:
	Estou com muita fome. Voc tem gelatina? Adoro gelatina. Com pssego em calda.
	No, no tenho gelatina.  Murphy destrancou a porta, escancarando-a.  Serve banana?
	... serve.  Frances passou por baixo do brao dele e escapou para o interior da sala escurecida.  Mame diz que as mulheres McAllister tm o dom de se contentar com tudo.
Ao p dos degraus da varanda, assumindo o esprito de quem se contenta com qualquer coisa, Vivianne lembrou a si mesma que no estava em condies de pensar em orgulho. No naquele instante. E nem naquela noite. A zanga esvaneceu-se, dando lugar ao venenoso receio que vinha lhe fazendo companhia nas ltimas semanas.
Ao deparar-se com o olhar de Murphy, ela respirou fundo. Parado  porta, ele lhe fez sinal para que acompanhasse a filhinha, dizendo:
	Venha conhecer o meu rancho.
	Se isto  um rancho, ento eu sou Joana D'Arc  sussurrou Vivianne, abaixando-se para passar sob o brao dele como Frances Bird havia feito.
Murphy fechou a porta delicadamente atrs dela para depois comentar:
 Bem, at que enfim voc veio, srta. Borboleta Fugitiva.
 Sra. Borboleta Fugitiva, por favor  corrigiu ela. 
Com um sorriso de satisfao e curiosidade, Vivianne examinou a sala repleta de caixotes de papelo. Borboleta Fugitiva... No podia dar-se ao luxo de contestar aquilo agora, mas voltaria ao assunto assim que fosse possvel. Por enquanto no queria que Murphy soubesse da vida de necessidades que vinha levando.
Correndo a ponta do dedo ao longo de uma fila de caixas com a etiqueta "CDs", ela comentou:
	No sei se isto  um tipo de decorao moderna, mas... O que todos estes caixotes ainda esto fazendo aqui? No me diga que no teve tempo para arrumaes, pois j faz dois anos que voc se mudou para c.
	Parece que est a par das minhas andanas  disse Murphy logo atrs dela, fazendo-a sentir sua respirao  altura da nuca.

	 o endereo que estava nos cartes de Natal que voc me mandou nos dois ltimos anos.  Disfarando a decepo, Vivianne abriu caminho entre as caixas rumo  cozinha que tinha visto pela janela dos fundos.  Voc no tem nenhuma moblia?
	Tenho uma cama para dormir  respondeu ele com um sorriso preguioso.  Depois comprarei o resto... se for necessrio.
Nos anos da adolescncia, aquele sorriso atraa garotas como o mel chamava uma legio de abelhas. Murphy nunca precisara fazer grandes esforos para colecionar uma fila de garotas com cabelos brilhantes e pernas longas ao seu redor. Elas simplesmente apareciam na varanda, ao lado do carro dele, em qualquer lugar.
	Sem sof, sem TV, sem cadeiras...  Vivianne balanou a cabea com desnimo.
	No preciso de muitas coisas. Sou um homem simples com um gosto simples.
	No seja irritante, isso sim. Alm do mais, no acredito que voc no tenha dinheiro para comprar moblia.
Murphy alargou o sorriso em resposta. Erguendo o olhar, Vivianne admirou o teto alto, as estruturas em madeira, o assoalho de tbuas claras. Por que ele deixava uma casa to bonita ficar desarrumada daquele jeito?
	Murphy, eu sei muito bem como estas residncias antigas so caras. E esta est em excelentes condies.
	Eu mesmo a reformei.
Acredito que sim. Mas voc est vivendo como um homem prestes a apanhar as malas e rumar para a estrada ao primeiro aviso. Nem sequer desfez os caixotes da mudana!
Antes que aquele sorriso, que agora parecia eterno, mexesse com os nervos dela, Vivianne cruzou a larga porta em arco e foi para a cozinha. Parou ento  soleira, e to abruptamente que Murphy quase trombou nela. Examinando a prateleira de carvalho presa ao teto abobadado, suspensa sobre um balco, e as reluzentes panelas de cobre que a pea sustentava, ela murmurou com admirao:
	Oh, que lindo! E como aquela que...
	Que os seus pais tinham na casa deles.
	Era sua casa tambm, Murphy. Sempre foi.
	Seus pais eram timas pessoas.
Vivianne lutava contra a emoo provocada por aquele momento de recordaes. Demonstrando tranquilidade, Murphy foi at a enorme geladeira e continuou:
	Eles me deram...
	Deram-lhe um lar. Eles o amavam. E voc sabe disso.
	Para voc, pequena.  Murphy estendeu na direo de Frances uma banana que apanhara na geladeira.
	Est gelada  disse a garotinha, examinando a fruta com uma careta.  Por que voc guarda bananas na geladeira?
	Bem...  Ele levou a mo  testa, pensativo.  Acho que  para que no se estraguem.
	Ah!  Frances arrastou um banco para junto da mesa no meio da cozinha e, depois de acomodar-se, descascou a banana e deu uma mordida na polpa.  Est gostosa.
	Que bom  disse Murphy, satisfeito.
Vivianne aproveitou o momento de distrao dos dois e secou uma lgrima furtiva. Seu olhar pousou na mesa sobre a qual Frances estava debruada, amassando banana gelada entre os dedinhos. E ento, com o impacto de uma seta que cruzasse seu corao, ela deu-se conta do porqu a cozinha lhe parecia to familiar.
	Oh, Murphy, esta  a velha mesa da cozinha l de casa!...
	, sim  ele confirmou num tom neutro.
Vivianne aproximou-se e correu a mo ao longo da superfcie de nogueira polida a lixa. Num gesto instintivo, levou a ponta do dedo a uma marca na madeira, local onde batera a tesoura de destrinchar peru durante uma briga com Murphy num dia de Ao de Graas. Se era possvel chamar de briga uma discusso na qual uma das pessoas mostrava-se calma e controlada, sem ao menos alterar a voz, como Murphy Jones sempre fazia.
	Voc a guardou e conservou  murmurou ela, comovida.
	 bonita  concordou Frances, passando a mo suja de banana de um canto a outro da mesa.
	Eu precisava de uma mesa  explicou Murphy.  E os seus pais me deram esta quando compraram uma nova para eles. Foi uma pena que no pude aproveitar as cadeiras.
	Ah...  Vivianne olhou para as duas cadeiras com o espaldar e o assento em vime que estavam dobradas e encostadas numa das paredes.
	Fiquei surpreso por voc reconhecer a mesa  disse Murphy.  Tive de refazer o acabamento.
	Seria impossvel no reconhec-la  retrucou Vivianne, lutando contra as lgrimas naquele ambiente que tanto se assemelhava ao seu verdadeiro lar.
Mas Murphy no aceitava que ela demonstrasse tamanha emoo diante de uma simples pea de moblia. Afinal, Vivianne fora embora de casa atrs do seu diploma de professora e, feliz e despreocupada, nunca olhara para trs. A ele coubera a tarefa no s de lixar e polir a mesa, mas tambm de rememorar todos os momentos, doces ou difceis, que a famlia Chapman passara ao redor do mvel. Por isso, deu de ombros e comentou:
 Seja como for, trata-se apenas de um pedao de madeira.
 No, no  somente isso.  A voz dela era baixa e rouca.  No se pode evitar as recordaes.
 Um mvel que precisava de reparos  Murphy insistiu.
Vivianne ergueu a cabea para ele como se quisesse dizer alguma coisa. Uma nesga dos ltimos raios de sol do dia iluminaram-lhe parte do rosto, e Murphy no conseguiu desviar o olhar: a pele dela parecia macia e sedosa, era um convite a uma carcia. Ele se conteve. Fora obrigado a descobrir e a lidar com a essncia de Vivianne. Como uma borboleta, leve, frgil, inteligente, ela ia  deriva aqui e ali. Por todos os lugares. To intil quanto esperar coerncia de uma borboleta seria esperar que Vivianne Chapman McAllister permanecesse em Manatee Creek e deitasse razes l.
Murphy ergueu a mo devagarzinho, as pontas dos dedos formigando como se tivessem tocado um fio desencapado. Era estranho imaginar Vivianne estabelecendo-se num lugar para sempre. Cruzando os braos sobre o peito, olhou-a com um ar carrancudo.
A camiseta que ela usava estava mida, colando-se  pele como fina luva, todas as curvas e reentrncias ressaltadas pelo tecido cor de laranja. Murphy pigarreou. No queria pensar em curvas e reentrncias naquele instante. Arrancando a bandana da testa, guardou-a no bolso da cala e disse:
	Voc e Frances Bird esto molhadas. No querem trocar de roupa?
	Pode me chamar s de Frances  falou a menina, pondo-se de p sobre o banco de madeira.  A menos que voc esteja muito zangado comigo. Quando  assim, ento as pessoas me chamam de Frances Bird.
	Como voc preferir  concordou Murphy.
	Mas eu nunca vou deixar voc zangado  continuou Frances, derrubando pedacinhos de banana no cho ao cruzar as mos solenemente.  Vou ficar fora do seu caminho enquanto estivermos morando aqui e no serei chata e vou limpar a mesa e tomar conta de mim mesma. Est bem assim?
	Frances Bird, pegue um pedao da toalha de papel e limpe a sujeira que voc fez no cho  falou Vivianne.
	Viu s?  a garotinha perguntou para ele.  Mame est zangada comigo.
	No se preocupe com o cho  respondeu Murphy.  Cuidarei disso mais tarde, depois que a sua me e eu tivermos aquela conversinha.
O olhar que Vivianne dirigiu  filha carregava uma mensagem que ele no sabia decifrar. Talvez fosse um aviso. Ou uma admoestao. O fato foi que a pequena Frances voltou a sentar-se no banco, seus grandes olhos castanhos ainda maiores. A me ento lhe limpou as mozinhas na bainha do prprio short.
Murphy ficou a olhar para Vivianne, analisando agora detalhes da sua fisionomia que haviam lhe passado despercebidos. Como as sombras escuras debaixo dos olhos dela e as minsculas linhas de expresso no rosto cansado. Como a tenso na sua postura. Ela era a mesma, mas estava diferente. Murphy no sabia como agir e esperava que, mais cedo ou mais tarde, Vivianne lhe falasse claramente o que desejava de fato.
Era evidente que ela desejava alguma coisa.
Vivianne tinha o semblante rgido e seus lbios se estreitavam em exasperao, mas seus olhos se suavizaram quando ela olhou para a filha e disse:
	Ah, Frances, meu docinho... J lhe falei que Murphy e eu temos de conversar. Viemos at a casa dele sem avisar, e eu ainda no tive uma oportunidade para explicar que...
	Que ns vamos morar com ele.  O banco foi para um lado e Frances para outro assim que a menina saltou ao cho.  Voc disse que ele no iria se incomodar.
Murphy perguntou-se se Vivianne no teria problemas com aquela pestinha no futuro. Bem, talvez fosse melhor deixar a tal conversa para mais tarde, no havia tanta pressa em saber o que ia pela cabea dela. A noite se aproximava, ele comeava a ficar com fome, havia coisas mais urgentes para tratar. O qu, em particular, ele ainda no tinha decidido.
Alisando a camisa, sorriu meio sem jeito para Vivianne. Ela apertou os olhos castanhos em resposta.
 Est usando culos?  perguntou ele, dando voz  primeira coisa que lhe ocorreu.
	No, estou tentando descobrir por que voc no pra de dar esses sorrisos estranhos desde que nos viu.
	Sorrisos estranhos? Puxa, eu nem tinha reparado. Isso a deixa nervosa?
	No... no.
Sem a menor cautela, Murphy aproximou-se e afastou-lhe do rosto uma mecha dos cabelos agora quase secos. Vivianne ergueu o queixo desafiadoramente para ele, dizendo:
	Pare com isso, Murphy. No estou e nem quero ficar nervosa, certo?
	Minha inteno no era irrit-la.
Mesmo afirmando isso, Murphy achegou-se um pouco mais e ficou a olhar fundo nos olhos castanhos. Vivianne esforou-se para no demonstrar, mas aquela proximidade a estava deixando furiosa. O que significava tudo aquilo?
Ao cabo de alguns instantes, ele afinal perguntou:
	Voc e Frances no querem tomar um banho e trocar de roupa? Convido-as para jantar depois.
	O que est tramando, Murphy?
	O que voc est tramando, Vivianne?
Incapaz de encontrar uma resposta curta e objetiva, ela apenas suspirou.

CAPTULO II

O contato do n dos dedos de Murphy sobre a pele dela provocara em Vivianne um sbito e inexplicvel arrepio. Desconhecendo o motivo daquela reao, ela s sabia que no podia demonstrar o quanto gostara da carcia, o quanto deixara envolver-se pelo gesto terno e inesperado. E isso a fez pensar que jamais deveria ter cogitado da idia de morar com Murphy Jones. Nem mesmo por uma nica semana. Aquilo no iria dar certo.
Balanando a cabea, olhou para ele com ateno. E chegou  concluso de que aquele sorriso maroto era o mesmo do garoto que havia crescido em sua companhia, e no o sorriso de um homem que pretendesse flertar. Murphy parecia pensar em tudo, menos seduo.
Embaraada at as razes dos cabelos por ter chegado a imaginar bobagens a respeito dele, Vivianne devolveu o sorriso, afastou ela prpria as mechas encaracoladas do rosto e disse a si mesma que, de alguma maneira, iria lidar com a situao. E iria tambm manter uma distncia cautelosa de Murphy Jones e seus inocentes carinhos, pois eles faziam-lhe o corao disparar e tornavam-lhe os pensamentos confusos. Isso j lhe havia acontecido tempos atrs, e ela soubera como enfrentar o problema. Por que no haveria de saber agora? Afinal, experincia, maturidade e desespero no lhe faltavam. Aps uma boa noite de sono, tudo retornaria ao seu devido lugar.
Iria controlar as reaes tolas.
Iria arranjar um jeito de lidar com Murphy.
Iria consertar a sua vida, que estava de pernas para o ar.
Uma sombra de dvida lhe turvou a autoconfiana quando ela viu o minsculo movimento no canto dos lbios dele. Vivianne ento afastou-se e, aps tropear numa mala, sentou num banco e perguntou-lhe:
	Eu? O que eu estaria tramando?
	 o que eu gostaria de saber.
	Como voc  desconfiado, Murphy! A julgar pelas suas insinuaes, chego a pensar que no est contente com a minha companhia.
Vivianne havia cruzado as pernas e balanava uma delas, mas deteve o movimento ao perceber o olhar dele passear por suas coxas. Se ao menos tivesse escolhido vestir um short um pouco mais compridinho...
	No se esquea de que eu a conheo muito bem, Vivianne  disse Murphy com tranquilidade.  E voc est me parecendo uma criana que se meteu em encrencas.
	E no se esquea de que faz oito anos que voc no me v. No lhe ocorreu que posso estar mudada?
	No.
Vivianne levantou-se de supeto, derrubando a mala com um baque surdo. Seu corao batia como bumbo de fanfarra, e ela teve medo de ter dito a coisa errada, ficando agora sem meios de evitar um desastre que parecia iminente.
	Mas as pessoas mudam, Murphy.
	 mesmo?
	Claro.  o que se chama amadurecer. Isso acontece com tudo mundo, at mesmo comigo. Seja como for, vou aceitar a sua oferta para trocar de roupa e jantar. Frances e eu estamos exaustas, um banho nos faria muito bem. Voc tem gua quente, no tem? Se bem que, com um calor destes, um banho frio no seria nada mau. Sabe, fazia um tempo que eu no me sentia to suada e grudenta. Sei que voc est louco por um banho aps trabalhar o dia inteiro, e Frances...
	Vivianne, tenho gua quente no banheiro.
O tom, divertido de Murphy escorregou-lhe como uma pedra de gelo ao longo da espinha, e Vivianne engoliu o resto que estava por dizer. Oh, estava se comportando como uma grande tola. Respirando fundo, ela empurrou uma mala na direo da filha.
 Abra e pegue a sua roupinha de dormir, querida.
Enquanto Frances obedecia sem maiores reclamaes, ela abriu sua prpria mala tentando ignorar o olhar atento de Murphy. Ajoelhada diante da bagagem, remexeu bermudas, camisetas e roupas ntimas cuidadosamente dobradas. Nervosa, apanhou uma pea qualquer e, tarde demais, viu que se tratava de um baby-doll vermelho, minsculo e um tanto transparente. Escondendo a roupa de dormir entre os dedos trmulos, tentou fechar outra vez a mala.
Um par de longas e fortes pernas vestidas em jeans entrou no seu campo de viso. Vivianne fechou os olhos para no admirar os msculos bem definidos que se ocultavam sob o tecido gasto. Murphy estava em boa forma. Excelente forma. Ela sentiu-se corar e teve certeza de que at os seus joelhos deviam estar vermelhos.
 Pronto.  Ele fechou a mala com dois toques rpidos, depois acomodou-a de encontro  parede.  Fcil, viu?
Ela levantou-se e ajeitou os cabelos. No conseguia ficar parada. Precisava de ao, de movimento. Precisava escapar dos sentimentos malucos que ele lhe provocava.
Foi ento que os olhos verdes de Murphy encontraram os seus. E a noite recm-chegada pareceu derreter-se sobre os dois, envolvendo-os dos ps  cabea. Ele havia lhe tomado as mos nas suas. Ela queria render-se, encostar-se nele e chorar.
Mas Vivianne no se entregou. Manteve o rosto erguido mesmo quando os olhos de Murphy deixaram os seus e foram parar nas suas mos. Tinha de preservar o amor-prprio. Ainda que no lhe sobrasse mais nada, uma mulher sempre necessitava agarrar-se ao amor-prprio e a um pouco de orgulho. Era assim que deveria ser.
E o orgulho a fez falar, preenchendo o silncio constrangedor, afastando a fagulha de pena que havia percebido nos olhos de Murphy, criando uma barreira  sbita e irresistvel vontade de chorar.
No importava o que acontecesse, ela no iria chorar. No na frente de Murphy. Nunca, jamais na frente dele. Mais cedo, naquele mesmo dia, achara que no podia se dar ao luxo de ter orgulho, mas agora descobria que no lhe restava outra coisa. Na cozinha de Murphy Johes, vigiada pelos olhos verdes que no a deixavam em paz um s instante, Vivianne se agarrou com unhas e dentes ao orgulho.
Murphy tomou um banho, retornou  cozinha e encostou-se  parede, observando-a sem dizer uma s palavra. Vivianne falou pelos cotovelos, fez a comida, foi do balco  pia e  mesa durante uma refeio que lhe pareceu interminvel. Depois, numa abenoada fuga, sumiu daquela bonita cozinha para o refgio encontrado no banheiro, onde se concentrou no confortvel hbito de dar banho em Frances.
Murphy ouvia com ateno os rudos que ela e sua alegre filha faziam no banheiro do andar superior do sobrado. A casa era to silenciosa que quase chegava a entender o que as duas falavam. Mas ele no se empenhou nessa tarefa. Preferiu deixar que os pensamentos vagassem sobre as impresses daquele final de tarde e comeo de noite, tentando decifrar o quebra-cabea que era Vivianne. Ela lhe parecia a mesma. Ela lhe parecia diferente.
Lembrou-se de ter lhe perguntado, ao mesmo tempo srio e brincalho, o que estava tramando. Mas ela nada lhe dissera. Seus olhos tinham adquirido uma expresso de pnico por um segundo ou dois, e ento ela sorrira, passara a mo nos cabelos e se afastara. Contudo, ele sentira a tenso que lhe enrijecia o corpo, lhe turvava o olhar, lhe tremia as mos. E, naquele momento, tivera vontade de agasalh-la entre os seus braos. Se fosse um outro tipo de homem, se Vivianne e ele no partilhassem da histria que partilhavam, a teria levado para um canto e a teria obrigado a contar a verdade.
S que no era um homem rude nem precipitado. Sabia esperar.
Por isso, deixara que um sorriso lhe curvasse os lbios, cruzara os braos e aguardara. Vivianne andara pelos quatro cantos da cozinha, murmurara uma lista interminvel de comentrios sem importncia que lhe haviam entrado por um ouvido e sado pelo outro, mergulhara numa ativi-dade incessante e febril. Bocejando, Frances Bird ficara brincando com um pequeno barco de plstico.
Tendo conscincia de que Vivianne continuaria em perptua ao at que suas foras se esgotassem, Murphy resolvera tomar uma atitude. Aproximara-se dela e tomara-lhe as mos entre as suas a fim de dar um basta a toda aquela agitao, dizendo:
	Pare com isso. Voc nem sabe direito o que andou fazendo ou falando nos ltimos cinco minutos. Sei que quer ou precisa de alguma coisa mas, seja o que for, isso pode esperar. Eu tambm estou muito cansado, pois trabalhei desde o raiar do sol. Sendo assim, antes de mais nada vamos nos alimentar. Depois, voc poder dar um banho na sua filha e coloc-la na cama. E ento cuidaremos com calma do seu problema. Certo?
	Certo.
	Muito bem.
Vivianne soltara as mos das dele, colocando-as nos bolsos do short. Mas fora tarde demais, pois Murphy j tinha visto suas unhas completamente rodas. Franzindo as sobrancelhas, ele comentara:
 Pensei que tivesse parado de roer unhas quando tinha treze anos e comeou a usar os esmaltes Kiss Me Crazy Red.
Vermelha de vergonha, ela mudara rapidinho de assunto:
 Frances e eu vamos preparar alguma coisa para comer enquanto voc se refresca. Vamos jantar, depois ela tomar o seu banho e... Foi isso o que voc sugeriu, no foi?
	Exato.  Murphy achara melhor deixar de lado as unhas rodas.  Veja o que h na geladeira, faa uns sanduches ou o que melhor lhe aprouver. Como eu j disse, satisfao-me com qualquer coisa.
	Est bem.
Vivianne no disfarara um certo aborrecimento, e ele precisaria ter a sensibilidade de uma rocha para no perceb-lo. Mesmo assim ficara satisfeito, pois preferia mil vezes v-la aborrecida do que desesperada, em pnico.
 Parece que voc se tornou uma mulher de poucas palavras, Vivianne. Ser que isso  indcio de que o fim do mundo se aproxima?
Ela no respondeu, embora Murphy soubesse que os olhos castanhos estavam pousados nele at que desaparecesse escada acima. Vivianne sempre fizera isso.
Quando eram adolescentes, ele gostava de saber que ela o observava. Agora, porm, sentir-se analisado pela amiga e companheira provocava-lhe um inevitvel mal-estar. Por um instante, tivera a impresso de que o seu pulso ameaava disparar. E fora por isso que ficara sob o chuveiro muito mais tempo do que o necessrio.
Haviam jantado ovos mexidos com pimentes verdes, cebolas e bacon. Logos aps a refeio, Vivianne tirara a mesa e levara Frances para o banho enquanto ele se ocupara em arrumar a cozinha.
Murphy no se importara com o fato de ela ter usado trs frigideiras para fazer o jantar: aquela era Vivianne, arrumando confuso e baguna por onde passava. Aps lavar a loua com gestos demorados, ele pusera-se a pensar na presumvel inquilina, mas no chegara a nenhuma concluso satisfatria. Ao terminar a tarefa, ficara a esperar que ela pusesse Frances para dormir e retornasse  cozinha.
Havia feito uma espcie de colcho de cobertores e travesseiros para suas hspedes num dos quartos vazios, tomando o cuidado de abrir a janela e ligar o ventilador de teto para arejar o ambiente. Esperava que o quarto refrescasse com o decorrer da noite e que elas desfrutassem do descanso merecido. Gostava da rusticidade do calor e da umidade da Flrida, ainda que no soubesse se Vivianne e Frances fossem apreci-los.
Agora, em p diante da janela da cozinha, Murphy ouvia o vacilar de uma leve aragem no quintal e o coro dos sapos de rvores. L fora, na escurido, a brisa suave vinha impregnada com os aromas de vero e desejo. Ali dentro, o ar recendia ao perfume de Vivianne.
Ele at j tinha se esquecido das fragrncias tpicas e dos sons persuasivos que acompanhavam uma mulher. E Vivianne deixara um adocicado aroma no banheiro, no corredor, nas paredes, um cheiro delicado de ma que Murphy aspirava em longas golfadas na sua solido. Uma solido intensa, pesada, subitamente sufocante.
O murmrio de vozes e risadas que as duas trocavam l em cima, junto a todos os outros rudos desorganizados e invasivos que a companhia delas trazia, mergulhavam sobre ele e lhe criavam, novas sensaes. Era como se estivesse em meio a uma multido, e isso chegava a apavor-lo.
De uma forma ou de outra, Vivianne sempre o apavorava.
 Que droga...
Ele olhou atravs da janela sem cortinas para a escurido que circundava a sua casa. Uma escurido que a tudo envolvia por completo... como a presena de Vivianne e Frances.
Uma corrente de ar trouxe  entrada da cozinha um leno de pescoo, muito leve e sedoso. Murphy aproximou-se para apanhar do cho a pea vermelha e dourada que, momentos atrs, parecia ter vida prpria. O tecido quase translcido escorregou por seus dedos, exalando o instigante perfume de Vivianne; mais do que uma simples fragrncia engarrafada, o leno possua a essncia dela. Ele estendeu-o sobre um banco, evitando um contato maior. J bastava o baby-doll vermelho que ela remexera numa das malas para lhe tirar o sono pelo resto do ms. E uma coisa no podia negar: as coisas de Vivianne eram, sempre tinham sido, femininas, perfumadas, leves, insinuantes. Sedutoras.
De repente Murphy sentiu um aperto no peito, uma sensao esquisita que lhe alterou o ritmo da respirao. No, no queria formar imagens impossveis na mente. No queria formular projetos irrealizveis que lhe assombrassem os sonhos.
Mas o que a teria levado, at a sua casa?
Ele no a queria ali.
No na sua casa, muito menos na sua vida tranquila e metdica. Esse era o motivo principal: finalmente as coisas estavam sob o seu controle, tudo corria como ele sempre desejara. Contas pagas e o trabalho cotidiano. Pouco lhe importavam a moblia quase nula, a falta de condicionadores de ar, a pouca comida que havia na geladeira. Do que menos precisava no momento era o olhar de espanto da filha de Vivianne diante de uma banana congelada.
Murphy passou a mo pelos cabelos escuros para depois esfregar os olhos. No queria lenos sedosos. Barulho. Perfumes. Vivianne.
Deus sabia que ele no queria Vivianne Chapman. Vivianne Chapman McAllister. Usasse ela o nome que usasse, no a queria em sua casa, em sua vida.
Agora, porm, havia a garotinha. Frances Bird.
O que fazer?
Ele voltou para junto da janela e da escurido atrs dos vidros. Se tentar livrar-se de Vivianne j era um suplcio, como ignorar a menina com os olhos grandes como os da me quando tinha a sua idade? Frances Bird olhava para ele com a cintilante alegria de quem tinha  sua frente algum muito querido e especial.
Especial, justamente ele? O simples e tolo Murphy Jones? E pensar que a pequena Frances o olhava com carinho... Como poderia ignorar essa manifestao to tocante? De que adiantaria dizer  menina que sua me e ele eram incompatveis como gua e leo?
Murphy deixou escapar um longo suspiro e s ento percebeu o reflexo de Vivianne no vidro da janela. Quando virou-se, entretanto, viu que a cozinha estava vazia. Ao ouvir a porta da frente abrir-se, deu-se conta de que ela fora para a varanda diante da casa. Seguiu-a em silncio.
Vivianne estava na cadeira de balano e foi logo dizendo:
 Est bem mais fresco aqui fora.
Ele apagou a luz do alpendre e esperou que os seus olhos se acostumassem  penumbra antes de perguntar:
	Sua filha est bem acomodada l em cima? Avise-me se o quarto estiver quente demais para ela.
	Oh, Frances est tima. Adormeceu assim que encostou a cabea no travesseiro. Ela teve um dia muito cheio. Aposto que nem vai se mexer at amanh.
	Tomara. Aqui  muito quente.
	No somos botes de rosas, Murphy. Sobrevivemos ao calor, dentro ou fora da cozinha. Por falar nisso... Me desculpe pela baguna que fiz ao preparar o jantar. Voc devia ter me deixado colocar tudo em ordem novamente.
	Voc estava ocupada.
A luz plida da lua, Murphy a impresso de que Vivianne parecia uma viso prestes a desaparecer se ele piscasse os olhos. Ou se ao menos respirasse. Num gesto instintivo, encheu os pulmes de ar.
Um p descalo dela descansava sobre o assento da cadeira, e seu queixo estava apoiado em cima do joelho dobrado. Com o outro p, ela impulsionava a cadeira de balano num deslocamento quase imperceptvel. Seus cabelos encaralacolados precipitavam-se para a frente, cobrindo-lhe boa parte do rosto. A cada movimento da cadeira, o perfume de ma se intensificava nas narinas de Murphy. O xampu, com certeza.
Vivianne vestia um short limpo e um top de algodo cru. Talvez fosse pela cor da roupa que o seu reflexo parecera uma viso especial no vidro da janela da cozinha. Ou uma dessas flores muito brancas que desabrochavam no meio da noite, com uma fragrncia que permeava as noites de vero e os sonhos da adolescncia dele.
Murphy voltou a respirar profundamente, tentando ignorar certas recordaes. Foi ento sentar-se na cadeira de vime  frente dela e permaneceu em silncio, deixando que os sons e cheiros noturnos ocupassem os espaos entre ambos. Pela primeira vez desde que chegara em casa e a encontrara toda molhada, rindo e brincando como a menina-borboleta que ele conhecia to bem, Vivianne estava calada. E parecia diminuda.
Ele no se sentia constrangido com o silncio. A ausncia de palavras lhe trazia sossego, tranquilidade. E por longos momentos Vivianne continuou a imprimir o seu ritmo hipntico  cadeira de balano, como se entoasse um tipo de cantiga de ninar.
Murphy poderia at ter adormecido, se no fosse o belo par de pernas  sua frente.  parca iluminao, as curvas firmes e o lento ciciar da cadeira o mantinham como que em transe.
 Ns costumvamos ficar no alpendre nas noites de vero, lembra?  perguntou ela, afinal.
As formas de Vivianne estavam delineadas pela luz da lua. Murphy teve vontade de esticar o brao e toc-la, mas controlou-se e respondeu no tom mais calmo que conseguiu:
 Sim, me lembro bem.
	Por que paramos de fazer isso?
	Como voc mesma disse anteriormente, ns crescemos. E mudamos.
Vivianne sentiu um arrepio que no era de frio. Imprimindo um movimento mais intenso  cadeira, comentou:
	Voc queria estacionar o carro junto  baa e namoricar aquelas garotas que telefonavam l para casa todas as noites.
	No, no era bem assim.
	O que  isso, Murphy? Modstia? Pelo que me recordo, as tais garotas andavam o tempo todo atrs de voc.
	Como pode estar to certa? Voc costumava controlar?
	No, mas sempre ouvia comentrios.
	Voc sabe que no se deve dar ouvido aos mexericos.
	E voc seria a ltima pessoa da face da Terra a usar o manto de um santo.
	Bem, isso  verdade.
A cadeira voltou ao seu lento e ritmado balanar. As pernas dobradas de Vivianne criavam sombras misteriosas que secavam a garganta de Murphy. Obedecendo a um impulso imperioso, ele falou:
	Depois que voc partiu para a faculdade foi como se ningum mais tivesse tempo ou vontade para sentar na varanda e tomar uma limonada.
	Voc partiu primeiro, no se esquea. Alistou-se no exrcito.
	Eu s teria perdido tempo na faculdade.
	Oh, Murphy, voc poderia ter sido catedrtico em qualquer coisa se quisesse. Se tivesse estudado. Mame e papai no hesitariam um instante em ajud-lo. E voc sabe muito bem disso.
O brilho do luar parecia prisioneiro dos cabelos de Vivianne. Perturbado, Murphy mudou de posio antes de dizer:
 No fui talhado para os estudos, acho que no tenho temperamento para isso. Eu ficaria maluco se tivesse de passar o dia inteiro sentado num banco de escola. Alm do mais, j era hora de sair de casa. Os seus pais sempre foram maravilhosos para mim, mas eu precisava seguir o meu caminho.
A voz dela chegou-lhe como uma pluma que flutuasse em meio  penumbra:
	Ningum queria que voc fosse embora. Havia outras escolhas.
	Talvez.
Mas ele tivera de partir. J havia visto meninos demais amontoando-se no piso do alpendre ao redor de Vivianne, enquanto ela conversava e sorria para todos. Perto daqueles garotos de cabea vazia, sentia-se um homem velho e cansado que no via a menor graa num flerte sem maiores consequncias. Era incontestvel que eles tivessem todo o direito de vir cortejar Vivianne Chapman  porta da sua casa; era ele, Murphy, quem no tinha o direito de exigir que fosse diferente. Mas ficar frequentemente acordado at tarde na cama,  espera de que algum rapazote deslumbrado viesse traz-la de volta no carro emprestado pelo pai...
S que era isso o que acontecia. Murphy ouvia o rudo do motor do automvel aproximando-se da residncia dos Chapman, depois o motor era desligado e... Longos minutos de silncio. Uma torturante eternidade at que a porta da frente se abrisse e fechasse. Vivianne ento subia a escada na ponta dos ps, para depois passar correndo pelo quarto dele.
Era evidente que ele tinha de partir.
Anos mais tarde, no exrcito, Murphy afinal entendera que o desprezo s havia existido na sua cabea. Os ameaadores rapazotes da adolescncia de Vivianne no passavam de meninos inofensivos, alguns passando por maus bocados como ele. Murphy, contudo, mantivera distncia. Erguendo ao redor de si uma barreira de rudeza e tenacidade, certificara-se de que ningum se aproximaria para analis-lo mais de perto e descobrir suas fraquezas. Talvez fosse isso o que tivesse criado a idia de que ele era um intruso pouco socivel. Uma sensao que estava dentro de si mesmo, e no na mente das outras pessoas. Uma verdade muito difcil de admitir.
 Por que voc nunca se casou, Murphy? Com uma da quelas garotas de cabelos brilhantes e voz sensual? Fiquei esperando que mame me mandasse uma carta com a notcia de que voc finalmente tinha feito os sagrados votos do matrimnio. Mas essa carta nunca chegou.
Ainda que o tom de Vivianne fosse suave como o seu leno difano, ele ficou incomodado com a pergunta.
	No sou dado a estudar, no fao o tipo casamenteiro...
	O que voc , ento, Murphy?
	Um homem satisfeito com a vida que leva. Que gosta do que gosta.
	No gostaria de ter uma pessoa  sua espera quando chegasse em casa? De sentir o aroma de um jantar preparado com cuidado e carinho? Da companhia de algum com quem trocar idias? Acha que no precisa de nada disso? Acha que tem tudo do que precisa?
	Pode ser.
	No existe realmente mais nada que voc deseja?
	Alm da minha picape e da minha casa? Bem, um co de caa no iria nada mal, princesa. S que eu tambm no sou dado a caadas.
	Murphy...
Ele queria mant-la longe de uma conversa ntima ou comprometedora. Queria mant-la longe do motivo das opes que fizera.
	E verdade, eu estava pensando em arrumar um cachorro. Ces so fceis de criar.
	Ces precisam de atividade. Gostam de companhia. No so fceis de criar. E fazem voc espirrar.
Ele riu, mas continuou insistindo no assunto:
	Um gato, ento. Sabe que j vi alguns gatos que s faltavam falar? Alm do mais, seria bom ter uma outra criatura nesta casa, alm de mim mesmo. Sim, talvez eu arrume um gato, um daqueles grandes e robustos, da raa Maine coon. Um bicho que no me traga complicaes.
	E esse o tipo de vida que o atrai? Uma vida simples, sem complicaes?
	Sim, Vivianne, . Gosto da minha vida do jeito que . No tenho de explicar o que fao, no tenho de pedir desculpas por deixar a porta do banheiro aberta, no tenho de me sentir culpado se vou tomar uma cerveja com meus companheiros aps um dia de trabalho pesado. Posso arrumar as malas e pegar a estrada se me der vontade. No tenho compromissos, sou livre para fazer o que bem entender.
Vivianne deteve a cadeira e aproximou o rosto do dele. Seu hlito recendia a pasta de dente com hortel, limpo e tentador.
	 mesmo, Murphy? Livre de verdade?
	Absolutamente.
	E  isso o que voc quer? Liberdade incondicional?
	, sim, princesa.
	Ento por que comprou esta casa? Por que teve um trabalho danado para deix-la bonita e acolhedora?
	Bonita? Acolhedora?
Ela levantou-se, e Murphy viu-se obrigado a pr-se de p tambm. Esfregando as mos  altura do peito, Vivianne insistiu:
	Sim, esta casa  um sonho. E o que voc me diz daquela cozinha, Murphy? No parece a cozinha de um homem que s quer viver sem compromissos, livre para fazer o que bem entender.
	A casa e a cozinha so o que so, Vivianne. E voc est fazendo muitas perguntas. J chega de falar de mim. Agora quero que me fale a seu respeito.
Ela sentiu-se estremecer, mas sabia que o momento da verdade havia chegado e que no havia como ou por que adi-lo. Precisa dar voz ao conflito que trazia no peito.
 Frances falou a verdade, Murphy. Ns precisamos de um lugar para ficar. Por uma semana, talvez duas... At que eu encontre um emprego.
Murphy tomou-lhe as mos entre as suas antes de perguntar:
	Por que comigo? Por que de volta a Manatee Creek?
	Porque no tenho mais para onde ir.
	Mas eu...
Sentindo-se vibrar da cabea aos ps com estranha e desagradvel energia, Vivianne soltou as mos das dele. Olhos bem abertos, boca crispada, encarou-o e disse:
 Porque estou grvida.

CAPTULO III

Enfiando as mos nos bolsos, Vivianne ficou  espera.
De julgamento. Do estreitar dos lbios de Murphy em sinal de desprezo e reprovao. Das palavras speras que iriam mand-la de volta ao olho da rua no meio da noite, com Frances e sem nenhuma esperana.
Esforou-se para manter-se firme, apesar dos temores que a ameaavam. No importava o que ele dissesse, iria rir do que acabara de declarar e afirmar que se tratava de uma brincadeira. No podia deix-lo testemunhar o terror a engolf-la.
Depois sumiria da casa de Murphy como se os ces danados do inferno estivessem no seu encalo. Dormiria na estao rodoviria. Melhor: passaria a noite no interior de uma igreja. Ou as igrejas de Manatee Creek tinham comeado a fechar suas portas ao anoitecer? No fazia mal, iria acordar o padre e pedir-lhe misericrdia pelo amor de Deus. Ningum deixaria uma mulher grvida e sua filha de quatro anos desamparadas, ao relento,  merc de estranhos mal-intencionados ou bandidos inescrupulosos.
Ou deixaria? Bem, no podia se esquecer da velha histria da virgem e seu rebento que s haviam encontrado abrigo numa estrebaria. Um calafrio lhe percorreu a espinha.
Murphy sentou-se na cadeira, colocou uma perna dobrada sobre a outra e inclinou-se para as sombras. Sua voz era fria e afiada como uma lmina de ao quando ele falou:
 Grvida, Vivianne? Estou surpreso. Pensei que voc e Tony tivessem se divorciado... Quem  o pai da criana? No que isso seja da minha conta,  claro.
Ela sabia que no podia perder a calma. No queria entrar em atrito com Murphy, no estava em condies de discutir se aquilo era da conta dele ou de quem quer que fosse. Por isso, achou melhor explicar-se.
	Tony e eu nos separamos quando Frances tinha dois anos, mas s entrei com o pedido de divrcio dois anos mais tarde.
	Me parece um longo perodo de tempo.
Vivianne cravou os dedos na palma das mos. No desejara separar-se legalmente do marido. O divrcio significava que ela havia falhado na relao afetiva que deveria ter sido a mais importante da sua vida. Desanimada, murmurou a primeira coisa que lhe ocorreu:
	Eu... no tinha pressa em... em oficializar a separao.
	No? Pensei que gostaria de reordenar as coisas, dar um novo rumo  sua existncia. No  isso o que todas as revistas femininas sugerem? Vida nova? Um tempo para si mesma para pensar?
	Bem...
Um rumorejar de jeans e algodo nas sombras eram os nicos indcios de que Murphy ainda estava l. Ele insistiu:
	Voc no queria uma vida nova? Um tempo para pensar?
	No sei... Eu estava ocupada. O tempo foi passando.
	Acho que no entendi.
	Como eu disse, tinha muitas coisas para fazer.
	Como o qu?
	Voltei para a faculdade. Terminei as ltimas trs matrias que faltavam para obter o diploma de graduao e o certificado de professora.
 Sei. Pelo visto, oficializar legalmente o divrcio no deve ter sido mais do que um mero item na sua interminvel lista de atvidades. Creio que agora compreendi.
A cadeira rangeu assim que Murphy afundou-se nela. Seria impossvel Vivianne no ter percebido o tom de sarcasmo que gelava as palavras lentas e contidas, mas ela foi em frente:
  verdade, o divrcio nem sequer constava da minha lista de prioridades. No era algo importante para mim.
Mentira. Todos lhe haviam dito para que no se casasse com Tony, mas ela no se deixara abalar pelos conselhos. Mais tarde, quando tudo deu errado, no quisera admitir nem para si mesma que tinha cometido um grande erro. Como tambm no quisera dar o brao a torcer e reconhecer que jamais deveria ter casado, que aquele relacionamento estava fadado ao fracasso desde o incio.
Tornara-se adulta, enquanto Tony continuara o mesmo rapago irresponsvel e independente que ela havia desposado.
	A sua reao foi estranha, Vivianne. Para que apegar-se a um casamento que j tinha acabado?
	Tive os meus motivos.
	Claro que deve ter tido. Voc sempre os teve. E os seus motivos sempre foram a nica coisa que sempre contou.
Vivianne no entendia muito bem aquela acusao. Era evidente que Murphy no queria que ela e Frances atrapalhassem sua vida, mas era claro tambm que ele estava lhe fazendo determinadas perguntas com o intuito de evitar ter de lhe dizer objetivamente que no podia ajud-la, que no podia abrig-la em sua casa. Que situao! No haveria uma forma de poupar todo aquele embarao a ambos?
Sim, havia uma s sada: ir direto ao ponto e dar todas as explicaes.. Foi o que ela fez.
	Est bem, vou lhe contar como tudo aconteceu, apesar de ser uma histria tola e pattica. Tony foi l em casa numa noite de abril, logo depois de o divrcio ter sido homologado. Ele... ele simplesmente apareceu. E no me surpreendi, porque ele nunca telefonava, nem mesmo enviava um carto para avisar que estava nas imediaes.
	Tony jamais se daria a esse trabalho. No era seu estilo. Ele tambm sempre fez o que lhe deu na cabea.
	Bem, abri a porta e ele estava l, encharcado pela chuva de primavera, rindo e dizendo que viera ver a quase ex-esposa antes que fosse tarde demais. Em considerao aos bons e velhos tempos. Fora um impulso, Tony falou. Talvez uma tentativa de reconciliao, uma segunda oportunidade.
 E?
Ah, ela odiava ter de contar essa parte. Preferia andar descala sobre cacos de vidro. Era como se, depois de ter errado e admitido o erro, escolhesse continuar errando. Murphy, porm, parecia fazer questo de saber os detalhes.
	Ns j havamos tido dezenas de segundas oportunidades, e nenhuma dera certo. Pensei, ento, que talvez pudssemos tentar algo diferente... A esperana  uma emoo que nos confunde, Murphy; est sempre nos pregando peas.
	Isso, eu no sei dizer. Prefiro me ater  realidade. "Mais vale um pssaro na mo do que dois voando" adapta-se melhor a mim.
Vivianne sabia que todas aquelas consideraes eram dirigidas a ela. Sem graa, hesitou por um instante.
	O que aconteceu depois, Vivianne? Depois que um garoto sorridente bateu  sua porta? Vocs conversaram a respeito de uma tentativa de reconciliao?
	Um pouco. Tony queria ver Frances tambm, pois eles no haviam se encontrado desde que ns nos separamos.
	Vai ver que ele no teve tempo. Sempre foi uma pessoa to ocupada, no?
Murphy estava provocando, e Vivianne no sabia por qu. Sua animosidade parecia to pessoal, to crua, que ela sentiu-se na obrigao de defender o ex-marido. Contudo, controlou-se a tempo e continuou:
	Tony disse que a ocasio era perfeita, s que Frances estava dormindo. E eu no tive coragem para mand-lo embora.
	Por causa do passado?
	Por causa de Frances Bird.
Esfregando as tmporas, ela calou-se. Tentava ignorar a pontada de tristeza ao lembrar-se de Tony todo molhado de chuva, sorrindo como um garoto feliz da vida. Um sorriso que jamais iria se repetir por causa dos incompreensveis caprichos do destino.
Vivianne ento bateu na testa em exasperao. Como faria Murphy entender os desdobramentos daquela noite de abril? Como faz-lo entender quo triste e solitria ela vinha se sentindo, quo preocupada andava com a perspectiva de Frances crescer sem a presena do pai?
Deixando as mos carem ao longo do corpo, respirou fundo e prosseguiu:
	Frances nunca voltou a v-lo. E Tony e eu... Bem...
	Uma noite chuvosa. Era tarde. E Tony estava... charmoso, como sempre.
	,  verdade. O charme, a irresponsabilidade, a despreocupao com tudo e todos, a maneira divertida de encarar a vida, tudo isso nasceu com Tony. E acabou por mat-lo.
Murphy levantou-se com um salto, incapaz de disfarar o choque diante da notcia.
	O qu? Tony morreu? Como? Quando?
Vivianne no se esquivou quando ele tomou-a nos braos. Mesmo embaraada por ter de admitir que havia muito esperava por aquele gesto de proteo e conforto, refreou as emoes contraditrias que a ameaavam e declarou:
	Depois que... na manh seguinte... Tony foi pular de asa-delta. Assim que o dia clareou. Deve ter sido um impulso. Foi antes que Frances e eu acordssemos. Ele... ele no calculou os riscos.
	Oh, no posso entender... Como assim, ele no calculou os riscos?
	Eu tambm no calculei. E trs semanas depois descobri que estava grvida.
Murphy afastou-se um pouco e colocou as mos nos ombros dela, obrigando-a a encar-lo.
	Que tipo de risco foi esse, Vivianne? Como ele morreu?
Ela teve mpetos de aninhar-se no peito largo  sua frente, fechar os olhos e chorar at esgotar-se. Naquele momento, sentiu que a sua vida e a de Frances dependiam da fora e da solidez de carter de Murphy, uma solidez muito diferente do charme jovial de Tony. Com os olhos marejados, disse:
	Eu sou a prpria piada de primeiro de abril: uma tola, grvida, sem um tosto e sem ter onde morar.
	Vamos, Vivianne pare com isso, voc nunca foi dada a fazer dramas. O que aconteceu com Tony?
O tom spero de Murphy soou-lhe como um tapa. Irritada, ela secou as lgrimas e falou:
	Muito bem, Tony tinha levado uma cmera de vdeo e acho que... que se distraiu com o equipamento, no sei. Foi por isso que eu disse que ele no calculou os riscos.
	Oh, meu Deus!
	No diga que foi uma estupidez, Murphy, ou eu...
	Eu no diria nada, Vivianne, mas foi voc mesma quem falou. E  a mais pura verdade: foi uma estupidez sem tamanho. Seria infantilidade negar. E ns dois sabemos disso.
	Tony  pai de Frances. Era.
	Por isso deveria ter se preocupado com ela. E com voc. Se tivesse cuidado de proteger as duas, no andaria com a cabea nas nuvens. No teria relegado suas verdadeiras responsabilidades.
	Pare com isso, por favor. Voc est sendo cruel. Tony est morto.
	E voc est grvida. Por causa de uma tolice impensada, Tony no est mais aqui para tomar conta de voc, de Frances e da criana que vai nascer. Ser que existe uma explicao plausvel para a irresponsabilidade estpida que ele cometeu? No me parece que nada neste mundo justificaria tamanha falta de juzo e considerao.
Murphy esperou e, ao longe, uma coruja soltou um piado agudo. Aquelas palavras que ele proferira eram as mesmas que sempre voltavam  mente de Vivianne, por mais que ela tentasse evit-las. Nessas ocasies, era tomada por conflituosas emoes de raiva e culpa. E agora, como continuasse a no encontrar argumentos que justificassem a atitude irracional de Tony, preferiu ficar calada.
Murphy aproximou-se ainda mais e ela teve a impresso de se contaminar com a revolta que ele sentia.
	A verdade precisa ser encarada, Vivianne. E, gostemos ou no, s vezes pode ser bastante dolorosa.
	Eu sei.
	Seu pai e sua me costumavam me contar a respeito das maluquices que Tony fazia. Estavam preocupados com voc e no queriam que se casasse com ele.
Vivianne afastou-se do olhar acusador e do calor do corpo de Murphy, virando-se de costas para ele antes de responder:
	Tudo isso  verdade. Mas eu quis me casar com Tony.
	Porque estava apaixonada por ele. Porque sempre fez o que lhe veio  cabea. E foi assim que voc largou a faculdade e fugiu.
	Sim, concordo plenamente. Foi dessa forma que as coisas aconteceram. Mas no me arrependo um s minuto de tudo o que fiz. Um s minuto, entendeu?
	Oh,  claro que entendi. E acha que valeu a pena perder tudo o que voc perdeu por causa de um grande amor?
	Eu...
Como se no percebesse o que fazia, Murphy estendeu o brao e, com gestos delicados, colocou a mo por entre os cabelos dela, massageando-lhe a nuca. Num tom mais calmo, perguntou:
	Valeu mesmo a pena, Vivianne? Tony era realmente o grande amor da sua vida?
	Eu o amava.
 De verdade? Tem certeza? Eu tenho as minhas dvidas.
A sensao provocada pelos carinhos de Murphy em seus msculos rgidos, o calor da mo dele sobre um doloroso ndulo de tenso, fez com que os pensamentos dela se embaralhassem num torvelinho de imagens e emoes confusas. Deixando a cabea cair para frente, Vivianne murmurou:
	Tony era o pai de Frances. Acho que eu perdo todas as loucuras que ele fez quando me lembro disso. Alm do mais, tambm tenho a minha parcela de culpa nesses desatinos.
	Compreendo.
Ela no tinha como retirar o que acabara de dizer, porm no queria que Murphy lesse as entrelinhas contidas naquela declarao. No queria que ele percebesse o mundo de vazio e decepes que fora o seu casamento. J lhe bastava a dor por tudo ter dado errado.
Ah, de que adiantava ficar remoendo-se em raiva e ressentimento pelo fato de Frances precisar de um pai e Tony nunca ter desempenhado esse papel na vida da filha? De que adiantava a desiluso por sab-lo desperdiar a vida de forma to irrefrevel? Era como cultivar uma vbora no peito, uma vbora cujo veneno acabaria por mat-la. O desespero a teria destrudo, se no tivesse cuidado de reprimi-lo e ignor-lo nas longas noites de solido que passara aps a separao de Tony McAllister. Preferira fingir que a mgoa no existia a fim de salvar a prpria vida.
E o sentimento de culpa por no ter amado Tony de fato... A culpa sempre fora outra pssima companheira: perversa, corrosiva e insidiosa, um peso a ser carregado nos ombros e na conscincia como um fardo letal. Julgara am-lo, a princpio. Mas a afeio no suportara o convvio dirio, a falta de carinho e cumplicidade, a ausncia de um projeto de vida que todo casal tinha de compartilhar. A duras penas, ela havia descoberto a solido como substituto para o desejo e a ternura dos primeiros tempos de namoro.
Contudo, como haveria de culpar Tony? Era responsabilidade dele se, no final das contas, ela terminasse sentindo apenas compaixo pelo marido e, vez ou outra, um certo divertimento com as maluquices que ele fazia? No seria falha dela exasperar-se e aborrecer-se com as infindveis invenes que ele engendrava, com as idias tolas e infantis que ele lhe oferecia?
No, no havia sido uma esposa amante e compreensiva. Confundira desejo com amor. E pagara caro por isso.
Vivianne afastou-se mais um pouco, colocando-se fora do alcance do alvio proporcionado pelos carinhos de Murphy. No instante seguinte, ele debruou-se sobre o gradil da varanda e, olhando a escurido  sua frente, comentou:
	E ento voc resolveu voltar para Manatee Creek.
	Sim. Frances lhe disse a verdade, ns no tnhamos mais nenhum lugar para onde ir.
	Sei.
	Voc nos deixar ficar aqui at que eu encontre um emprego? S at l, prometo.
Como lhe era habitual, Murphy precisava ganhar um pouco de tempo para analisar a questo que lhe era apresentada. Virando-se para admir-la atravs das sombras, ele mudou de assunto:
	Voc no recebeu nenhum dinheiro da previdncia social? Ou algum tipo de penso para Frances?
	Ah, Murphy, deixe para l. Esquea, sim?
	No quero esquecer. Quero saber se voc realmente no tem nenhuma espcie de recursos.
Aquela conversa a estava deixando exausta. Desanimada, Vivianne encaminhou-se para a porta da frente do sobrado, decidida a encerrar o confronto que no levaria a nada. Mas de repente, sentndo-se privada do ltimo resqucio de orgulho, voltou-se para ele e respondeu:
	Est bem, vou ser direta e objetiva, Murphy. O dinheiro que recebi da previdncia no paga a conta de uma semana do supermercado. Tony nunca teve um emprego registrado na carteira de trabalho. Usei os dez mil dlares do seguro social para fazer o funeral e pagar as dvidas que ele deixou. E Tony devia muito para vrias pessoas. No final das contas, no sobrou quase nada. Alm disso...
	Sim?
	Bem, no podia imaginar que seria despedida da escola onde lecionava. Se soubesse, eu teria poupado para futuras eventualidades. E. isso. Est feliz agora?
	Feliz como jamais estive.
	Que bom!
Murphy cobriu com duas largas passadas a distncia que os separava. Observando-lhe o semblante sombrio e abatido, indagou:
	Voc est com uma daquelas suas dores de cabea, no est?
	No precisa ser bonzinho e caridoso. Neste exato momento, creio que sou incapaz de aceitar a caridade de quem quer que seja, apesar de precisar muito dela.
	S que, neste momento, me deu vontade de ser bonzinho. A escolha  minha. Os riscos, tambm.
Vivianne olhou para ele, para os contornos do rosto anguloso ressaltados pelo cu claro. Assim que Murphy tocou-lhe o queixo para ergu-lo um pouco mais, ela sentiu-se encorajada e perguntou:
	Conheo voc, vai nos deixar ficar aqui... No vai?
	Sim. Vou.
	Oh, Murphy... Eu sabia.
Ele deixou os braos carem ao longo do corpo. Depois disse, entre tranquilo e cansado:
	V deitar-se, Vivianne. Conversaremos a respeito dos detalhes deste acordo amanh. H alguns envelopes de aspirina no armrio do banheiro. Tome uma ou duas e v para a cama.
	Sei que voc no nos queria aqui, Murphy. No me queria aqui.
Um silncio profundo infiltrou-se na escurido que os circundava.
Vivianne abriu a porta e entrou, subindo devagarzinho a escada de piso nu do sobrado, passando pelos caixotes de papelo empilhados no corredor, sumindo dentro do quarto sem moblia onde Frances estava dormindo com o polegar na sua boquinha que mais parecia um boto de rosa.
Amanh. Murphy lhe dissera que conversariam sobre outros detalhes no dia seguinte. E ele sempre mantinha a sua palavra. Sempre.
Em pouco tempo, pela primeira vez em semanas, ela mergulharia num sono calmo e reparador. Pelo menos, era o que esperava.
Com o sol quente da Flrida, a manh seguinte despontou em meio a sonhos difceis e perturbadores em que Murphy insistia em afastar-se dela, seu rosto oculto, seu sorriso indecifrvel a enervante a provoc-la sem descanso.
E com um salto estudado Frances atirou-se sobre Vivianne. Esfregando o nariz no da me, a menina puxou-lhe os cabelos de leve.
 Ande, mame, acorde. J  dia. Temos lugares para ir e pessoas para visitar.
Vivianne gemeu baixinho e escondeu o rosto no travesseiro, voltando a fechar os olhos ao sol e s provocaes alegres de Frances.
	Vamos, mame! Voc disse que no podemos ser preguiosas.
	Oh, Frances, minha querida... No temos de ir a lugar nenhum hoje. Bem, talvez mais tarde... Por enquanto, no temos nada para fazer.
	Temos, sim. Ns sempre temos onde ir e o que fazer.
	Estamos bem acomodadas agora, docinho. Preciso procurar um emprego, mas isso pode esperar um pouquinho. Ns vamos ficar aqui. Por enquanto.
	Que bom. Gostei de dormir no cho, mame. E gostei da casa de Murphy. E tambm gostei...
Percebendo que Frances iria falar at que lhe faltassem as palavras adequadas, Vivianne sentou-se e, junto com o lenol, acomodou a filha na beirada da cama.
 J entendi, docinho: voc gostou de tudo de Murphy.
 E voc, princesa? Tambm gosta de tudo em mim?
Ele esgueirou-se pela porta, trazendo uma caneca com algo que cheirava sedutoramente a caf. Seu olhar divertido passeou pelos ombros dela, ao longo das tirinhas do baby-doll vermelho, demorou-se nos seios que, de repente, enrijeceram-se sob o tecido leve e quase transparente.
Nem Vivianne nem Frances tiveram tempo para dizer nada, pois Murphy foi logo anunciando:
 Gosto de tudo em voc, princesa. Voc continua em muito boa forma. Quer um cafezinho? Acabei de fazer.
Sentindo-se ruborizar da cabea ao ps, ela apanhou o lenol de volta e se cobriu antes de responder:
	Ah, sim. Ponha a caneca na... no cho. Caf recm-passado, que bom.
	Oi, Murphy.  Frances correu para junto dele.  Eu gosto de cafezinho tambm.
	Gosta, ?  Murphy ps a caneca no cho e, aps um sorriso provocador para Vivianne, voltou a ateno  garotinha:  Que tal se voc e eu fssemos ver o que tem de bom para comer na cozinha?
	Est bem.  Frances pegou na mo dele.  Mas no posso comear o dia sem o meu caf.
	 mesmo?  Murphy, porm, no parecia surpreso com o comentrio.  Tal me, tal filha.
	Ah, meu Deus  lamentou-se Vivianne.
	Vamos, Murphy.  Frances puxou-o para a porta.  Vamos ver o que conseguimos encontrar.
	 uma boa idia.  Murphy virou-se outra vez para Vivianne.  Tudo bem?
	Sim, a idia  tima  concordou ela.  Vo em frente, vocs dois.
Ele parou novamente  soleira, fazendo com que Frances desse um encontro em suas pernas. Fazendo questo de demonstrar a Vivianne o quanto apreciava o pouco dela que os seus olhos conseguiam enxergar, perguntou:
	Voc est bem, princesa? A dor de cabea passou, no passou?
	Passou, sim  respondeu ela.  Por que est perguntando?
	No sei...  O tom de Murphy era insinuante.  Voc est vermelha como um pimento. Ser febre? Espero que no tenha pegado uma gripe.
	No peguei nada.  Vivianne cerrou os dentes.  No estou com febre, no estou com gripe, no estou com coisa alguma. Alis, me sinto bem at demais. E ficarei ainda melhor quando tiver alguns instantes de privacidade.
	Ah,  claro.  Ele baixou o olhar para Frances.  Sua me sempre acorda com esse mau humor?
	Ela fica assim at tomar caf  explicou a menina, balanando a cabea.  As mulheres McAllister precisam tomar caf quando acordam, sabia?
	Andem, j para a cozinha  disse Vivianne, enfiando a cabea debaixo do lenol.
	Isso passa depois do caf  Frances tentou anim-lo.
	Espero.  Levando a mo  maaneta, Murphy comentou:  Esse seu comportamento no  nada adequado, Vivianne. Bem, espero que o caf lhe faa bem. Assim como a privacidade.
Apesar do tom de pura diverso de Murphy, Vivianne no queria descobrir a cabea e olhar para ele pois estava ruborizada at a raiz dos cabelos. Aquilo era tpico de Murphy Jones: fazer o possvel e o impossvel para deix-la confusa e embaraada.
Mas por que ele estaria com aquele tipo de brincadeira agora? No tinha a menor idia. Fosse o que fosse, o fato era que o humor dele havia melhorado um bocado desde a conversa da noite anterior no alpendre.
Do lado de fora da porta, ele ainda falou:
 At mais tarde, l embaixo.
Quando ouviu o corredor mergulhar no silncio, Vivianne arrastou-se do colcho improvisado at a caneca de caf. Sentando-se com as pernas dobradas sobre o assoalho nu, levou a caneca at o nariz e aspirou profundamente. E quase gemeu de puro prazer.
No importava se Murphy estava a fim de fazer brincadeiras ou perturb-la; o cafezinho que ele preparava era de deixar qualquer um com gua na boca.
A maaneta rangeu novamente. Entreabrindo a porta, Murphy colocou a cabea para dentro do quarto.
	Voc est mesmo bem, princesa? Nada de enjos matinais, espero.
	Voc sabe que eu o odeio, Murphy Jones  retrucou Vivianne com calma, levando a caneca aos lbios.
	Tome tudo direitinho, princesa. Voc vai estar me adorando bem antes do ltimo gole, aposto.
	Este caf vai lhe salvar a vida.
	Por falar em vida... Essa minscula pea vermelha que voc est usando coloca em risco a vida de qualquer homem bem intencionado, sabia?  isso o que eu chamo de um colrio para olhos cansados.
	Acho melhor voc no abusar da sorte, rapaz.
	, concordo que amanheci um tanto sortudo hoje. Este  um excelente comeo para um novo dia.
Ela saboreava o caf aos golinhos, sem saber dizer se era a bebida aromtica ou o olhar insinuante de Murphy que a aquecia at os dedos dos ps. Resistindo ao impulso de espreguiar-se como um gatinho ao sol, comentou:
 Fazia anos que eu no tomava um cafezinho to bom. J estou comeando a me sentir muito bem disposta.
	Isso  um convite?
	Murphy!
	J estou indo, Frances  ele falou para a menina, mas o seu olhar permanecia fixo em Vivianne.
E os olhos verdes eram quentes como brasa, um lampejo indefinvel a cintilar nas pupilas negras. O pulso dela se acelerou por um breve instante, os plos dos braos delicados se eriaram, o rubor se intensificou nas feies suaves. Uma vez mais, Murphy fitou-lhe com exagerada ateno cada centmetro de pele que o baby-doll vermelho deixava  mostra.
Vivianne estremeceu, fazendo com que algumas gotas de caf rolassem pela lateral da caneca.
 Murphy, no olhe para mim desse jeito.
A voz dele soou roufenha, como se se desprendesse de algum ponto muito nervoso em seu peito:
	Gosto de olhar para voc.
	Mas no assim. No quero que...
	Como acha que estou olhando para voc, Vivianne?
	Voc sabe muito bem.
Ela notou que a garganta secou-lhe de repente. E experimentou um desejo que no tinha lugar naquela casa. Nem na sua vida. Um desejo que jamais deveria ter brotado no seu ntimo.
S que havia brotado. E com incrvel fora.
Quanto mais Murphy olhava para ela, mais os seus olhos se sombreavam com uma emoo impossvel de decifrar. Muito constrangida, Vivianne perguntou-se como haveria de conseguir morar ali, na companhia dele, por duas semanas. E no obteve uma resposta satisfatria.
No estava conseguindo lidar com Murphy Jones.
No estava conseguindo lidar com os seus prprios sentimentos.
Enquanto ela agarrava a caneca com uma fora absolutamente absurda e desnecessria, ele insistiu:
 Como acha que estou olhando para voc?
Vivianne quase deu um salto ao v-lo fazer meno de entrar no quarto.
No corredor ecoou uma risada sapeca de Frances Bird.

CAPTULO IV

Murphy logo concluiu que nunca tinha visto nada to belo e sedutor como Vivianne aps o despertar num dia de sol, seus cabelos encaracolados despenteados, seus movimentos ainda sonolentos, seu rosto de pele macia trazendo os sinais de uma noite de descanso.
Contudo, apesar da aparente boa disposio, ela ainda tinha no semblante vestgios da palidez provocada pela exausto, e leves olheiras insistiam em lhe macular as faces. A claridade da manh ressaltava o que as sombras da noite haviam ocultado e, no mpeto de lhe atenuar as marcas do sofrimento, ele chegou a pensar em lhe acariciar o rosto.
Murphy no podia sequer imaginar o quanto Vivianne estava esgotada. No dia anterior ela soubera utilizar com maestria os efeitos de uma boa maquiagem para disfarar o abatimento.
Sim, ele vira as unhas completamente rodas nos dedos dela e tambm reconhecera os indcios de uma de suas dores de cabea paralisantes. Percebera as manchas escuras sob seus olhos, mas imaginara que fossem resultado apenas de pouco sono e horas de viagem. Chegara at mesmo a pensar que havia lhe compreendido a fragilidade. A luz implacvel do dia, porm, via com espantosa nitidez todos os detalhes que a surpresa de encontr-la  sua porta tinha lhe escondido.
Era como se uma leve brisa de vero fosse capaz de carregar Vivianne Chapman McAllister do cho. Era como se, mesmo dormindo uma noite e um dia, ela no teria de volta a cor natural do seu lindo rosto.
Era evidente que Vivianne mantinha-se composta devido a uma indestrutvel manifestao de pura fora de vontade. Com inacreditveis obstinao e determinao, ela estava exigindo do corpo uma fora sobre-humana que poderia lev-la a um colapso.
E s agora Murphy percebia tudo isso.
Como fora tolo na noite anterior!
A fragilidade de Vivianne era simplesmente gritante nessa manh.
Controlando o impulso de aproximar-se e toc-la, ele deixou o brao cair. Mesmo que o ar de fragilidade fosse como um perfume a envolv-la, Vivianne era e sempre seria uma mulher firme e decidida. Essa energia interior ningum jamais poderia lhe tirar.
Uma mulher firme e decidida. Uma mulher especial. Uma mulher que que ele mal reconhecia aps tantos anos.
A mulher de rebeldes cabelos castanhos banhados pelo sol da manh, que o hipnotizava e emocionava. E aquele baby-doll minsculo com que ela dormira, uma diminuta pea vermelha que mais revelava do que escondia, que lhe ressaltava as curvas, que a transformava numa imagem quase mstica, seios e quadris exuberantes atravs do tecido sedoso...
Era essa mulher que mexia com ele como ningum, que lhe fazia o sangue pulsar nas virilhas.
E Vivianne sabia disso. Suas mos trmulas e seus olhos dilatados lhe diziam que ela sabia tambm o que o detinha na soleira da porta do quarto. Os mamilos enrijecidos sob o tecido vermelho revelavam o que ela nunca diria em voz alta. Mostravam a Murphy que Vivianne reagia  emoo, fosse qual fosse, que ela via nos olhos dele.
Era perigoso permanecer ali, admirando-lhe a pele plida corada pela vergonha e sabia-se l o que mais, pois aquela viso feminina e sedutora trazia  tona o que de mais masculino havia nele. Era perigoso porque ele, custasse o que lhe custasse, tinha por obrigao respeitar a debilidade fsica e emocional de Vivianne. Afinal, ela se encontrava em srias dificuldades e tinha ido at l em busca de ajuda, no de um romance sensual que s poderia criar problemas a ambos.
Assim, o inexplicvel surto de desejo que brotara em Murphy o fazia sofrer intensamente. No podia, nc tinha o direito de desejar Vivianne Chapman McAllister. E tambm no queria desej-la. No tencionava experimentar aquele sentimento por uma mulher que abandonara os pais e o solo poeirento de Manatee Creek por puro egosmo, sem pensar duas vezes na dor que poderia ter causado a todos que a amavam.
No esperava que ela voltasse para casa a no ser para os funerais dos pais. O sr. e a sra. Chapman tinham precisado tanto da presena de Vivianne... Mas ela jamais se importara com isso.
Essa era a realidade que no saa da cabea de Murphy: como uma borboleta num dia de vero, Vivianne havia danado na brisa e desaparecido. Da vida dos pais dela. Da vida dele.
Murphy imaginava que no devia ter se importado com isso. Contudo, se importara. E muito.
Cruzando os braos ao redor de si mesma aps ter largado a caneca de caf no cho, Vivianne olhou para ele com suplicantes olhos castanhos, olhos que pareciam transmitir uma mensagem diferente daquela que ela falou:
 Murphy, por favor.
Ele estaria enganado a respeito dela?
Teria interpretado erroneamente as suas atitudes durante todos aqueles anos?
Murphy esfregou os olhos. Devia era estar apenas atordoado pela inesperada onda de desejo por uma linda mulher vestida numa nada discreta roupa de dormir. Mesmo sem saber com o que concordava, disse:
	Est bem.
	timo.
Pelo visto, no era s ele que no tinha o que falar. Murphy suspirou, enquanto Vivianne se encolhia ainda mais.
Ouviram passos no corredor e, em questo de instantes, Frances estava reclamando atrs dele:
	Murphy, ande logo! O que voc est fazendo?
	Boa pergunta  respondeu ele, baixinho.  Acho que... me distra.
	Eu tambm  murmurou Vivianne, evitando-lhe o olhar, para depois dirigir-se  filha:  Voc est com fome, no est, docinho?
	Fome, fome, muita fome.  Frances encostou o ombro na perna dele, anunciando:  Eu e Murphy vamos fazer ovos mexidos, no vamos, Murphy?
	Vamos, sim, pequena.  Ele sentiu-se bem com o olhar confiante que a menina lhe dava, o que o encorajou a sorrir com certa naturalidade para a me dela.  Acha que aguenta uma repetio do jantar de ontem, Vivianne? Ovos so tudo o que tenho em casa.
	Vamos, Murphy  insistiu Frances, tomando a mo dele.  Venha comigo enquanto mame termina o caf.
	Isso, Murphy, v com ela  disse Vivianne, olhando para um ponto qualquer na parede acima da cabea dele.  Mais uns minutinhos e eu os encontrarei na cozinha.
	Est bem.  Antes de fechar a porta do quarto, Murphy perguntou para Frances:  Quer escorregar pelo corrimo at l embaixo?
	No sei...  Levando o polegar  boca, a garotinha olhou para a me.
 Pode ir  concordou Vivianne.  Murphy tomar conta de voc, docinho.
O n que ele tinha no peito se desfez. Vivianne demonstrava ser uma me zelosa e protetora e, mesmo assim, confiava a filha aos cuidados dele. Por algum motivo, aquilo o deixou emocionado.
Murphy colocou-se ao p da escada e esperou que Frances deslizasse suavemente pelo corrimo de madeira at seus braos. Assim que agarrou-se ao pescoo dele, a menina soltou um gritinho de alegria.
	Voc me pega de novo, Murphy?
	Claro, pequena. Suba devagarzinho, enquanto espero voc aqui.
Frances subiu novamente, fazendo um barulho danado toda a vez que o seu pezinho encontrava um degrau. Aguardando-a, Murphy ficou a imaginar Vivianne movimentando-se pelo quarto, abrindo as malas, escolhendo o que usar, despindo-se da camisolinha vermelha para vestir roupas leves e frescas que...
 Aqui vou eu, Murphy!
Obrigando-se a retornar  realidade, ele abriu os braos para receb-la.
Passando os bracinhos ao redor do pescoo dele, Frances deu-lhe um beijo estalado no rosto e exclamou:
	Adoro o seu corrimo, Murphy!
	Que bom!
	E agora?
Murphy olhou para ela com carinho, perguntando-se do que mais uma menina de quatro anos poderia gostar. E logo se lembrou do desjejum, j que ela dissera estar com muita, muita fome.
	Agora vamos cuidar do caf da manh, pequena.
	Ah,  mesmo!
	Quer quebrar os ovos para mim? Sua me a deixa fazer isso?
	Deixa, mas...
	Sim?
	 que s vezes caem pedacinhos de casca nos ovos.
	Ah, eu tambm fao isso de vez em quando. E olhe que j tive bem mais tempo para praticar do que voc.
Murphy colocou-a no cho e deu-lhe a mo, exatamente como Rita Chapman havia feito com ele muitos anos atrs. Naquela poca era um menino de apenas cinco anos de idade, e a sra. Chapman o conduzira do posto de gasolina onde sua me o tinha abandonado para uma casa com assoalho brilhante e comida na mesa. Ela o apresentara a um mundo novo, um mundo que ele jamais pensara existir. Com naturalidade e bondade invejveis, Rita Chapman o levara para a sua residncia e ali ele fizera o seu lar.
Embora os Chapman no tivessem condies para adot-lo legalmente, haviam lhe dado estabilidade fsica e emocional. Haviam lhe dado uma famlia. E uma irmzinha caula de um ano de idade, filha nica do casal.
Murphy gostaria de ter podido acreditar que eles fossem sua famlia de verdade. Contudo, nunca fora capaz disso.
Talvez fosse por causa da imagem da me biolgica, acenando vagamente enquanto lhe dizia para ficar quietinho e tomar o seu refrigerante, que jamais lhe sara da cabea. Assim como a voz calma dela, ao lhe garantir que voltaria dentro de instantes, que ele ainda trazia fresca na memria.
Ela jamais retornara.
Ningum nunca a encontrara.
E ele no fora procur-la.
Murphy dissera a si mesmo que no precisava dela, que no a queria mais. Tinha uma famlia. Uma me, um pai, uma irm. Eram eles a sua famlia, e no uma mulher ressentida e um homem desconhecido que a tinha abandonado. Acreditar nisso lhe dera foras para levar a vida. Era tudo calmo, claro, correto... exceto pela forma como comeara a se sentir em relao a Vivianne.
Lembrava-se perfeitamente do dia em que se esquecera de pensar nela como uma irm. Depois disso, por mais que tentasse, por mais envergonhado que se sentisse, nunca mais conseguira enxerg-la de um modo fraternal.
Uma mudana sutil e irresistvel havia ocorrido, mudando o seu relacionamento com ela e fazendo-o sentir-se  parte do que antes considerava uma famlia. Afastara-se de todos, solitrio, confuso e espantado com o conflito de emoes que assolavam a sua existncia de adolescente.
Foi ento que Frances puxou-lhe a barra da camisa.
 No que est pensando, Murphy? Voc est com cara de quem comeu um doce estragado.
Ele abriu a geladeira e apanhou a cartela de ovos antes de responder:
	Eu estava pensando na sua me... quando ela era uma garotinha.
	Ela era bonita como agora?
	Bonita? Vivianne era... linda.
Frances subiu num banco junto ao balco e apanhou um ovo entre os dedinhos.
 Minha me  a mame mais bonita do mundo!
Murphy deixou escapar um suspiro. Vivianne era mais do que bonita. Esperando pelo namorado para lev-la ao piquenique em comemorao ao Dia do Trabalho, ela ficara  sua frente usando apenas um mai de duas peas verde-turquesa. Um par de longas pernas que comeavam a adquirir curvas femininas diante dos seus olhos estupefatos. Enfeites em forma de conchas cor-de-rosa e laranja lhe prendiam os cabelos castanhos no alto da cabea. As unhas dos ps pintadas de rosa danavam no ar enquanto ela dava volteios, com os braos estendidos e um sorriso brilhante como diamante. Doce e inocente, Vivianne parecia uma sereia sada dos mares tropicais em plena sala de estar da residncia dos Chapman.
Ela tinha treze anos. Ele tinha dezessete.
E sentia-se velho demais para tanta inocncia. Experiente demais para todo aquele encanto ainda meio desajeitado. Leal demais para trair o casal que lhe dera uma vida nova.
Girando sobre si mesma, os seios brotando sob o parte superior do biquini, Vivianne havia inclinado a cabea para trs e lanado para ele um olhar que julgava sedutor atravs dos clios engrossados por uma pesada camada de rmel. Parando na ponta dos ps numa pose de estrela de cinema, perguntara:
 Ser que ele vai gostar de mim, Murphy? Ser que vai me achar bonita?
Murphy sentira um n na garganta. Seu corpo se incendiara de repente, e ele experimentara uma vontade imensa de dar uns bons sopapos na cara ainda marcada de espinhas do namoradinho de quatorze anos dela.
Mas apenas respirara fundo. Depois, sem pensar muito bem no que fazia, aproximara-se dela e, erguendo a bainha da camisa, pusera-se a lhe limpar o rmel dos clios e a sombra azulada das plpebras. Vivianne arregalara os olhos, suas pupilas enormes e escuras a engolf-lo, enquanto ele dizia com uma calma que estava longe de sentir:
 Mike ir gostar muito mais de voc se puder enxerg-la debaixo de toda essa coisa grudenta que est escondendo o seu rosto, princesa.
	Murphy!
	Pronto! Agora voc est bonita de verdade.
	Voc  um tonto!
	No deixe aquele punk avanar o sinal com voc, princesa. Se ele tentar alguma coisa, d-lhe um bom tabefe, est bem? Ou ento me chame.
Vivianne fizera uma careta, apanhara a toalha de praia e a sada de banho e correra para a porta da frente. Antes de sair, contudo, lhe mostrara a lngua para depois declarar:
	Mike no  nenhum punk. Ele joga no time de futebol da escola.
	E da? Desde quando jogadores de futebol no podem ser punks?
Mas ela j tinha sado porta afora. Para o primeiro de uma srie de encontros que faziam a campainha tocar o tempo todo e as portas de carros abrirem-se e fecharem-se sem parar.
Um dos enfeites que Vivianne usava no cabelo havia cado no cho e ele o apanhara. A pea de plstico cor-de-rosa brilhava ainda hoje como quinze anos atrs.
Quinze anos. Antes que tudo mudasse entre ele e a irm que ela nunca de fato tinha sido.
 XiL.
Frances estendeu a mo aberta para ele. Uma gema amarelinha e pedaos de casca de ovo decoravam a palma mida, escorrendo-lhe entre os dedinhos em direo ao piso limpo.
 Acidentes acontecem, pequena.
 Mas eu no deixei cair casca na tigela, Murphy. Pode ver.
Coando o queixo, Murphy comeou a entender o porqu do desastre na cozinha na noite anterior.
Com uma rpida espiada na tigeja, ele comentou:
	No tem casca, mas tambm no tem ovo suficiente.  melhor colocarmos mais um.
	Quer que eu quebre?
	Se no h outro jeito...
Meia dzia de ovos depois, Murphy resolveu que havia uma quantidade razovel dentro da tigela para o caf da manh. E percebeu tambm que Frances Bird era uma mquina de tagarelar, alm de no ficar parada um minuto sequer.
No demorou muito e Vivianne entrou na cozinha. Usava short amarelo e camiseta laranja e, sem perder tempo, mostrou a Murphy como lidava com uma filha to peralta. Rpida e gil em todos os movimentos, lavou as mos de Frances, prendeu-lhe um guardanapo ao redor do pescoo e limpou toda a sujeira que a menina fizera com pedaos de toalha de papel. Em questo de instantes, estava tudo pronto e arrumado.
E como ela falava! Mesmo dedicando-se a todas aquelas tarefas, as palavras saam-lhe da boca como gua que rolasse por entre as pedras.
No era difcil saber a quem Frances Bird havia puxado.
Murphy notou que Vivianne tinha aplicado uma maquiagem leve  face, criando sobre as feies uma iluso de energia e vitalidade. Contudo, ele ainda se lembrava muito bem das olheiras e da palidez que vira no rosto recm-desperto.
Ela cortou duas fatias de po e colocou-as na torradeira que nunca fora usada, dizendo:
	Pensei que voc fosse bem cedinho para o trabalho, Murphy. Frances e eu estamos atrapalhando a sua rotina, no estamos?
	No se trata disso  respondeu ele, evasivo.
	Olhe, voc continua com os seus planos, est bem?  pediu Vivianne.  Imagino que j deve ter assumido compromissos para hoje. Faa o que tiver de fazer, pois Frances e eu nos arrumamos. No  mesmo, Frances?
	.  A garotinha passou gelia de laranja no po que a me havia lhe cortado.  As mulheres McAllister sempre se arrumam.
	J avisei que s vou trabalhar  tarde  explicou Murphy.  No se preocupe, Vivianne, est tudo bem.
	Se voc diz...  Ela deixou-se cair sobre um banco, mas levantou-se em seguida e foi at a geladeira, onde apanhou a caixa de leite para depois servir trs copos.  Seus copos so muito bonitos, Murphy.
	Comprei numa promoo no supermercado, o preo estava muito bom e eu precisava de copos  explicou ele com naturalidade, passando o dedo pelo desenho de repolhos na borda daquele que Vivianne lhe entregara.  E o enfeite  uma boa forma de nos lembrar que legumes fazem bem  sade.
	Eu gosto de ervilhas  anunciou Frances, observando com uma careta a srie de cenouras estampadas no seu copo.  Mas gosto de ervilhas frias. Na salada.
	Como voc chegou at aqui, Vivianne?  Murphy mudou de assunto.
	Tomamos um avio em Wisconsin  respondeu ela, colocando o seu leite sobre a mesa.
	E depois tomamos um nibus e um txi, e o motorista sabia direitinho onde voc morava, Murphy  acrescentou Frances.  Como ele sabia?
	Todo mundo me conhece por aqui  falou Murphy, sem esclarecer muita coisa.  Voc no viu as placas com o meu nome no aeroporto, pequena?
	Pode ser.  Frances ficou pensativa.  Mas eu no sei ler o seu nome. Sei ler poucas palavras. Sei o meu endereo e o meu telefone e... Voc est brincando, no est?
	Estou, sim  ele confirmou com uma risadinha.
	Gosto de brincadeiras.  A menina retribuiu-o com um sorriso cmplice.
	Frances gosta de tudo  observou Vivianne, acomodando-se  mesa diante da travessa com a omelete.
	No gosto de fgado  lembrou a garotinha, estendendo o prato para a me.
	Eu tambm no  disse Murphy, que comeava a gostar da conversa despreocupada das suas hspedes.  E odeio sorvete.
Ah, isso eu sei que  brincadeira!Frances no se conteve.
	S podia ser, no ?  Murphy provou os ovos e a torrada com gelia.
	Eu logo vi!  A menina mordeu mais um pedao de po.  Todo mundo adora sorvete. Vai ter sorvete na minha festa de aniversrio. Vou escolher do tipo napolitano porque tem os trs sabores de que mais gosto: nata, morango e chocolate.
	Eu tambm prefiro sorvete napolitano.  Murphy apoiou os cotovelos na mesa e olhou para Vivianne:  E voc, o que pretende fazer hoje? Sair em busca de algum sorvete especial?
	Nada de sorvete  respondeu ela, levantando-se para limpar a mesa.  Vou sair em busca de um emprego, isso sim. Essa  a prioridade nmero um da minha lista.
	Sente-se e descanse mais um pouco, princesa  sugeriu Murphy.  Os seus olhos esto vermelhos como os de um coelho.
	Minha mame coelhinho  falou Frances, sujando o queixinho com leite.
	Nunca vi voc parada por mais de cinco minutos  acrescentou Murphy.
	 que tenho...  ia dizendo Vivianne.
	Lugares para ir e pessoas para visitar  completou a menina.  Fizemos planos antes de vir morar com voc, Murphy. Mas a mame no queria se levantar hoje e falou que no tnhamos nenhum lugar para ir, s que temos. No podemos perder tempo, porque eu e mame vamos ter um beb logo, logo. Entendeu?
	Ah, droga...  suspirou Vivianne.
	Viu como so as coisas, Murphy?  Frances revirou os olhinhos.  Mas quando o beb chegar, mame no vai mais reclamar assim. Eu e ela temos de dar bons exemplos para o bebezinho.
	Muito bem, Frances, j chega  Vivianne censurou a garotinha num tom carinhoso.  Vou lhe dizer quais so os meus planos, Murphy. Nada muito srio ou complicado: vou procurar um emprego, ver um apartamento para alugar, registrar o meu diploma de professora aqui na Flrida...
	Isso  necessrio?  ele quis saber.
	Sim, preciso verificar se vou necessitar de outros crditos educativos, se tenho de fazer mais matrias para me qualificar como professora neste Estado  explicou ela.  E depois vou at o banco para verificar se... Bem, tenho uma poro de coisas para fazer.
	E Frances?  insistiu Murphy.
	Ela vai comigo  Vivianne tentou ser taxativa.
	As mulheres McAllister...  comeou a menina.
	So unidas  ele finalizou.
	Voc aprende depressa  disse Vivianne com um sorriso.
	 verdade  Murphy concordou.  Tenho aprendido vrias coisas a respeito das...

	Mulheres McAllister?  foi a vez de Vivianne completar, aproveitando para se levantar.  Ah, somos meio complicadas s vezes. E sempre muito profundas.
	Calma.  Ele tocou-lhe o brao.  Para que tanta pressa?
	J lhe expliquei por que no tenho todo o tempo do mundo, Murphy  ela quis soar convincente.  E voc s falta me pedir que lhe cante uma cano.
	Ah, isso seria absolutamente impossvel.  Ele riu.
 Voc sempre foi a pessoa mais desafinada que j ouvi, princesa. E olhe que eu a conheo muito bem!
Por um momento, Murphy achou que um comentrio brincalho o ajudasse a dissimular os sentimentos conflituosos que o aturdiam. Ah, cus... A ternura e o desejo eram capazes de virar um homem do avesso!
Colocando os cotovelos sobre a mesa, Frances aproximou-se dele e perguntou:
	Como assim, Murphy? Por que voc conhece mame muito bem?
	Eu quis dizer que conheo a sua me desde que ramos crianas.  Ele ficou srio.  Ns crescemos juntos. O seu av e a sua av me criaram.
	Ento por que voc no se chama Murphy Chapman, como a mame?  Frances girou sobre o banco.  Numa famlia, todos tm o mesmo sobrenome.
	Voc  a menina mais "perguntadeira" que j conheci  comentou Vivianne, sem saber o que dizer.
	Vov e vov eram seus pais tambm?  Frances no se intimidou com a repreenso.  Voc  irmo da mame?
	No  respondeu Murphy sem rodeios.
	E onde esto o seu papai e a sua mame?  a menina no se dava por vencida.
Murphy no sabia como responder aquelas perguntas astutas, apesar de inocentes. Tinha a impresso de que, dissesse o que dissesse, acabaria criando uma situao constrangedora. Seria possvel que uma criana de quatro anos tivesse uma grande capacidade de discernimento e compreenso? Incapaz de avaliar a profundidade da situao, ele optou pela sinceridade e respondeu apenas:
	No sei onde os meus pais esto.
	Eu no tenho um papai, sabia?  prosseguiu Frances, apoiando a cabea na palma da mo.  Mas tenho a minha mame. Voc no tem uma mame, Murphy?
	No, no tenho falou ele, no sabendo como explicar o amor que sempre sentira pelos Chapman.
Murphy sempre tentara no pensar na afeio que o bom casal lhe dedicara como uma mera forma de caridade. E tinha plena conscincia do que a sua vida teria sido sem a ajuda dos pais de Vivianne. Era uma pena, contudo, que mesmo tendo sido tratado como um verdadeiro filho, nunca tivesse se sentido um membro da famlia de fato. Talvez fosse um menino crescido demais quando Rita Chapman o socorrera. Ou talvez fosse da sua natureza sentir-se uma espcie de intruso onde quer que se encontrasse.
 Conheo um menino que tem seis tios  Frances continuava com suas observaes.  Voc  meu tio?
Ele evitou solicitar a ajuda de Vivianne, pois preferia responder por si prprio s inquietantes indagaes de Frances Bird. Mas o problema era que no sabia como fazer isso. Como os pais conversavam com os seus filhos? Haveria um livro com explicaes para lidar com situaes embaraosas?
Passando a mo pelos cabelos, Murphy tornou a optar pela verdade:
	No, no sou seu tio. O seu av e a sua av me criaram, mas a sua me e eu no somos irmos.
	Sei...  Frances, porm, no tinha apreendido bem a questo.  Ento voc  um dos meus primos? Mame falou que eu tinha primos em segundo grau na Flrida.
	No, nem sequer um primo  ele continuou sendo honesto.
	Acho que estou confusa  admitiu a menina, afinal.  Quem  voc, Murphy?
	Ah, se eu ao menos soubesse!  Uma dor antiga amargurou o tom de voz dele.  Creio que sou... apenas Murphy.
Frances ficou a olh-lo por um longo instante. Depois de pensar e pensar, colocou a mozinha sobre a dele e disse:
 J sei: voc pode ser o meu Murphy. Est bem assim?
Murphy tomou a pequenina mo na sua. Engolindo um sbito n na garganta, murmurou:
 Est, sim. Me sinto muito honrado em ser... o seu Murphy.
	Que bom! Porque todo mundo tem de pertencer a algum, sabia? E agora voc pertence a mim. Estamos combinados?
	Estamos.
O calor da mozinha que apertava a sua tocou o corao apertado de Murphy. De repente, uma idia insensata invadiu-lhe os pensamentos: teria sido daquela forma que Rita Chapman se sentira tantos e tantos anos atrs?
No, no havia o menor sinal de comparao. Caridade estava muito longe de ser o termo adequado para descrever o torvelinho de emoes que o assaltava enquanto a filha de Vivianne o fitava com os olhos repletos de confiana e inocncia.

CAPTULO V

O olhar de esguelha que Murphy deu a Vivianne transmitia uma solido e uma sensao de perda to intensas que ela teve de prender a respirao para conter um soluo. Como se uma cortina nebulosa se abrisse  sua frente, subitamente se deu conta da tristeza que parecia preencher a vida de Murphy Jones. Aquilo era uma surpresa. E um pesar muito grande.
Mas em seguida ele piscou e voltou a fitar Frances. Como num passe de mgica, seu olhar tornou-se indecifrvel outra vez. Era como se a expresso to dolorida no tivesse passado de uma iluso criada por luz e sombra.
Seria possvel que Murphy estivesse apenas chateado com a torrente de perguntas inconvenientes de Frances Bird? Ou com a confuso que elas estavam lhe trazendo  vida pacata e ordeira? Fosse o que fosse, Vivianne sabia que jamais esqueceria a imensa tristeza que vira turvar os sempre vvidos olhos verdes.
Num tom de voz cauteloso, ela disse  filha:
	Murphy tem de trabalhar, Frances. Termine a torrada e o leite e deixe de importun-lo com tantas perguntas, sim?
	O meu Murphy no acha que estou importunando-o  retrucou a menina com um sorriso largo.  Voc acha, Murphy?
	No,  claro que no me incomodo com as suas perguntas  ele respondeu numa voz tranquila, quase divertida.
A naturalidade de Murphy era tamanha que logo fez Vivianne imaginar se no tivera uma alucinao. Em nada ele agora lhe parecia algum triste ou solitrio. Mesmo assim, ela insistiu:
	Seja como for, Frances, no se deve aborrecer as pessoas com perguntas. Isso no  sinal de boa educao.
	No faz mal  respondeu a garotinha.  O meu Murphy sabe que eu tenho de entender as coisas. E como vou entender se no fizer perguntas?
	A pequena tem razo  observou ele, o rosto anguloso agora impassvel.  Ela precisava saber de onde eu apareci. E voc no tinha lhe explicado isso, no , princesa?
	No tenho tido muito tempo para rememorar velhas histrias  desculpou-se Vivianne, consciente de que no fizera a coisa certa.  Alm do mais, partimos de Janesville praticamente s pressas.
	 mesmo?  ele pareceu duvidar.  Pensei que tivesse amadurecido com calma a idia de recomear a vida na sua velha cidade natal.
	No fiz tudo o que fiz num impulso, se  isso o que voc est insinuando.  Vivianne apoiou as mos com fora no tampo da mesa a fim de reprimir o impulso de saltar da cadeira.  Foi... foi uma deciso apressada, digamos assim.
	Por causa do beb?  quis saber Murphy.
	Sim.  Incapaz de permanecer sentada, ela recolheu os pratos usados e encaminhou-se para a pia.  Ser que voc poderia nos dar uma carona at o centro da cidade, Murphy? Depois vou alugar um carro para procurar emprego, assim no terei mais que incomod-lo.
	Alugar um carro?  ele se admirou.  Essa  uma idia um tanto cara, Vivianne.
	Eu sei.  Ela derramou sabo num compartimento da lava-loua.  Mas no faz mal.
	S que voc disse que estava sem um tosto  argumentou Murphy com sensatez.
	E estou.  Vivianne fechou e ligou a mquina; sem graa, acabou mentindo:   que ainda no atingi o limite do carto de crdito. E j que voc nos deu um lugar para ficar, podemos nos arrumar com o resto.
	No sei o porqu, mas a verdade  que no acredito no que est dizendo  retrucou Murphy, levantando-se e colocando-se ao lado dela.
	Por que nunca aceita as coisas como elas de fato so?  Vivianne apanhou o pano de loua e ps-se a limpar as migalhas da mesa.  Alm do mais, esse assunto no lhe diz respeito. Voc j fez demais ao nos permitir nos instalarmos na sua casa nova.
	Voc sabe muito bem que eu jamais a mandaria embora.  Ele girou uma cadeira e sentou-se, apoiando os braos no espaldar.  Caso contrrio, no teria voltado para Manatee Creek, no ?
Enquanto Murphy mantinha-se a uma distncia confortvel, ela retornou para junto da pia e comeou a lavar a caarola usada para a omelete. Foi s aps pendur-la, limpa e seca, no gancho que falou:
	Voc no tinha nenhuma obrigao de nos hospedar.
	Em termos. Se no por voc, acho que eu devia isso a seus pais, Rita e Bannister Chapman.
Era o medo de ouvir isso que a impedira de correr para a casa de Murphy muito antes. Vivianne odiava ter de aceitar a idia de que ele lhe daria abrigo por supor que era esse o seu dever. E a sensao de ser considerada um mero objeto de pena a fazia arrepiar-se.
 Voc no me deve nada por causa de mame e papai, Murphy.
Ele levantou-se de supeto e, com dois passos, colocou-se diante de Vivianne. Segurando-a pelos ombros, obrigou-a a encar-lo e disse:
	Eu devo muito a todos vocs. E nunca, jamais, seria capaz de lhe dar as costas sabendo que voc precisa de mim.
	M-mas...
	Que espcie de monstro voc pensa que sou, Vivianne?
	O meu Murphy no  nenhum monstro, mame  disse Frances  entrada da cozinha, onde fazia uma fileira de minsculas bolinhas com pedacinhos dos guardanapos de papel junto  parede.
	 claro que ele no  um monstro, docinho.  Olhando para Murphy, Vivianne baixou o tom de voz:  Voc sabe muito bem que eu nunca pensaria uma coisa dessas a seu respeito.
	No sei se ainda consigo imaginar o que voc pensa, Vivianne  retrucou ele, como se meditasse.

	Olhe, j faz oito anos que no nos temos visto. E verdade que trocamos cartes, uma ou outra carta ocasionalmente... Voc estava no Exrcito, sequer pde vir a tempo de assistir aos funerais de mame ou de papai.
	E o que isso quer dizer?
	Quer dizer que temos vivido vidas completamente separadas. A nica vez em que nos falamos pelo telefone foi por ocasio da morte de mame, quando tivemos de tomar as providncias para vender a casa.
	E por que acha que as coisas tomaram esse rumo, Vivianne? Por que acha que perdemos... perdemos contato um com o outro?
	No sei. No fao idia.
	Depois que partiu para estudar na faculdade, voc nunca mais voltou para casa. No foi assim?
Ela no queria, no podia admitir a humilhante verdade. Talvez sua me soubesse o que de fato se passava, mas preferira manter-se calada.
Murphy insistiu:
 Voc devia ter voltado.
Vivianne pensou ter sentido uma. leve acusao no tom de voz dele. Sem compreender o motivo daquela recriminao, preferiu ignor-la e correu de volta  pia, pondo-se a lavar e dar brilho em todo e qualquer utenslio que lhe aparecia pela frente. Era impossvel permanecer parada.
Murphy aproximou-se novamente. Dessa vez Vivianne no conseguiu ignorar-lhe a presena, o calor que emanava do fsico bem-feito, o roar do jeans de encontro s suas pernas nuas enquanto ele esperava por uma resposta.
No pretendia envolver-se nas complicadas explicaes a respeito dos no menos complicados motivos que a levaram a evitar Murphy Jones e Manatee Creek depois de ter ido para a faculdade. Aquilo seria tocar num vespeiro de emoes que ela no tinha tempo nem energia para lidar naquele momento. No agora, talvez nunca.
Passando os braos ao redor e  frente dela, Murphy abriu a torneira e comentou com ironia:
 Me parece que voc est precisando de um pouco de gua para enxaguar esse mar de espuma. Ser que a pia vai sobreviver a toda essa esfregao, Vivianne?
Presa entre os braos dele, ela apertou os cotovelos junto ao corpo. A esponja parecia vibrar em suas mos. Por um timo, teve a impresso de que seria um desastre se se tocassem. Seria como abrir uma porta que ela fechara havia muitos anos.
Libertando-a, Murphy afastou-se. Vivianne sentiu que todos os plos do seu corpo se eriavam e, sem pensar no que fazia, torceu o pano de limpeza at que as mos lhe ardessem.
Murphy Jones era o motivo pelo qual ela havia sumido de casa, refugiando-se na faculdade. Era por causa dele que se mantivera sempre ocupada, sem tempo para nada. Ele fora o responsvel por seu casamento. Por sua maternidade. Por seus problemas com Tony. Por sua necessidade de trabalhar para viver.
Os assustadores e desconfortveis sentimentos que a tinham feito correr para longe de Manatee Creek e de Murphy pareceram desaparecer sob o peso do cotidiano. Vivianne no tivera tempo para pensar nele em todos aqueles anos. Mesmo assim, um minsculo mas incmodo ponto no seu subconsciente a obrigara a se manter bem distante do espao fsico ocupado por Murphy.
E agora, para seu imenso azar, aquele espao havia se transformado no seu lar, no seu ltimo e nico refgio.
Naquelas circunstncias, Vivianne preferia a morte a ter de ressuscitar a confuso de sentimentos que experimentara na adolescncia e juventude. E o motivo pelo qual no retornara para casa at aquele momento jamais deveria se tornar o tema de uma conversa entre ela e Murphy. Jamais.
Por isso, aceitaria qualquer tipo de acusao que ele lhe fizesse.
Era possvel que no ficasse nem duas semanas naquela casa. Talvez encontrasse um emprego mais rpido do que supunha. E, quando isso acontecesse, partiria dali no mesmo minuto. Dali e da vida de Murphy Jones. Para sempre. Como j fizera uma vez.
No era isso o que queria?
Vivianne terminou de secar a pia. Como no conseguisse encontrar mais nada para secar, limpar ou polir, mergulhou para dentro de si mesma e tentou erguer barreiras contra aqueles arrepios que a percorriam toda a vez que Murphy se aproximava. Minutos depois, quando enfim sentiu-se um pouco mais segura, encaminhou-se para perto dele.
Murphy estava encostado na parede oposta  que Frances fazia sua engenhosa trilha de bolinhas de papel. Quando os seus olhos se encontraram, ela falou:
	Eu queria dizer que papai e mame infelizmente no esto mais aqui e, por isso, creio que deixamos de ser uma famlia. Sendo assim, por favor no imagine que tenha qualquer tipo de responsabilidade a meu respeito. Eu nunca esperaria que voc...
	Acredita mesmo que aceitei tudo o que a sua me e o seu pai me deram para depois recusar conceder um abrigo seguro em meio  tempestade para a filha deles? Voc tem todo o direito do mundo de me pedir ajuda, Vivianne. Alis, teria o direito de exigir, se fosse o caso.
	Exigir?
	Claro que sim. Eu faria qualquer coisa por eles, pela memria deles.
Vivianne havia se sentado e Murphy foi para junto dela, ajoelhando-se  sua frente a fim de que os seus olhos ficassem no mesmo nvel. Incomodada com aquela proximidade, ela cruzou as pernas antes de dizer:
 Exigncias no so a maneira correta de convencer uma pessoa a lhe prestar um favor. Pelo menos, foi isso o que aprendi com a minha prpria experincia.
 O passado  histria, como se diz por a, e no vem ao caso neste momento. Mas o fato  que dividimos essa histria e, goste ou no, sou o nico membro que resta da sua famlia. Me ofendeu saber que voc no pensa desse modo a meu respeito.
No havia como sair dali, no havia como fugir dos olhos verdes e da mgoa que eles continham. Assim, ela respirou fundo antes de se desculpar:
	Oh, Murphy, juro que no tive a inteno de insult-lo. S falei que a nossa famlia tinha acabado porque no queria ser um fardo para voc.
	H uma coisa que no consigo entender, princesa: voc disse que no achava justo solicitar o meu auxlio nesta hora de dificuldade, mas foi exatamente isso o que fez. No lhe parece contraditrio?
	Eu no tinha outra escolha. No tinha para onde ir.
	No mesmo? Isso me surpreende. Cheguei a imaginar que voc pudesse contar com alguma outra soluo para o seu problema. Amigos, talvez.
	Eu... eu no consegui pensar numa outra pessoa, no consegui pensar em mais nada. Foi isso.
E era verdade. Uma voz interior lhe dissera que fosse para a casa de Murphy, pois somente l estaria segura. Sem um s minuto de hesitao, ela fizera as malas e rumara para a Flrida.
Murphy levantou-se, caminhando lentamente at a janela. L, murmurou:
 No quero que imagine que cuidar de voc e de sua filha seja um fardo ou uma obrigao para mim.
De costas, ele parecia uma esttua de mrmore. O contorno dos msculos em suas costas se insinuavam sob a camiseta, provocando nela uma irresistvel vontade de toc-lo. Murphy cruzou os braos e a camiseta ficou ainda mais apertada, delineando-lhe com perfeio os ombros largos e espadados. A fora e a energia que se desprendiam do fsico robusto eram produto do trabalho rduo, no de horas de exerccios numa academia de ginstica.
Ao ouvi-la suspirar, ele tentou anim-la:
	Voc no  nenhum caso de caridade para mim, Vivianne. Eu jamais a veria assim, mesmo que quisesse.
	Pois  exatamente assim que me vejo. E isso me causa uma sensao muito desagradvel.
	Voc est enganada, acredite em mim. Sei que no fui delicado e lhe dei uma recepo que estava longe de ser calorosa ontem... Peo desculpas por isso. Na verdade, fiquei to surpreso ao v-la aqui que...
	Eu entendo.
Vivianne temia que Murphy trouxesse  baila o fato de estar sentindo que sua privacidade fora invadida com a chegada dela e da filha. No queria discutir esse assunto na frente de Frances, que j tivera problemas de sobra nos ltimos tempos. Alm disso, a menina gostava dele, e no seria justo faz-la desconfiar de que no era bem-vinda naquela casa.
Ela sabia que Murphy nunca falaria uma coisa dessas to clara e abertamente, mas no queria correr riscos. Ademais, aquela conversa s serviria para faz-la sentir-se ainda mais humilhada. Odiava aquela diminuta parte da sua mente que ansiava ouvi-lo declarar que estava feliz por ela e Frances terem surgido praticamente do nada na existncia pacfica dele.
Ainda de costas e com os ombros tensos, Murphy falou:
	Voc fez a coisa certa ao vir para c. Aqui  o seu lugar. No fundo, o lar  o local para onde podemos correr quando precisamos. Voc necessitava de ajuda e tomou a deciso correta.
	Obrigada pela compreenso, Murphy. Eu sempre soube que podia contar com voc.
Ele finalmente se virou, e a luminosidade que vinha da janela lhe dissimulava as feies. Num tom tranquilo, perguntou:
	Voc disse que queria uma carona at o centro da cidade, no foi?
	Sim,  verdade.
	No mudou de idia?
	No, no mudei.
 No seria melhor ficar em casa hoje e descansar? Fazer novos planos?
Vivianne hesitou. A idia de tirar um dia de folga e pass-lo simplesmente sem fazer nada era tentadora. Contudo, esperava um depsito bancrio enviado pela agncia que comprara o seu carro em Wisconsin e precisava verificar se a transferncia j tinha sido feita ou, caso contrrio, quanto tempo levaria para se completar.
No se arrependia do negcio feito s pressas, pois o automvel estava velho e no oferecia condies de segurana para uma viagem de Wisconsin at a Flrida. No podia expor Frances ao risco de pararem na estrada, sem conduo e recursos financeiros para prosseguir a jornada. Assim, fora realmente melhor recolher o pouco dinheiro que lhe sobrava no banco e gast-lo com as passagens areas mais baratas que conseguiu encontrar.
Passando a ponta dos dedos pelo tampo da mesa, Vivianne avaliou a situao. Se o depsito da venda do carro no tivesse sido compensado, s lhe restavam os cinquenta dlares que guardara com extremo cuidado na bolsa. E era com esse dinheiro que teria de viver at encontrar um trabalho.
Decidida a no tocar nesse assunto com Murphy, levantou-se e encaminhou-se para junto de Frances. Seria realmente um presente divino passar o dia sem fazer nada, apenas brincando com a filha... Curvando-se sobre a fileira de bolinhas de papel que a menina fazia, perguntou-lhe:
	O que est fazendo, docinho?
	Uma trilha para que Joo e Maria possam sair da floresta e voltar para junto da mame e do papai.
A lgica inocente de Frances Bird a fez refletir sobre suas responsabilidades. No, por mais cansada que estivesse no podia se dar ao luxo de tirar um dia de folga antes mesmo de comear a trabalhar.
Voltando-se para Murphy, ela falou:
 Obrigada pela sugesto, mas no posso desperdiar um dia inteiro s para descansar. Preciso ir  luta, como dizem.
Ele apontou para um chaveiro em cima do balco antes de responder:
 Como preferir. S que fao questo que voc use o meu carro. No faz sentido gastar dinheiro com o aluguel de um outro.
Era uma idia que ela podia aceitar. Se usasse o carro de Murphy, pouparia os ltimos dlares que tinha para uma emergncia. Mas... o caminho do inferno estava pavimentado por decises fceis como aquela. E se ela batesse o carro? Se quebrasse alguma pea do motor mesmo sem querer? A, sim, estaria realmente em maus lenis.
Pensando nisso, Vivianne apanhou o chaveiro e arremessou-o na direo de Murphy, agradecendo:
 Obrigada, mas  melhor no arriscar. Acidentes acontecem.
Assim que apanhou as chaves no ar, Murphy aproximou-se dela e colocou o chaveiro na palma da sua mo.
	No seja boba, princesa. O carro vai ficar parado aqui, pois uso a picape para trabalhar. Para que gastar com o aluguel de um automvel quando h um parado na garagem? Alm do mais, no tenho tempo para lev-la at o centro. Vou trabalhar no outro lado da cidade.
	Aposto que isso no  verdade, Murphy.
	O que no muda nada. Qual o problema em usar o meu carro? Ele est na garagem, apanhando poeira.
	Oh, no gosto de tomar coisas emprestadas. Muito menos coisas valiosas como um automvel.
	No seja teimosa, sim? Em caso de acidente, o seguro paga todas as despesas.
	Mas como...
	Ora, sei muito bem que  nessa hiptese que voc est pensando. Mas no precisa se preocupar, pois no vai acontecer nada. Alm disso, um automvel  feito de lata e plstico; quebrou, consertou.
	Ah, eu no sei se...
	No entendo por que voc est complicando uma situao to simples. E ento, vai tomar a atitude mais sensata ou no?
Os contornos frios e irregulares da chaves mordiam a palma da mo de Vivianne. Fazer uso de um carro pelo qual ela no tinha de pagar... Bem, que mal isso podia fazer a no ser arranhar um pouco mais o seu orgulho j to combalido? Para que passar por mais dificuldades depois de todos os contratempos que j tivera de enfrentar? A voz de Murphy soou-lhe quente, animadora:
	No me diga que continua a mesma menininha cabea-dura e cheia de vontades que conheci to bem. No foi voc mesma quem disse que as pessoas mudam?
	Ah, est bem. Vou tomar o seu carro emprestado, mas s porque voc usou de argumentos irrefutveis como esse.
	timo! Eu sempre desconfiei de que possua um dom infalvel de persuaso.
	No  s isso, meu caro. H pessoas que acreditam em tudo. At no Papai Noel.
	Tsk, tsk, no me diga que  esse o seu caso, princesa.
	Pareo to ingnua assim? E isso o que voc pensa de mim?
	Ah, se eu pudesse dizer o que penso a seu respeito!
	OK, j chega de brincadeira. Voc s est fazendo isso para que eu no me sinta mal por usar o seu carro.
 Claro que sim, Vivianne. Sempre que tento persuadir uma mulher a fazer determinada coisa, eu a chamo de cabea-dura e cheia de vontades. Ou ser que voc se esqueceu desse detalhe?
 Oh, Murphy, voc no tem jeito mesmo!
	Seja razovel, princesa. E admita que voc  mais teimosa do que uma mula. Faz parte do seu carter. Do seu charme.
	Charme, ?
	Exatamente... Ulal! Ser que andei falando mais do que devia? Afinal, no posso confessar o que penso de voc.
	No pode e no deve. Por favor.
	No est mais aqui quem falou.
	Ento reconhea que, tirando o fato de ser um pouquinho teimosa, sou a mulher mais encantadora e boazinha deste mundo.
Encantadora voc sempre foi. Boazinha... Bem, vai ver que as pessoas mudam.
	V trabalhar, Murphy, antes que eu d com uma das suas reluzentes panelas na sua cabea!
	Calma, calma... Sou contra a violncia, voc sabe.
	Ento, mexa-se!
Rindo, ele apanhou a bandana vermelha no bolso do jeans e atou-a ao redor da testa com gestos rpidos e precisos.
	Falando a srio, Vivianne: vai usar o carro, no vai? Eu ficaria muito aborrecido se voc recusasse.
	Vou us-lo, sim. Seu carro me ser de grande utilidade. Obrigada por me emprest-lo.
	J vou indo, ento.  Passando por Frances Bird, ele roou-lhe os cabelos com carinho.  At mais, Frances. Faa boas trilhas.

	Tchau, meu Murphy  respondeu a menina, ainda concentrada nas bolinhas de papel.  Comporte-se.
	Eu sempre me comporto muito bem  retrucou Murphy, mas os seus olhos estavam fixos em Vivianne.  Pode perguntar para a sua me.
Com um sorriso amarelo, ela seguiu-o rumo  porta nos fundos da cozinha que dava acesso  garagem. Antes de digitar os nmeros no sistema eletrnico de segurana, Murphy abaixou a voz e falou num tom que nada tinha de divertido:
	Se voc precisar de dinheiro...
	Oh, por favor!
	Me escute, sim? H uma caixa de madeira sob a minha cama com uns duzentos ou trezentos dlares. Pegue quanto precisar, pelo motivo que for. Entendeu?
	Entendi. E seria o mesmo que roubar a sacristia de uma igreja.
	No estou brincando, Vivianne. Prometa-me que vai pegar o dinheiro se necessitar dele.
	Murphy, no comece com...
	Voc promete?
	Se precisar, se houver alguma emergncia, eu apanharei o dinheiro. Est bem assim?
	Pena que eu no acredite em voc.
	Pacincia.
	Seja como for, voc sabe onde procur-lo. Numa caixa de madeira embaixo da minha cama.
Lembrando-se daquele instante de desorientao, quando teve a impresso de no reconhecer Murphy ou de no saber o que ia no ntimo dele, Vivianne comentou:
	Engraado... Voc sempre foi uma espcie de trapezista que se equilibrava na corda bamba sem a rede de segurana embaixo dela. Quando foi que se tornou to prudente?
	Deixei de ser adolescente e irresponsvel. Pegue as chaves e o dinheiro, Vivianne. Assim, ter como comprar alguma coisa para Frances se ela precisar, est bem? Estou lhe pedindo em nome de Frances.
	Sim, est bem.
Enquanto ele digitava a senha no sistema de segurana, Vivianne viu-se engolindo o orgulho. De novo. Por Frances Bird, ela faria qualquer coisa. Tantas vezes quantas fosse preciso.
Assim que a porta destravou-se, Murphy perguntou:
	No quer dar uma olhadinha no carro? Ver se tem alguma dvida?
	Sim,  uma boa idia.
Vivianne seguiu-o pela lavanderia que antecedia a garagem, onde pilhas de roupas limpas e por passar se amontoavam em cima da lavadora e da secadora novinhas em folha. No sabia muito bem o que esperar. A picape de trabalho de Murphy estava conservada, mas tratava-se de um modelo antigo e bastante usado. Ele nunca ligara muito para as aparncias, porm fazia questo de um motor potente que o levasse a qualquer lugar e vencesse qualquer dificuldade. E, segundo a me lhe escrevera, Murphy tivera um trabalho danado para reformar um Corvette vermelho 1972 dez anos atrs. Seria esse o carro que lhe emprestaria?
Ela no podia estar mais equivocada. Aps calcular que mais nada que viesse dele pudesse surpreend-la, Vivianne viu-se de olhos arregalados, queixo cado e corao disparado.
E tambm completamente muda diante do reluzente sed europeu. Quatro portas. Vidros rayban esverdeados. Rodas especiais. Estofamento de couro. Acabamento luxuoso.
Evidentemente muito caro. Carssimo.
Quando conseguiu reencontrar a voz, balbuciou:
	No posso usar esse carro, Murphy. Nem sei se saberia dirigi-lo. No, realmente no posso.
	 claro que pode.
	Oh, no! Seria loucura!
	Que loucura, Vivianne? Voc vai gostar dele: tem cmbio automtico, direo hidrulica, condicionador de ar, toca-CD...  uma delcia, s falta andar sozinho.
	 disso que tenho medo.
	Como assim?
 Essa mquina deve ser mais inteligente do que eu.
Enquanto Murphy dava uma gargalhada, ela passou a mo com cuidado sobre a pintura polida do capo e murmurou:
 At parece que voc nunca o tirou da garagem.
	Me oua, princesa:  apenas um carro, nada mais do que isso. Gosto dele, mas no posso afirmar que seja o meu melhor amigo. Saia com ele, dirija-o  vontade, mande-o lavar se algum pssaro fizer sujeira nele e pronto.
	No, j disse que no posso.
	E eu j disse que  apenas um automvel. Bateu, arrumou; quebrou, consertou. No crie problemas onde eles no existem, sim?
Mas para Vivianne aquilo era mais do que lata e motor. Era um sonho, uma fantasia. A cor vermelha inspirava aventura; os acessrios garantiam segurana. Se ela tivesse recursos, era um veculo igualzinho quele que compraria para si.
E seria to bom dirigi-lo!
Sentiu os dedos coarem de vontade de agarrar o volante. Sentiu uma estranha necessidade de experimentar-se no banco do motorista.
Atirando a prudncia ao vento e o orgulho aos infernos, buscou com o olhar os olhos de Murphy.
	Se voc estiver brincando comigo sou capaz de...
	No estou brincando com voc, princesa. Use o carro. Divirta-se com ele.
	Ah, eu seria uma tola se dissesse que no!
	timo! Venha, vou lhe dar as senhas de segurana, o nmero do meu pager e do meu telefone celular para o caso de voc necessitar.
Feliz como uma criana, Vivianne seguiu atrs dele rumo a um balco nos fundos da garagem. Murphy era mesmo um maluco em lhe emprestar um carro como aquele. Se tivesse cem dlares, ela apostaria tudo na certeza de que o veculo ainda tinha cheirinho de coisa nova em folha.
Depois de anotar uma srie de algarismos num bloquinho de papel, Murphy destacou a folha e entregou-a a Vivianne.
	Tome, aqui esto os nmeros.
	Espero no precisar. Sabe, Murphy, no estou acostumada a que algum cuide de mim com tamanha ateno. Me sinto meio... estranha, sei l.
	No estou cuidando de voc. Apenas lhe oferecendo...
	Uma rede de proteo contra quedas?
	, essa  uma boa imagem.
	Obrigada por isso tambm... meu amigo.
	Estou pensando de verdade no seu bem, Vivianne. Voc est grvida. E tem passado por maus bocados.
Ela no sabia se se zangava ou se o abraava. Zangar-se pela crueza das palavras que ele usava abra-lo por tudo de bom que ele lhe vinha proporcionando.
Tocando-lhe de leve no brao, disse apenas:
	No quero que se preocupe comigo.
	E como eu haveria de no me preocupar? Voc est metida numa confuso.
	 verdade, Murphy, as coisas no tm sido nada fceis. Mas vo se arranjar, voc ver. Vou cuidar do meu beb, vou cuidar de Frances... No h motivo para preocupaes.
Franzindo as sobrancelhas, ele ergueu a mo e, com muita delicadeza, refez o contorno do ventre de Vivianne. Depois disse baixinho:
 Ento por que ser que me preocupo com vocs trs?
Ela no sabia o que responder. Uma nesga de sol derramou-se pela janelinha da porta, dourando os plos do brao de Murphy. Evitando olh-la, ele comentou:
	Um beb. Um ser to pequenino, to desprotegido. Sem pai, sem... nada.
	Meu filho tem a mim. E ns vamos superar tudo isto.
	Tony foi muito irresponsvel. Arriscou a prpria vida sem pensar em voc, em Frances... Sem imaginar que um beb poderia...
Vivianne engoliu um n na garganta. Com o corao apertado, pensou na triste verdade contida naquela afirmao. Se ao menos...
 Voc vai precisar ser muito forte, princesa.
Sem lhe dar tempo para dizer mais nada, ele afastou-se rapidamente e tomou o assento  direo da picape. Em questo de instantes a porta automtica da garagem se abriu, deixando entrar o sol radiante de junho. E l se foi Murphy, envolto pelo calor, pelos pensamentos e pelas lembranas.
Vivianne levou a mo ao abdmen, no exato local que ele havia tocado minutos atrs. At aquele momento, no se permitira pensar no quo sozinha se encontrava.
Quo solitria.
O toque suave de Murphy a obrigava a admitir sua solido. A expresso nos olhos de Murphy a obrigava a pensar em como tudo poderia ter sido to diferente. Alguma coisa dentro de si parecia ter se rompido. Sentiu-se triste e desorientada como nunca estivera na vida.
Mesmo sabendo que Frances estava  sua espera na cozinha, Vivianne percebeu-se a criatura mais solitria do mundo. Assim que a porta da garagem se fechou, correu para a janela lateral da garagem e espiou para fora.
A picape j tinha desaparecido de vista, embora o rudo do seu motor ainda soasse ao longe.

CAPTULO VI

Retornando  cozinha, Vivianne tentou afastar a curiosa mescla de excitao e melancolia enquanto se preparava para as tarefas que tinha pela frente. Tarefas que executaria com pouco prazer, mesmo a bordo do esplndido carro importado que Murphy lhe emprestara.
Ah, era uma pena que um carro no pudesse fazer muita coisa. No lhe encontraria um emprego. No lhe resolveria os problemas.
Deixando Frances entretida em sua brincadeira, Vivianne subiu para o quarto a fim de escolher um traje e acessrios adequados a uma entrevista profissional. Optou por bege, prolas e salto alto, que lhe pareceram combinar com a temperatura de quase trinta graus na costa oeste da Flrida. Apesar do calor, calou meias de nilon para ressaltar as pernas, refez a maquiagem leve e vestiu o conjunto de saia e blusa bege.
No espelho de corpo inteiro do banheiro de Murphy, a mulher plida e tristonha que olhava para ela pareceu-lhe pattica, sem vida. No, decididamente o bege no caa bem numa pessoa exausta, grvida e com poucas horas de sono. Aborrecida, Vivianne concluiu que a mulher no espelho no transmitia energia suficiente para controlar uma sala de aula repleta de estudantes barulhentos.
A saia de algodo preto, mesmo que lhe conferisse um ar mais firme e autoritrio, acentuava-lhe a palidez. No, no queria surgir na frente de um possvel chefe como um coelho de olhos avermelhados. Melhor que Murphy fosse o nico a jug-la dessa forma.
A blusa de seda amarela era alegre, mas pretensiosa demais.
Por fim decidiu-se pelo vestido vermelho de algodo, levemente acinturado, com alas bem fininhas. Era simples e delicado, e a cor adicionava uma certa tonalidade s suas feies cansadas. Alm do mais, o vermelho tinha o poder mgico de lhe animar o esprito.
	Vamos, Frances  chamou ela, enquanto digitava o cdigo de segurana da porta de acesso  garagem.  Temos mais uma aventura pela frente.
	Mas Joo e Maria vo acabar se perdendo  respondeu a menina, torcendo o narizinho.  No quero ir a lugar nenhum hoje. Quero brincar aqui, em casa. E balanar na cadeira da varanda. Quero balanar, mame. E gosto da casa de Murphy, no quero ir embora. E nem passear.
Vivianne mordeu o lbio. Frances Bird tinha "grudado" em Murphy. E na casa dele. Sendo quem era, seria de se esperar que tambm herdasse a teimosia da me. No era justo ralhar com ela por causa disso.
Alm do mais, Vivianne no queria criar um caso com a filha naquele instante. Muita coisa desagradvel tinha acontecido na vida daquela criana de quatro anos de idade nos ltimos tempos. Haviam morado num apartamento atrs do outro. Frances trocara de pr-escola trs vezes em menos de dois meses.
A pequena precisava de calma e estabilidade, e no de brigas ou caos. E era isso o que parecia ter encontrado na casa de Murphy.
Olhando para as bolinhas de papel to cuidadosamente enfileiradas, Vivianne deu toda a razo  filha. Tambm no queria sair de l no momento.
Mas obrigou-se a ver que era uma mulher madura, que tinha responsabilidades. S os mais fortes e determinados ganhavam as batalhas da vida. Estava cansada de brigar, de discutir, de lutar pelas mnimas coisas; entretanto, que outra opo lhe restava? Cruzar os braos e esperar que o mundo desabasse sobre sua cabea?
 Temos que ir a lugares e visitar pessoas, Frances. Lembra?
	Lembro.
	E foi voc mesma quem me acordou hoje logo cedinho, no foi?
	Foi.
	Pois ento, mais um dia nos espera. Vamos?
Com os joelhos e as mos apoiados no cho, Frances olhou para as bolinhas que agora seguiam da lava-loua rumo  porta dos fundos.
 O meu Murphy vai voltar logo. Quando ele chegar, ns vamos com ele. Com ele.
	Murphy foi trabalhar, docinho. Voc no o ouviu dizer isso?
	Ouvi. Vamos esperar ele voltar.
Vivianne esfregou os olhos. Talvez o beb que estava a caminho se livrasse da herana de teimosia e obstinao dos Chapman... Ah, no se livraria, no. Para que se iludir, sabendo que aquele trao de personalidade se transmitia pela famlia toda de gerao em gerao?
Aproximando-se de Frances, ela abaixou-se e perguntou:
 Voc gosta muito de Murphy, no gosta?
A menina no parou de enrolar pedacinhos de papel ao responder:
	Gosto.
	Pois eu acho que ele est cansado de comer ovos mexidos.
	Murphy gosta de ovos.
	Eu tambm gosto. E voc tambm, no ?
	.
 Mas estou comeando a ficar com pena dele.
Frances segurou a bolinha entre o polegar e o indicador.
Muito sria, perguntou:
	Por qu?
	Murphy pode ficar fraco.
	Mas ele  grande.  muito forte.
	E como voc acha que ele ficou to grande e forte?
	Comendo ovos. No foi?
Teimosia e inteligncia podiam ser uma combinao letal. Aproveitando-se do instante de vacilao da filha, Vivianne apanhou uma bolinha de papel e, fingindo examin-la com interesse, falou:
	Ovos fazem muito bem, mas Murphy no pode comer s isso ou vai acabar fraquinho. Ele precisa de carne.
	E de ervilhas. Murphy vai gostar de ervilhas frias na salada.
	Com certeza, mas ele precisa tambm de leite, frutas, verduras...
	Fgado, no. Eu e Murphy no gostamos de fgado. Voc lembra que ele falou que no gostava?
Frances havia se levantado e Vivianne no perdeu tempo em lhe imitar o gesto. Pegando na mo da filha, disse:
	Lembro, sim. Eu estive pensando uma coisa, sabe?
	O qu?
	J que somos hspedes de Murphy, poderamos preparar uma boa refeio para ele. O que voc acha?
	Acho que Murphy ia gostar.
Ainda bem que Frances estava usando um vestidinho limpo e bonito, pois seria uma verdadeira batalha campal ter de faz-la trocar de roupa. Vivianne ainda pensou em lhe dizer que recolhesse as bolinhas de papel antes de sarem, mas logo se deu conta do risco que isso significava. Melhor seria torcer para que voltassem antes de Murphy, assim ela teria tempo para deixar a cozinha em ordem.
Por sorte, no havia nada sujo ou fora do lugar.
Bem, em termos.
O balco e a mesa estavam limpos e, graas ao surto de nervosismo que se apoderara dela, a pia brilhava como uma jia preciosa. Contudo, havia migalhas sob o banco em que Frances se sentara; uma echarpe de vero descansava sobre a geladeira; dedinhos lambuzados de gelia marcavam a porta de um dos armrios; e o fogo ainda no tinha sido devidamente desengordurado.
Vivianne disse a si mesma que cuidaria de tudo isso assim que voltassem. Se Deus a ajudasse, antes que Murphy retornasse do trabalho. A bela e aconchegante cozinha ficaria digna de figurar nas pginas centrais da melhor revista de decorao da regio. Era o mnimo que ela podia fazer.
	E as compras?
Vivianne deixou escapar um suspiro, esquecendo-se de sbito que odiava pessoas que suspiravam  toa. Depois fechou a porta atrs de si e da filha, tendo o cuidado de verificar que o sistema de segurana entrasse novamente em ao. S ento resolveu que faria o milagre da multiplicao dos peixes com os cinquenta dlares que trazia na bolsa. Pelo menos o jantar estaria garantido.
	Puxa, que carro lindo! Eu gosto do carro do meu Murphy!
	 muito lindo mesmo, docinho. E eu tambm gosto. Vamos!
Assim que Vivianne abriu as portas com o controle automtico, Frances pulou para o assento do passageiro e, aps passar o cinto de segurana sobre a baleia desenhada no peitinho do seu vestido, prendeu-o na trava como a me lhe ensinara.
O sed vermelho de Murphy deslizava pelas ruas como se escorregasse por entre a mansido das nuvens.
Vivianne seguiu primeiramente para a superintendncia do condado. E l ficou sabendo que no havia vagas para professores, no momento. Quem sabia, no outono...
A secretria, uma senhora de meia-idade que parecia prestes a se aposentar, deu um chiclete para Frances antes de demonstrar sua simpatia pelo caso:
 Algumas professoras descobrem que esto grvidas, outras se mudam, outras ainda desistem do emprego de uma hora para outra... Volte novamente no fim do vero, querida.
No saguo, Vivianne anotou as informaes referentes s qualificaes e requisies para o cadastramento do seu diploma. Alm dos documentos, o estado da Flrida exigia certos requisitos que ela poderia providenciar at a abertura de novas vagas para o trabalho de professor.
Depois de guardar toda a papelada numa pasta azul, Vivianne voltou para o carro. Deixando a superintendncia, fez cinco entrevistas nada animadoras em creches e pr-escolas. Embora nenhuma mostrasse interesse em matricular Frances quela poca do ano, todas tomaram nota do seu nome e endereo.
No ltimo jardim da infncia visitado, a jovem recepcionista nem se dera ao trabalho de desligar o telefone ao declarar:
 No momento no temos vagas. Venha novamente daqui a um ms ou dois.
Vivianne no sabia dizer se a notcia era boa ou ruim, pois no gostara nem um pouco do ambiente daquele local. Os professores, sem uniforme, passeavam de um lado para outro dos corredores como se no tivessem mais o que fazer; o rudo da algazarra que vinha das salas de aula era ensurdecedor. Mas como no lhe restava outra coisa a no ser esperar...
No banco, ela preencheu a ficha para a abertura de uma conta corrente e checou a confirmao da transferncia do depsito feito em Wisconsin. O dinheiro da venda do carro ainda no tinha sido compensado.
 Leva alguns dias  informou-lhe o caixa loiro que vestia terno e gravata cinza-chumbo.  Verifique novamente na segunda-feira.
S que, sem essa quantia, Vivianne no tinha como fazer o adiantamento necessrio para garantir o aluguel de um pequeno apartamento que havia localizado nos classificados do Notcias de Manatee Creek.
	No ia dar certo mesmo...
	O que no ia dar certo, mame?  perguntou Frances, lambuzando-se de sorvete enquanto batia com os pezinhos no banco do jardim pblico.
	Alugar o apartamento  respondeu Vivianne, dobrando o jornal.  Era muito caro.
	Ns no precisamos de outro apartamento. Agora moramos com Murphy.
	Sim, mas...
Vivianne tinha um pressentimento de que aquilo poderia acontecer, mas quase deixou escapar uma imprecao quando Frances deixou cair uma boa poro de sorvete na sua saia limpa. E quase nova.
Desculpe, mame. Foi sem querer.
 Eu sei que foi, querida. Agora  melhor irmos andando.
A menina saltou ao cho e sua alegria era comovente:
	Vamos para casa?
	S mais uma paradinha antes, Frances.
	J sei: compras para Murphy comer direitinho, no ?
	Isso. Isso mesmo.
Era realmente impossvel fazer milagres com cinquenta dlares, porm Vivianne no tinha do que se queixar: comprou ervilhas para Frances, leite, algumas frutas, coisas bsicas como ovos, acar e temperos, alface e tomates para salada, ch, um frango grande e gordo. Ficou tentada a levar costeletas de boi para assar ao passar pela seo de carnes do supermercado, mas acabou resistindo a tempo.
Quando finalmente chegaram  casa de Murphy, ela tinha a impresso de no ser capaz de colocar um p na frente do outro. Estava redondamente enganada ao julgar que sentira-se cansada na vspera; era agora, aps toda aquela andana pela cidade, que se encontrava de fato em frangalhos. Mesmo assim, desembalou as compras e arrumou-as com cuidado no armrio vazio na cozinha de Murphy, para depois cortar e limpar o frango e mergulh-lo numa vinha-d'alhos.
Com um desnimo profundo, viu que, enquanto estivera fora, nenhuma fada-madrinha havia lhe feito o imenso favor de deixar a cozinha em ordem. As migalhas e manchas ainda estavam exatamente onde as deixara. Decepcionada com os contos da carochinha e a ausncia de passes mgicos quando mais se precisava deles, descalou os sapatos e saiu  procura do aspirador de p.
Vivianne ps-se ento a limpar a cozinha, to entretida em divagaes que mal percebeu que Frances ia atrs dela, abrindo e fechando portas e gavetas dos armrios. Fadas!... Como pudera acreditar nelas quando era criana? Como pudera acreditar em frases de efeito como "felizes para sempre"?
Havia muito deixara de crer em finais finalizes. Era o preo que se pagava por crescer, por amadurecer. Por dar com a cabea na parede e repetir o erro como se fosse a coisa mais natural do mundo!
Ela tirou o aspirador da tomada ao terminar de us-lo. Com um pano, tratou de remover os ltimos vestgios da passagem de Frances pela cozinha. As costas lhe doam, o suor lhe brotava na testa e no corpo. Embora os ventiladores de teto agitassem mansamente o ar mdo que entrava pelas janelas, tinha a impresso de estar numa sauna.
Sobre a pia, as ervilhas de Frances comeavam a descongelar. A viso despertou o apetite de Vivianne, e ela calculou que, se se apressasse, teria tempo para tomar um bom banho frio e vestir roupas mais frescas antes de preparar o jantar.
 Murphy!  Ao ouvir o ranger da porta da garagem, Frances correu para os fundos da casa.
Sacudindo a cabea, Vivianne levantou-se, esticou-se toda para relaxar os msculos doloridos e tratou de enrolar o fio do aspirador de p. Apesar do cansao, sentiu a pulsao se acelerar ao ouvir a voz baixa de Murphy responder s perguntas de Frances.
Assim que ele apareceu na cozinha, perguntou-se como um homem coberto de p e manchas de tinta podia parecer to calmo e descansado aps um dia de trabalho pesado. E ela que se sentia praticamente morta por coisinhas -toa do da-a-dia! Murphy no lhe parecia apenas sereno. Apesar de desarrumado, despenteado e suado, Vivianne achou que ele poderia nuito bem figurar numa dessas fotos de calendrios distribudos jor publicaes destinadas ao pblico feminino. Fotos que retratavam bombeiros, policiais, caubis, cantores ou simplesmente homens comuns, mas todos muito belos e sensuais.
Ela conteve um sorriso de puro embarao. Deviam ser s hormnios da gravidez que a faziam pensar em coisas o absurdas.
 Ser que estou ficando maluca?
Secando o rosto com a barra da camisa, ele perguntou:
 O que foi, princesa? No entendi o que voc disse.
No outro brao dele, Frances tambm olhava para a me com inocente curiosidade. Vivianne ergueu o aspirador de p pela ala antes de ssponder:
	No, eu no falei nada. Mas seja bem-vindo de volta ao lar, Murphy. O jantar ser servido dentro de meia hora. Hora de ir tomar um banho.
	Gosto de uma mulher mandona, Vivianne. Voc no mudou tanto quanto quis me fazer crer.
Ele colocou Frances no cho, passou-lhe a mo pelos cabelos e aproximou-se de Vivianne. Ela resistiu ao desejo de tocar-lhe o rosto, tentando pensar em algo bem impessoal para dizer.
No conseguiu.
Seus olhos estavam fixos em Murphy, em cada mnimo gesto que ele fazia ao se movimentar.
Ele sorriu. E avanou um pouco mais.
Sem se dar conta do que fazia, Vivianne empurrou o aspirador de p e colocou-se atrs dele como se o utenslio fosse um escudo usado em batalhas nada domsticas. Com o corao prestes a lhe saltar pela boca, murmurou:
	A culpa  sua.
	Culpa? Culpa pelo qu?
Murphy tirou o aspirador da frente dela. O sorriso que lhe curvava os lbios deixava bem claro que ele sabia o que se passava pela cabea de Vivianne naquele momento. No era a primeira vez que ela o olhava com volpia e malcia. Essas eram algumas das emoes que Vivianne Chapman McAllister nunca soubera disfarar.
Confusa, ela balbuciou:
Este  o troco.
Murphy desapareceu lavanderia adentro, levando o aspirador de p. Um dos armrios se abriu e se fechou em dois ou trs minutos, depois ele retornou de mos vazias para a cozinha.
	No entendi o que voc quis dizer, princesa.
	Foi o troco... pelo que voc fez comigo esta manh.
	Ah!
	Tornei-me uma pessoa muito vingativa, sabia?
	No acredito nisso.
	E por que no, Murphy?
	Vingana no faz parte do seu carter. Prefiro pensar que voc esteja tentando arrumar uma briga comigo.
	E se estiver?
	Est perdendo o seu tempo, princesa.
Dizendo isso, ele ergueu Frances e colocou-a sobre os ombros. Com o movimento, sua camisa levantou-se e deixou  mostra parte do ventre liso, coberto por plos que eram um convite  carcia.
Vivianne sentiu-se arrepiar. Procurou por bolsos para esconder as mos e, como no os encontrasse, cruzou os braos sobre o peito num gesto desajeitado.
 Oba, meu Murphy! Como voc  forte! Vamos brincar de cavalinho?
J chega de brincadeiras  Vivianne interrompeu a farra.  Ande logo, Murphy, v se aprontar para o jantar. E voc, Frances, fica aqui para me dar uma mozinha.
	Sabe de uma coisa, Murphy?  a menina cochichou-lhe ao ouvido.  Vou fazer salada de ervilhas para voc. S para voc!
	S para mim?  perguntou ele, colocando Frances no cho.  No estou acreditando.
	Mas  verdade!  Frances deliciava-se com as atenes.
Ningum nunca fez nada especialmente para mim, sabia?  retrucou Murphy.
Vivianne sabia que ele brincava com a garotinha, mas os seus olhos verdes tinham outra vez aquela expresso que ela no sabia decifrar. Ou entender. Teve um impulso quase irresistvel de aproximar-se dele, tomar-lhe o rosto suado entre as mos e confort-lo. Um impulso to forte que as mos lhe chegaram a arder com a necessidade de afastar dele aquela... aquele... aquela emoo  qual no sabia dar nome e que lhe cortava o corao.
Uma vez, quando tinha dois anos de idade, Frances acordara no meio da noite chorando por causa de um pesadelo. Seus olhinhos de criana assustada tinham aquela mesma expresso.
Vivianne no fora capaz de consolar Frances ento.
E no era capaz de consolar Murphy agora.
Suas feies deviam demonstrar o que ela sentia, pois Murphy franziu a testa e ficou a olh-la por alguns instantes. Em seguida, porm, ele afagou os cabelos de Frances e disse:
Depois brincaremos mais um pouco, pequena. Agora vou tomar um banho, est bem?
Vivianne observou o sorriso de satisfao no rosto da filha at que ele sumisse no hall. Frances Bird no tinha pai, no tinha quase nada. Assim como Murphy, quando fora viver com os Chapman.
Na poca, ela tambm era muito pequena e mal entendera a verdadeira situao do garoto. E nunca mais voltara a pensar em Murphy como um assustado e solitrio menininho de cinco anos. At aquele momento.
Sempre o vira como Murphy e pronto. Mais bonito e mais esperto do que os meninos que ela conhecia, mesmo assim apenas Murphy. Um pouco perigoso, sempre excitante, s vezes brincalho. Murphy.
Era estranho, mas nunca lhe perguntara como ele se sentia. Fora infantil e egosta por comportar-se assim, porm agora tinha a oportunidade de reparar o erro. Seu carinho e sua ateno seriam uma forma de compens-lo pelo bem que ele estava fazendo a Frances. E a ela.
Pensativa, Vivianne preparou o jantar enquanto orientava Frances sobre como arrumar os pratos e talheres na mesa. Deixou tambm que a menina abrisse o pacote com as ervilhas agora descongeladas, as lavasse e as arranjasse no centro de uma travessa; ao redor delas, distribuiu fatias de tomate e cebola e folhas de alface crespa.
Murphy estava meio calado durante a refeio, mas a tagarelice de Frances compensou o silncio dele. Em algum momento entre o fim do jantar e pouco antes da hora de colocar a filha para dormir, Vivianne reencontrou suas foras, a fadiga se desfazendo aos poucos nos instantes de paz e harmonia ao redor da mesa da cozinha. A mesa que Murphy resgatara da velha habitao dos Chapman.
Por que ele fizera aquilo?
Ele havia dito que no queria se casar. No queria uma famlia. Contudo, levara a mesa para l, para aquela casa onde todos os cantos e todos os detalhes exibiam os sinais dos seus cuidados. Era contraditrio.
Vivianne afastou essa idia, deixando para pensar nela com calma num outro momento, longe da presena de Murphy, quando pudesse fazer suas avaliaes com mais clareza.
	Ei, Frances, quer me ajudar a decorar um carro amanh para a parada do dia quatro?  convidou ele.
	Quatro o qu?  perguntou a menina, os olhos comeando a ficar sonolentos.
	Quatro de julho, comemorao da independncia do nosso pas  explicou Murphy.  No lembra? Fogos de artifcio. Desfiles. Canes.
	Est falando srio?  Frances deu um longo bocejo.
	Claro que sim, pequena. Tenho um carro para decorar e preciso de uma mozinha que me ajude. Ou duas.
O olhar insinuante que Murphy lanou a Vivianne era muito mais significativo do que tudo o que ele dissera ou fizera desde que ela chegara em casa.
No, no era a sua casa, corrigiu-se Vivianne. Era a casa de Murphy, um local que ele no quisera transformar num lar. Se ela no se convencesse disso, e rpido, acabaria to "grudada" naquele lugar como Frances. O que s lhe traria problemas e sofrimento.
	No concorda comigo, Vivianne?  Murphy insistiu.
	H? O que voc disse?  Ela esfregou os olhos.  Me desculpe, Murphy,  que tivemos um dia to corrido...
	E fizeram um jantar delicioso, pelo qual estou muito agradecido  ele falou com certa formalidade, como se fosse o convidado e no o anfitrio, depois fez um gesto indicando as panelas e a pia repleta de pratos usados:  Chegar em casa e encontrar tudo isso ...
	Voc s pode estar sendo sarcstico, no ?  interrompeu Vivianne.  Sei que deixei a cozinha em estado de desastre, mas vou arrumar toda essa baguna.  o mnimo que posso fazer aps desfrutar do seu carro a tarde toda. E por falar nele... Ah, Murphy,  uma mquina fabulosa!
	 muito confortvel, sim  concordou ele.  Mas deixe que eu me encarregue da cozinha, enquanto voc pe Frances para dormir. Vocs duas esto me parecendo cansadas demais.
	Sinto-me bem  Vivianne apressou-se em dizer.  Alm do mais, fui eu quem fez toda a confuso. E justo que limpe o que sujei.
	Depois veremos isso...  Aps um instante de hesitao, Murphy acrescentou:  Eu estava sendo sincero, mesmo que voc no me deixasse terminar o que dizia.
	Do que est falando?
 Foi muito bom chegar em casa e encontrar voc e Frances, depois um jantar muito saboroso e... Bem, s  uma pena v-la assim to exausta.
 O pior j passou, a sensao de exausto j foi embora.
Estou apenas um pouquinho cansada, nada que uma boa noite de sono no resolva.
	Fico mais tranquilo, ento.
	Mas tem uma coisa, Murphy: voc tem de parar com esses elogios ou vou acabar intragvel, com a cabea nas nuvens, me sentindo a tal.
	Mame  a tal  resmungou Frances, caindo de sono.
	 exatamente o que eu acho, pequena  respondeu Murphy.  E a cabea nas nuvens, ela sempre teve.
	Sempre teve  repetiu a garotinha, bocejando de orelha a orelha.
	Bem, mas quem  que vai me ajudar a enfeitar o carro?  ele quis saber.
	O seda vermelho importado?  Vivianne levou um susto.  Tem coragem de colocar latas e tiras de papel naquele carro maravilhoso?
	No, estou me referindo a um outro automvel  explicou Murphy.  Um cacareco caindo aos pedaos, mas que ainda anda.
	O que vai colocar nele, Murphy?  Frances apoiou o queixinho nas mos.  Faixas e coisas?
	Exato: coisas  respondeu ele.  Podemos colocar tudo o que quisermos. Vamos colar o que nos der na cabea.
	Colar coisas num carro?  Vivianne espantou-se de novo.  Mas isso vai estragar a pintura!
	Como eu j disse,  um carro velho que no vale mais nada.  Ele sorriu, satisfeito.  Vamos colar nele todas as bugigangas que conseguirmos imaginar.
	Voc  maluco  ela murmurou.
	Pode ser.  Murphy deu um sorriso ainda mais largo.
	Pode ser, no, tenho certeza absoluta.  Vivianne cutucou-o de leve.  Mas at que ser divertido.
	Ser, sim  ele foi taxativo.  Levante-se cedo, Frances, para me ajudar. E voc, princesa, v dormir para recuperar as energias e a imaginao. Ns contamos com as suas sugestes criativas.
	Est bem.  Ela torceu o nariz.  Mas saiba que voc brincou com fogo: cedo, para Frances,  quando o dia amanhece.
Olhando para a menina, Murphy viu que a cabecinha dela tombava sobre a mesa e seus olhos no conseguiam mais se manter abertos. Percebendo que a filha dormia praticamente sentada, Vivianne estendeu os braos na direo dela.
	Deixe que eu a levo para cima  ofereceu Murphy.  No vai dar banho nela agora, vai? A pobrezinha no se aguenta em p.
	Mame costumava dizer que nascem ps de feijo nas orelhas de crianas que no tomam banho todos os dias  comentou Vivianne, os olhos to pesados como os da filha.
	Ah, eu me lembro disso muito bem!  disse ele, tomando Frances nos braos.
	Eu morria de medo!  Vivianne seguiu-o em direo ao hall.  Sabe que eu tinha me esquecido de que mame costumava ler para ns quase todas as noites?
	Como pde esquecer uma coisa dessas? Rita lia tudo para ns, at jornais e embalagens de cereais. Se havia palavras em alguma coisa, ela as lia em voz alta para a gente.
	Esquecimento no  crime, Murphy.  natural as pessoas se esquecerem de certas coisas s vezes.
	Sim, mas...
Com medo de uma resposta que no queria escutar, ela beijou a filha e retornou  cozinha.
Murphy no queria sentir aquele ressentimento contra Vivianne de novo, mas no conseguia evitar. Era uma emoo desagradvel, que entrava em conflito com a ternura que o invadia sempre que olhava para ela e via cansao e desnimo nas belas feies. E pensar que Vivianne iria ter de criar duas crianas sozinha, sem o auxlio de ningum... Talvez fosse essa idia que lhe provocava ternura e ressentimento.
E desejo.
Oh, o que sentia por aquela mulher?
No experimentara essa sensao quando tinha dezoito anos e ela, quatorze. A sensao de culpa era mais forte do que tudo, e sempre fizera questo de manter as mos bem afastadas de Vivianne Chapman. Brincava com ela, criava confuses que a envolvessem sempre que podia. Contudo, obrigava-se a ter por ela um respeito mais do que fraternal. Por mais que aquilo lhe doesse, preferia pensar nela como uma estranha.
Quando o desejo por ela surgiu em sua vida, muito tempo depois, sabia que no poderia conversar a esse respeito com Bannister Chapman. Rita talvez o tivesse ajudado, talvez tivesse lhe dado idias e conselhos teis, talvez o compreendesse. Contudo, ele escolhera permanecer calado, ruminando os prprios pensamentos em doloroso silncio, mantendo distncia de Vivianne, comportando-se como algum que vivesse  margem da existncia dos Chapman.
At o momento, no tinha se dado conta do quanto havia fugido daquele crculo de calor e amizade. Fugira do carinho que eles lhe ofereciam por se sentir indigno de merec-lo.
E ento Vivianne fora embora.
Alguns anos mais tarde, Rita lhe escrevera para lhe contar do casamento de Vivianne e, depois, do nascimento de Frances Bird. E ainda da separao de Vivianne do jovem marido. Todas as vezes em que abria uma carta de Rita Chapman, ele tinha a impresso de que o corao iria lhe saltar pela boca.
Entendia tudo o que se passara. Entendia tudo muito bem. S no entendia por que ainda sentia desejo por Vivianne.
Compreendia at mesmo a raiva que ela lhe despertava. E sabia que, mais cedo ou mais tarde, teriam de discutir esse assunto. Era possvel que a perdoasse, se soubesse o motivo que orientara as atitudes dela. Ou talvez no a perdoasse jamais.
Enquanto acomodava Frances na cama improvisada, Murphy ouviu rudos vindos da cozinha e logo concluiu que Vivianne lavava a loua do jantar. Depois de acariciar os cabelos da menina por repetidas vezes, beijou de leve a face corada e voltou para l.
Encontrou Vivianne s voltas com pratos e talheres. Seu rosto estava branco como cera, e ela se movia como um autmato desregulado.
	V se deitar, Vivianne. Eu disse que cuidaria da loua.
	S mais um minutinho.
	Se no subir agora mesmo, nunca mais permitirei que dirija o meu carro novo.
	No seja cruel, Murphy. Voc sabe que adoro aquele automvel.
	Ento faa o que estou pedindo.
	J estou terminando. No era justo deixar que voc limpasse a baguna que eu fiz.
	Vivianne, voc no tem obrigao de fazer nada que no quiser nesta casa. Se for preciso, posso contratar uma empregada.
	Para qu? Gastar dinheiro  toa?
	Acho que isso se chama orgulho, sabe? Quer cuidar de tudo e no permitir que eu faa alguma coisa por voc ou por Frances, no ?
Vivianne sentiu o corpo oscilar, dominado pelo cansao e algo mais que impediam a sua determinao de fazer tudo e no aceitar mais nada alm do muito que j tinha recebido dele.
Murphy no se deu por vencido:
	Voc est sendo egosta. D tanta importncia ao seu orgulho que no permite a ningum o prazer de ajud-la.
	Egosta, eu?
	Sim, princesa. s vezes o correto  aceitar o que as pessoas oferecem, porque elas esto oferecendo por gosto, amizade, considerao... por prazer, enfim. O orgulho  um sentimento muito egosta, sim. Me sinto rebaixado quando voc recusa o que quero lhe dar. Sempre foi assim.
	Ento foi assim que ns o fizemos sentir-se, Murphy? Mame, papai, eu? Ns o amamos tanto, quisemos lhe dar tanto, e s conseguimos faz-lo sentir-se diminudo?
	Ora...
Murphy deu-lhe as costas e marchou pesadamente para fora da cozinha, mas ela alcanou-o aos ps da escada. Segurando-o pelo brao, obrigou-o a encar-la.
 Ser que voc no percebia o quanto o amvamos, Murphy? Sabia que cheguei a pensar que mame e papai gostavam mais de voc do que de mim?
A resposta dele veio num suspiro emocionado:
 No.
Vivianne tomou-lhe o rosto entre as mos. Depois, passando a ponta dos dedos pela face endurecida, murmurou:
 Juro pela alma da minha me que ns lhe dedicamos todo o amor que tnhamos no corao, Murphy.

CAPTULO VII

Na manh de sbado, Murphy vestiu uma camiseta que tinha mais furos do que um queijo suo, serviu-se de uma caneca de caf forte e quase derramou o lquido fervente sobre o peito quando Vivianne trombou nele.
	No pode olhar por onde anda, princesa?
	Bonita camiseta, Murphy. Voc est lanando uma nova moda?
	Isto  roupa de trabalho.
Franzindo as sobrancelhas, ela enfiou um dedo num dos furos da camiseta e girou-o ao redor do tecido, comentando:
 Esta  uma boa maneira de se refrescar. Gostei da idia.
Murphy respirou fundo, saboreando o perfume dela e a gostosa sensao que o inocente carinho lhe provocava no peito. Mas... seria mesmo com inocncia que Vivianne passava a unha do indicador nos plos do seu trax? Ora, ela no faria aquilo por mal...
Ou faria?
E o que ela teria em mente ao provoc-lo daquela forma? Depois de fugir dele como o diabo da cruz, o que a teria feito mudar de idia da noite para o dia?
Cobrindo a mo dela com a sua, Murphy falou num tom insinuante:
 Parece que voc dormiu muito bem.
 Ah, dormi como uma pedra! No ouvi voc se levantar. No ouvi nem mesmo Frances. Alis, onde voc est escondendo a minha adorvel filhinha?
	L fora.
	Fazerndo o qu?
	Brinccando com a mangueira de gua. Segundo ela me disse, plamtando coisinhas. Mas no se preocupe, no h nenhum objeto perigoso pelas imediaes. Sua adorvel filhinha no corre risco algum.
	Bem que eu pensei ter ouvido rudo de gua correndo...
	Foi issso.
Com a mo livre, Vivianne percorreu uma trilha imaginria pelo peito dele, para depois introduzir outro dedo num outro furo da carrmiseta e lhe afagar as costelas do lado direito.
	H...   Pare com isso, princesa.
	Parar com o qu? Isto?
Vivianne deslizou a ponta do dedo em direo ao abdmen dele, refazendo-lhe os contornos e as suaves sinuosidades dos msculos rijos. Murphy agarrou-lhe as mos e deu um passo para trs, mas ela o acompanhou e os dois acabaram por trombaar contra a parede.
	O que est acontecendo, Vivianne?
	Nada de mais. Acho que estou me sentindo... alegre.  isto, estou me sentindo alegre hoje.
	E o que quer dizer exatamente com "alegre"?
Ela olhou-o com fingida inocncia. Viu que Murphy estava meio descontrolado, bastante excitado e completamente confuso.
E era exaatamente assim que ele se sentia. Pretendia jogar limpo com Vivianne, ajud-la a se recuperar e a dar um jeito na sua vida. Com esse objetivo em mente, julgara que um longo perodo de  calmaria seria bem recomendvel para ela. Para ambos, na werdade. S que o que Vivianne estava fazendo no tinha nada a ver com calma ou tranquilidade. Muito pelo contrrio. E o comportamento dela na noite anterior estava longe de explicar co que se passava entre os dois naquele momento.
Ah, como compreender o que ocorria nos recnditos da mente de Vilvianne? Ele nunca havia compreendido, por que haveria de ser diferente agora?
Tentanddo esquivar-se dela, Murphy tentou emprestar naturalidade  voz ao perguntar:
	 a gravidez que deixa as mulheres assim?
	Como vou saber?
	Era dessa forma que se sentia e agia quando estava esperando Frances?
	No.
	, assim fica difcil entender.
Como resposta, Vivianne soltou as mos das dele e colocou-as por debaixo da camiseta surrada, esfregando de leve os polegares sobre o peito quase arfante, deslocando as palmas pela trilha de plos aveludados at alcanar o cs do jeans que Murphy vestia.
	No estou me sentindo nada  vontade, Vivianne.
	No? Pois eu estou. Alis, estou me sentindo to bem...
Ao sentir que ela lhe tocava o calcanhar calado em chinelo com os dedos do p descalo, Murphy indagou com uma calma que estava longe de sentir:
	Voc nunca usa sapatos, princesa?
	Se puder evit-los, prefiro ficar descala. Gosto de sentir os... as coisas debaixo da sola dos meus ps. Voc no gosta?
Vivianne insistiu na perigosa brincadeira, colocando uma perna no meio das dele. Mesmo protegido pelo algodo grosso do jeans, Murphy estremeceu com o contato to ntimo quanto inesperado. Colocando as mos na cintura dela, tratou de afast-la um pouco de si, dizendo:
 Agora chega. Quer me explicar por que est fazendo isso?
 J disse, Murphy: estou me sentindo alegre.
Mesmo confuso e constrangido, Murphy manteve as mos na cintura esguia para melhor desfrutar do calor que se desprendia do corpo dela. Vivianne ento sorriu-lhe, um sorriso vagoroso e provocante que iluminou as faces agora rosadas.
	 melhor ir com calma, princesa. Melhor ainda:  melhor pararmos por aqui, est bem?
	Se  isso o que voc quer...
	 isso, sim.
	Ento...
Vivianne passou o dedo ao longo dos plos do brao dele e, no mesmo instante, Murphy afastou-se e encostou-se  parede. Precisava ganhar tempo a fim de que o seu corao voltasse ao ritmo normal, precisava ganhar tempo a fim de que o seu membro retornasse a uma posio mais... cavalheiresca. Respirando fundo, ele falou aps alguns instantes:
	Deixe-me pensar... Voc est se atirando sobre mim, o que no  do seu feitio.
	E como voc sabe o que  ou no  do meu feitio? Na ltima vez em que passamos algum tempinho juntos, eu tinha dezoito anos de idade. Naquele tempo, creio que eu no tivesse um... estilo, digamos assim. Para falar a verdade, acho que o meu estilo  no ter estilo algum.
Vivianne deu um passo  frente, voltando a colocar uma perna no meio das dele. Dessa vez, foi mais insinuante e incisiva ainda. Murphy teve a impresso de que seu crebro soltava fumaa e, por um timo, perguntou-se por que haveria de impedi-la de fazer o que quer que lhe passasse pela cabea.
Mas voc gosta disto, no gosta, Murphy?
Sim, ele gostava e muito. S no entendia o porqu daquele ataque intempestivo. Talvez Vivianne estivesse apenas lhe devolvendo as brincadeiras que ele costumava fazer com ela. Mas a diferena era que ele sabia quando parar. Sabia quando as coisas estavam prestes a avanar o sinal vermelho.
Vivianne, ao contrrio, nunca soubera colocar um ponto final ao que quer que fosse. Ela simplesmente fechava os olhos e seguia em frente, sempre em frente.
Murphy sentiu-se tentado a virar a mesa para ver qual seria a reao dela. S que isso no seria justo: Vivianne no era to experiente nas artes da seduo como pretendia demonstrar.
O prximo passo dela, porm, abalou aquela convico: Vivianne colocou a ponta da lngua para fora e com ela tocou de leve o peito de Murphy, sorrindo para ele com malcia.
	Voc est brincando com fogo, Vivianne.
	Que bom... Era exatamente essa a minha inteno: brincar com fogo para ver o que acontece.
Dizendo isso, ela ergueu-lhe a camiseta e, centmetro a centmetro, exps o trax bem definido. Murphy tentou rir ante a investida, mas o riso estrangulou-se num rudo rouco na sua garganta.
	Consegui deix-lo nervoso?
	Ento  isso o que pretende? Me deixar nervoso? Se vingar porque a vi ontem de manh com a sua minscula camisola vermelha e... gostei muito?
	Ah, isso seria muito mesquinho da minha parte. No seria?
Os cabelos de Vivianne roaram o rosto de Murphy e ele teve vontade de abaixar um pouquinho a cabea, o suficiente para alcanar com os lbios o lbulo da orelha pequena e bem-feita. Controlando-se, cruzou os dedos entre os dela e disse:
	A vingana  um prato que se come frio, segundo falam por a. E eu j tinha percebido que era isso o que voc tinha em mente, princesa.
	 mesmo, Murphy? Ento por que me disse que no estava entendendo nada?
Eu disse isso? Quando? No me lembro.
Vivianne sorriu outra vez, e seus olhos eram suaves e sonhadores. Murphy julgou que o feitio havia virado contra o feiticeiro, pois ela parecia estar gostando muito de cada instante da tal "vingana". Na verdade, Vivianne demonstrava estar completamente envolvida pelos gestos de carinho que fazia, como se eles brotassem do mais ntimo do seu ser e retornassem para ela na forma de prazer e excitao.
Por um breve momento, ele pensou em tirar vantagem da vulnerabilidade que via no doce semblante  sua frente. Poderia tom-la nos braos, poderia... Ah, no... no seria uma atitude l muito decente. S que acabaria ficando maluco se continuasse ali, parado como uma esttua, submetendo-se aos...
Um grito de pura satisfao, vindo do quintal, penetrou pela janela aberta.
	O dever nos chama, princesa. Sua filha est nos esperando para...
	Ela no me pareceu nem um pouco impaciente.
	Mas  que...
Sem lhe dar ateno, Vivianne foi at a janela. O movimento do seu quadril, que parecia obedecer a um ritmo muito quente e natural, fez o olhar de Murphy colar no shortinho verde-limo que ela usava.
	O que aconteceu, filhinha?
	Venha ver, venha ver!  O jorro da mangueira de gua na mozinha de Frances chegou ao interior da cozinha.   um passarinho!
	Peo desculpas em nome dela.  Vivianne rasgou um grande pedao de toalha de papel e secou o que a filha tinha molhado. Voc ser um homem de sorte se, quando formos embora daqui, ainda lhe sobrar um pouquinho da sua casa, Murphy. Tento evitar baguna e confuso num lugar to...
	Virginal?  ele provocou.
	Voc no leva mais do que um minutinho para recuperar a forma, no ?
	Se parar para pensar, vai perceber que esse comentrio  um tanto dbio, princesa.
	Murphy!
	Juro que eu no queria me lisonjear. Mas o que voc falou  a mais pura verdade, sabia? Eu no demoro nem um minutinho para...
	Vamos parar com isso, sim?
	Ora, foi voc quem comeou.
	Certo, eu admito. Mas j que comecei, tenho o direito de parar.
	Ns j paramos... ou ser que estou enganado?
	Mais ou menos.
	Voc est sendo dbia outra vez, princesa.
Como resposta, Vivianne aproximou-se e, pondo-se nas pontas dos ps, roou suavemente os lbios dele com os seus.
Seda. Calor. Umidade.
Murphy mandou o bom senso aos infernos e levou as mos ao quadril dela, trazendo-a para junto de si. E o rudo que ouviu preso na garganta de Vivianne deixou-o confuso. Um rudo de desejo. De necessidade. De uma fome inconsciente.
Ela dissera que queria brincar com fogo, mas no fazia idia das consequncias de uma queimadura grande e profunda. A julgar pelo gemido incontrolado, o seu relacionamento com Tony no fora feito de fortes ardores. E, pensando estar apenas riscando um fsforo, Vivianne estava de fato atirando-se de cabea na cratera de um vulco.
Ela no podia sequer imaginar o que fervia dentro dele. O que ele queria fazer com ela. Para ela. Por ela.
O desejo e o ressentimento que crepitavam em Murphy os faria arder at virarem cinzas.
Pensar nos momentos abrasadores que antecediam a formao das cinzas fez com que ele s conseguisse se concentrar na doura de Vivianne, na maciez das ndegas sob o movimento urgente das suas mos, no pulsar do seu corpo agora todo enrijecido. Talvez fossem os dedos dela se embrenhando pelos seus cabelos. Talvez fossem os carinhos dela na sua nuca. Talvez fossem todas aquelas carcias pelas quais ele tanto ansiara uma vida inteira.
A razo, contudo, voltou a soar na mente de Murphy como um sinal de alerta. Vivianne no sabia o que estava fazendo. No seria justo prosseguir com aquilo. No seria justo para nenhum dos dois.
Murphy descansou as mos na cintura dela, lutando contra a necessidade de unir os seus corpos num contato ntimo e sensual. Vivianne tinha os olhos turvos de desejo e confuso; encostou-se nele e em seguida sorriu, um sorriso que o fez perder a cabea de vez, o fez perguntar-se de novo se estaria realmente compreendendo o que se passava entre ambos.
Talvez a doce e inocente Vivianne soubesse muito bem o que fazia. Bem at demais.
Assim que ela girou sobre os calcanhares e encaminhou-se para a porta, Murphy no sabia se ria ou se chorava. Acabou rindo sozinho, concluindo que merecia uma medalha de honra ao mrito por ser um sujeito bom, digno, sensato. Por tentar entender Vivianne Chapman McAllister quando nem ela prpria se preocupava com isso.
Seguiu-a at o quintal, onde ambos se aproximaram da risonha garotinha.
	Onde est o passarinho, Frances?  perguntou Murphy, tentando recobrar a calma e afastar os pensamentos que o corriam por dentro.
	Ali  respondeu a menina, erguendo a mozinha suja de lama na direo de um grande corvo pousado no cho.
 Passarinho?!  surpreendeu-se Vivianne.    um passaro!
A plumagem negra da ave, num tom quase metlico, reluzia ao sol enquanto ela saltava de um lado para outro da mangueira com estranha docilidade.
 Ele est pulando corda comigo  explicou Frances.
  o que parece, docinho  concordou Vivianne.
Murphy desviou os olhos das pernas dela ao lhe perceber um olhar de esguelha. Droga! Quando foi que deixara de ser um homem frio, racional, a calma em forma de gente? Depois de pigarrear para limpar um n da garganta, ele falou a primeira coisa que lhe ocorreu:
 Eu no sabia que as crianas ainda brincavam de pular corda.
Vivianne olhou-o com certa malcia antes de retrucar:
	Crianas brincam de qualquer coisa. Frances aprendeu alguns jogos na pr-escola, eu lhe ensinei outros que sabia... E uma maneira bastante econmica de se divertir. E de praticar aerbica sem gastar na academia.
	.
O olhar dela o incomodava, pois tinha uma expresso que Murphy no conseguia decifrar. Vivianne estava tramando alguma coisa, mas... o qu?
Cansado de se enredar naquela teia que parecia no ter mais fim, ele anunciou:
	Estou pronto para decorar o carro. Algum quer vir comigo?
	Eu!  Frances correu para ele e, antes de se atirar em seus braos, gritou para a ave:  Tchau, passarinho. Venha sempre.
Era uma menina leve e graciosa, que se apegara a ele por algum motivo qualquer e lhe abrira o corao aos seus encantos inocentes. Murphy encostou-a ao peito, depois girou-a para trs at que ela se agarrasse s suas costas como um caranguejo, perninhas ao redor da sua cintura, bracinhos ao redor dos seus ombros.
Como resistir quela brejeirice infantil? Ele entendia as pessoas que no desejavam filhos, soava-lhe uma deciso natural e fazia sentido. Mas era incapaz de compreender como um ser humano podia afastar-se do rebento depois de nascido. Por mais que tentasse, jamais conseguiria ao menos imaginar o que fizera Tony McAllister escolher viver a prpria vida, dando as costas  esposa e  filha.
No tinha sido difcil concluir que Vivianne sempre fora o ganha-po da famlia, antes e depois da separao. Isso era outra coisa que no lhe entrava na cabea. Por que ela ficara tanto tempo com Tony? Por que permitira que ele vivesse s suas custas?
Orgulho? O orgulho de Vivianne era algo formidvel, talvez a impelisse a fazer qualquer coisa.
No era a primeira vez que Murphy tinha esses pensamentos. Aps saber um pouco mais da histria dela, a necessidade de compreend-la comeava a se tornar uma obsesso.
Agarrada s costas dele, Frances disse:
	O passarinho vai se chamar Passaro, est bem, Murphy?
	Est, sim. Combina com ele.
	E sabe do que mais? Vou escolher o nome do beb da mame.
	 mesmo? J pensou em algum?
	Pensei em Crocodilo. Voc gosta?
	Bem...  melhor do que Jacar.
	De Jacar, eu no gosto.
	Pensando melhor, Frances... Por que no escolher um nome mais curto? O que voc acha, Vivianne? Gosta de Crocodilo?
	Preciso ver o rosto do beb antes de escolher um nome  respondeu ela, com pacincia e compreenso.  Dar nome a uma pessoa  uma grande responsabilidade, como voc bem sabe.
	O beb vai ser menino  declarou Frances com espantosa certeza.  E tudo vai dar certo, porque um menino ser muito bom para ns. No  mesmo, Murphy?
	Acho que sim  respondeu ele tentando soar convincente, para depois optar pela sinceridade:  Mas acho que voc perguntou para a pessoa errada, pequena. No entendo muito de bebs. Eles choram, sujam a fralda, querem mamar... Me parece um tanto complicado.
	Eu no sou complicada  ela lhe assegurou.  Nem um pouco.
	No  mesmo  concordou Murphy, sacudindo-a de leve.  E tambm j no  mais um bebezinho.
	Vou ficar mais velha ainda  explicou a menina com um ar de sabedoria.  Antes do Natal. E ns vamos fazer a minha festa no seu quintal e voc pode vir e o Passaro tambm e vamos tomar sorvete. E vai ser legal.
	Ainda temos de conversar a esse respeito, Frances  interveio Vivianne.  At l, j teremos mudado para um apartamento.
	No, ns moramos aqui com Murphy.  A menina cravou o queixo nas costas dele.  No precisamos de nenhum apartamento.
	Murphy tambm j ter novos planos at a data do seu aniversrio, Frances  ela insistiu com a filha.
As afirmaes de Vivianne fizeram Murphy dar-se conta do quanto ele gostaria de participar da festa da garotinha e comemorar o seu quinto aniversrio. Tinha a impresso de que festas infantis deveriam ser uma confuso dos infernos, mesmo assim teve vontade de comparecer a uma.
	Prometo ir  sua festinha, Frances  ele disse.  No importa onde se realize, eu irei.
	Ah, eu sei que sim.  A menina riu para si mesma, depois murmurou-lhe ao ouvido: E a festa ser no seu quintal.
	Bem, isso eu no posso prometer  retrucou Murphy, respeitando a deciso de Vivianne.  E agora vamos trabalhar naquele carro que vai ganhar o prmio do desfile. Segure-se firme, pequena, l vamos ns.
Nos fundos do terreno, Murphy havia construdo uma cobertura fechada para guardar o material domstico e de trabalho que no cabia na garagem. Quando abriu a porta, aps destravar um trinco de metal, uma minscula nuvem de poeira agitou-se com o movimento.
Frances espirrou, depois esticou o pescoo para a frente a fim de ver o que as prateleiras continham.
	Bonecos para montar! E conchinhas!
	H muito mais ainda, Frances  Murphy animou-a.
	Podemos colocar tudo no carro?
	Claro que sim.
	Mame falou para eu tomar cuidado com o seu carro vermelho novo, Murphy. E eu tomei.
	Aposto que sim.
	Voc pode sempre confiar em mim, est bem?
Murphy sorriu. No podia entender como aquele pedacinho de gente lhe tocava to fundo o corao. Ele nunca quisera ter filhos. Na verdade, nem mesmo gostava muito de crianas. Mas a filha de Vivianne vivia pondo suas barreiras por terra, fazendo-o apreciar cada vez mais o convvio com a inocncia e a alegria natural da infncia. Junto a Frances, a nica coisa que ele se impedia era de pensar no garoto de cinco anos que um dia tinha sido. Um garoto triste, solitrio. E abandonado.
A voz da garotinha penetrou-lhe os pensamentos:
 Me ponha no cho para eu ver tudo, Murphy!
Ele fez o que Frances pedia, deixando-a admirar as conchas, botes, pedaos de metal e plstico e outras tralhas que adornavam a pintura negra de uma caminhonete do ano de 88.
	Pelos cus, Murphy!  Vivianne aproximou-se do veculo.  Mas o que  isto?
	Ah, mame, voc no ouviu o que ele disse?  Frances censurou-a.  Este  o carro que vai ganhar o desfile!
	De onde voc tirou essa idia, Murphy?  Vivianne deu uma risada.  E um tanto... bizarra, para dizer pouco.
	Da televiso  explicou ele.  Um sujeito tinha colado bottons, milhares deles, na roupa, nos mveis, no carro. No sei por qu, mas gostei da idia. Achei que seria uma boa forma de se enfeitar um carro para o desfile do Dia da Independncia.
	E voc, j est pronto para a ocasio?  perguntou ela, colocando outra vez a ponta de um dedo num furo da camiseta de Murphy.   com esta roupa que vai  parada?
	No, e pode parar com isso.  Ele soltou-se e ajeitou a camiseta.  Vamos com um traje bem casual, no , Frances?
	O que  casual?  perguntou a menina.
	Uma roupa simples, do dia-a-dia, que nos deixe bem  vontade  respondeu Murphy.  Mas depois pensaremos nisso. Agora temos de pr mos  obra, ou no terminaremos o nosso trabalho a tempo. Este carro no  nada pequeno, garotas, e ns vamos cobri-lo inteirinho de enfeites.
	E isso o que voc costuma fazer no seu tempo livre, Murphy?  Vivianne passou pela fileira de conchinhas na tampa do porta-malas do veculo.
	Mais ou menos...  Ele sentiu-se subitamente encabulado ao admitir uma forma de lazer to tola.  Quero dizer, no  s isso o que costumo fazer.
Murphy no queria que ela o julgasse um bobo. No queria sentir-se diminudo na frente dela. De novo.
Com Frances atrs de si, Vivianne deu uma volta ao redor da perua. Pouco depois Murphy ouviu uma exclamao meio contida mas, como no pudesse ver o rosto dela, no soube definir se aquela era uma reao positiva ou desdenhosa. Talvez ela tivesse visto a fileira de miniaturas de bonecas que ele colara ao longo do pra-choque...
Murphy ento tomou coragem para perguntar:
	E a, gostaram?
	Eu adorei o seu carro  respondeu Frances, enftica.
	Que bom que voc aprovou, srta. Frances.  Ele tentou sorrir.
	Sra. Frances  ela o corrigiu.  Mame diz que "senhora" fica melhor para as mulheres McAllister.
	Acho que ela tem razo  concordou Murphy, engolindo um sbito n na garganta.  As mulheres McAllister merecem todo o respeito.
	Posso escolher a parte do carro onde vou trabalhar ou  voc quem vai indic-la?  Vivianne olhou para ele do outro lado da perua.  Eu gostaria de ficar com o capo, pois acho que j sei o que colocar nele... Pode ser?
	Faa como preferir, princesa.  Murphy parecia mais animado.  Mas voc me deixou curioso. O que  que tem em mente?
 Ah,  surpresa  ela mostrou-lhe a lngua depois sorriu.
	Surpresa, surpresa...  Murphy fingiu-se ofendido.  Parece que hoje ser o dia das surpresas. Depois do ataque desta manh na cozinha...
	Voc se sentiu atacado l, na cozinha?  Vivianne era a personificao da inocncia.  Agora quem est surpresa sou eu.
	Ento como acha que me senti?  ele provocou.
	Deixe para l.  Com as mos na cintura, ela acrescentou:  Bem, j que agora sou parte deste projeto, exijo liberdade de criao. Liberdade absoluta. Sem nenhum tipo de censura. O sucesso ou o fracasso ser de minha total responsabilidade... Ou algum quer trabalhar comigo?
	No, voc ficar encarregada do capo e o enfeitar  sua maneira  Murphy lhe deu carta branca.
	Que ataque?  perguntou Frances, detendo-se na palavra que melhor entendera na conversa entre ambos.  No vi nenhum ataque na cozinha. S mame e voc se abraando, Murphy.
O olhar de Vivianne cruzou com o dele e ela ficou vermelha como um pimento. Murphy tambm se sentiu corar. Crianas... O que Vivianne iria dizer? Como responderia  filha?
Ela ignorou a pergunta.
Instantes depois Frances estava s voltas com outro assunto. Cutucando a perna de Murphy com o ombro, a menina falou:
	Voc sabia que eu sei contar? Sei uma poro de nmeros: dez, trs, quatro... que  quantos anos eu tenho, quinze, vinte-e-onze... Sei mais outros, s que no me lembro agora.
	Voc ser uma boa "contadora"  brincou ele.
   foi tudo o que Frances respondeu, para depois se entreter com uma pena de peru que saa de uma caixa de papelo.
Vivianne havia desaparecido. Retornou em poucos minutos, carregando um grande saco de papel marrom e, junto s prateleiras, foi enchendo-o com penas, conchas, pequeninas bandeirolas e outros objetos que lhe chamavam a ateno.
Trabalharam juntos em silncio. Murphy imaginou que Frances fosse dar prosseguimento ao seu tagarelar habitual; s que, como quando entretida com a sua trilha de bolinhas de papel na cozinha, a pequenina manteve a ponta da lngua entre os lbios enquanto se dedicava com afinco  sua tarefa.
Ele nunca imaginara que fosse desfrutar tanto de um momento de silenciosa calma como aquele.
Mas o estava adorando.
A luz do sol incidia sobre eles, e a brisa morna de vero movimentava-se com vagar e suavidade por entre os seus corpos, ocupando todos os espaos do recinto.
Murphy pensou em ir buscar um rdio, mas acabou mudando de idia. O silncio que os unia era envolvente, apaziguador. De quando em quando Vivianne deixava escapar uma imprecao, mas, como Frances, fazia o seu trabalho com empenho e dedicao.
Ele calculou que talvez instantes como esse fossem o natural em sua existncia, se tivesse feito outra escolha de vida. Se tivesse optado pelo casamento, talvez agora tivesse, em lugar de Vivianne e Frances Bird, a esposa e a filha trabalhando ao seu lado num projeto meio sem p nem cabea, mas que distraa e divertia a todos.
Ao erguer o olhar e deparar-se com os olhos castanhos de Vivianne, Murphy sentiu-se paralisar a ponto de deixar que um pouco de cola lhe escorresse pelos dedos.
No queria pessoas como Vivianne e Frances em sua vida.
Queria as prprias.

CAPTULO VIII

A bolinha de gude que Murphy ia colar sobre o aro do farol caiu-lhe dos dedos entorpecidos.
De onde fora tirar aquela idia?
No, aquilo era um absurdo. Gostava da sua vida exatamente como era: tranquila, sem problemas, repleta de liberdade. J havia dito isso a Vivianne. E fora bastante sincero em suas palavras.
Tinha passado por maus bocados na infncia e adolescncia. No fora culpa dos Chapman, no fora culpa de ningum. Na verdade, at se habituara a viver com as suas carncias. Gostava da privacidade que se manter distante de tudo e de todos sempre lhe proporcionara. No tinha compromissos. No se metia em confuses. Era tudo muito simples, sem exigncias, sem... expectativas.
Expectativas. Uma pessoa podia realmente viver sem esperar nada da existncia?
Lembrou-se de que tencionara criar um cachorro, depois um gato. O que isso significava? Que conviver com um animal era mais fcil do que conviver com outro ser humano igual a ele? Que tipo de conflito tentava evitar ao imaginar preencher o vazio da vida com um bichinho de estimao?
Murphy olhou para a bola de gude cor de topzio que cara no cho. Apanhou-a com calma, pondo-se a rol-la entre os dedos. Uma vida fcil. Qual o encanto de uma vida fcil?
 Quero colocar a minha Barbie na frente  disse Frances, aproximando-se dele.  S que ela no tem cabea.
	Voc no  a primeira que diz isso, docinho  comentou Vivianne com ironia, do outro lado do carro.
	Mas ela  muito linda  retrucou a menina sem entender o duplo mentido da afirmao da me.  E ela ia gostar de enfeitar o carro.
	Aposto que sim.  Murphy passou o dedo pelo narizinho de Frances.  Mas no se preocupe com os detalhes, pequena, pois a beleza est nos olhos de quem a v. Mesmo sem cabea, a sua Barbie deve ter uma alma muito bonita.
	Tem, sim  concordou a garotinha.  As duas, mesmo que no caibam em sapatos comuns.
Vivianne riu, achando que aquele no seria o momento mais adequado para esclarecer certos assuntos. Ajoelhando-se, levou a pena que tinha na mo de encontro aos lbios e falou:
	Murphy tem razo, Frances, e a sua Barbie vai ficar muito bem na frente do carro. S que no me lembro onde foi que a guardamos.
	Eu tambm no, mas vou encontr-la.  Depois de pensar um pouquinho, Frances os instruiu:  No cole mais nada na parte da frente, Murphy. Mame, voc tambm no faz mais nada l, est bem?

	Pode deixar  tranquilizou-a Vivianne.  Alm do mais, estou trabalhando na minha porta. A frente fica toda para voc, docinho.
	Ento, est combinado.  Antes de sumir pela porta, a menina ainda os avisou:  Vou procurar a minha Barbie e lhe dizer que ela ser a estrela do desfile.
Por debaixo do veculo, Murphy podia ver boa parte das pernas de Vivianne, uma dobrada sobre a outra na posio iogue. Banhadas por sol e sombras, as curvas das coxas bem-feitas lhe pareceram uma obra de arte. Uma daquelas pinturas holandesas que ele tinha visto no Museu de Arte Ringling, em Sarasota, numa visita escolar. Aquelas pernas tinham o poder de deix-lo imvel, como num transe.
 Murphy, com respeito  Barbie sem cabea...  comentou Vivianne, absolutamente alheia ao que se passava com ele.  Se no quiser us-la como enfeite no...
	No tem problema  Murphy interrompeu-a, sacudindo a cabea para afastar os pensamentos inconvenientes.  Mesmo sem cabea.
	 que...  Vivianne apanhou a bolinha de gude que ele rolara em sua direo.  Bem, a tal Barbie tambm no tem um dos braos.
	 uma espcie de rplica da Vnus de Milo?  Murphy riu, imaginando como Frances devia tratar dos seus brinquedos.
	Exatamente. S que sem os adornos.
	Frances gosta muito dessa boneca?
	Era uma das suas prediletas... at perder a cabea.
	Por causa do namorado Ken? Ah, aquele rapaz no merece tanto!   
Ela deu uma risada gostosa, e Murphy jogou mais duas bolinhas de vidro na sua direo. Queria ter dito que Tony no merecia tanta considerao dela, que ela no devia ter desperdiado tantos anos e tanta energia na companhia de um tolo irresponsvel... Mas no seria estpido a ponto de fazer uma afirmao dessas. Alm do mais, Vivianne j havia deixado claro que no desejava voltar a tocar naquele assunto. Por isso, ele mudou o rumo da conversa:
	O que aconteceu com a cabea da Barbie?
	Tem certeza de que quer ouvir a triste histria da Barbie Descabeada?
	Sim, me conte.
E Murphy no mentia, pois estava curioso para saber o que teria levado Frances a destruir sua boneca favorita. Se bem conhecia a menina, ela devia ter tido um motivo muito srio para agir assim.
Como a me dela, que sempre tinha um motivo muito srio para agir como agia, explicasse ou no que motivo to importante era esse. Mais cedo ou mais tarde, Murphy tinha esperana de descobrir a resposta para a maior das questes: no o porqu de ela ter ido embora e se casado com Tony antes de se formar na faculdade, nem o porqu de ter permanecido tanto tempo junto a um homem que no lhe dedicava carinho, ateno. Considerao... O que ele queria mesmo saber era por que Vivianne nunca mais voltara para casa.
Ela comeou a contar:
	Frances tinha um amiguinho de nome Thad na pr-escola, e eles costumavam brincar juntos. Thad gostava muito desses bonecos desmontveis, que chamava de Joes. O garoto adorava fazer experincias com seus Joes: trocava as cabeas, os braos, as armas e os outros acessrios. Thad costumava reconstruir os bonecos, colocando partes de um num outro e... Bem, voc pode imaginar o resto da histria, no?
	Frances quis fazer o mesmo com a sua Barbie?
	Exato.
	S que acabou perdendo alguns "pedacinhos" enquanto remontava a boneca?
Vivianne deu uma gargalhada antes de acrescentar:
 Ah, mas voc precisava ver como a Barbie de Frances ficou atraente com um dos braos bem musculosos de Joe! Pena que Thad tenha pedido o brao do seu boneco de volta!
Fascinado com o som da risada dela e com o jogo de luz e sombras que envolvia o corpo de Vivianne enquanto ela trabalhava na porta do carro, Murphy levantou-se devagarzinho. E se sentiu subitamente aquecido pela atmosfera dourada em que a cobertura nos fundos do quintal parecia mergulhada.
Um calor tpico do vero. Preguioso. Inebriante. Sedutor.
Sem pensar no que fazia, ele seguiu um impulso e deu a volta ao redor do veculo.
Vivianne tinha se colocado de joelhos. Com muita pacincia, passou cola nas bordas de uma reluzente pulseira de lato e prendeu-a  porta do carro. Havia separado pedacinhos de bijuteria e vidro e com eles fizera um arranjo que imitava a exploso de fogos de artifcio, todas as pedrinhas em forma de pingo d'gua e os vidrilhos mesclando-se numa espcie de cometa cintilante projetando-se para o alto; na parte inferior da porta, midos punhados de confete verde criavam a idia de um alegre parque. Com os braos abertos e a cabea jogada para trs, uma criana confeccionada em lantejoulas azuis e falsas prolas olhava para a chuva de pedrinhas e vidrilhos coloridos que caa do cu.
Murphy passou os dedos de leve pelo desenho, murmurando:
	Est lindo, Vivianne. Voc fez uma obra-prima com as velhas tralhas que eu tinha aqui.
Ela abaixou a cabea, mas manteve o olhar fixo nele. Murphy teve a impresso de ver uma certa timidez naquele olhar, uma timidez sem motivo que o fez lembrar-se da Vivianne que conhecera to bem anos atrs.
Com muita habilidade, ela se ps a salpicar purpurina vermelha sobre algumas reas do desenho. Depois perguntou num tom natural:
	Lembra-se do pique de Quatro de Julho em Rye Bridge?
	Voc tinha quinze anos.
	E voc tinha vindo para casa aproveitando uma folga do servio militar.
	Sim,  verdade.
	Voc teve um encontro nada convencional com Web.
	Me lembro disso tambm.
	De acordo com o que Web me contou depois, voc o ameaou seriamente.
	Mesmo?
	Segundo ele, voc lhe falou que mantivesse as suas mozinhas curiosas bem longe de mim. E lhe disse tambm que, se o pegasse novamente tentando flertar comigo, ele iria ter srias dificuldades para escrever o prprio nome durante um bom tempinho.
 Web falou tudo isso? Ele tinha uma boa imaginao.
Vivianne fez uma pausa em seu trabalho, mas no olhou para ele. Os cabelos encaracolados lhe caram sobre o rosto quando ela se abaixou para apanhar um brinco dourado. Foi s depois de passar cola no brinco e grud-lo no centro da exploso de fogos que ela retomou a conversa:
 Voc realmente ameaou bater em Web?
	Eu disse a ele que a tratasse com muito respeito, pois voc ainda no tinha nem dezesseis anos. Falei tambm que eu esperava no ser contrariado.
	Sei...
 Seja como for, no me lembro muito bem desse episdio.
O que no era verdade. Ele se lembrava de todos os detalhes. Web Brandon tinha a fama de ser um sujeito bastante atrevido, acostumado a ultrapassar limites que no lhe eram permitidos. Murphy o fizera ver que pagaria bem caro se ousasse usar de suas artimanhas cheias de segundas intenes para com Vivianne Chapman.
	Voc sabia que aquela foi a ltima vez em que vi Web, Murphy?
	Ento ele era mais esperto do que aparentava.
	Voc no tem jeito mesmo!
	Onde achou todos esses pedacinhos de vidro vermelho, Vivianne?
	Numa caixinha na despensa. Encontrei-a ontem, quando estava guardando as compras. O que voc quebrou?
	Uma jarra. Mesmo encaixotados, vrios objetos de vidro se partiram quando me mudei para c. Fiquei com pena de jogar fora.
	Que objetos?
	Deixe-me ver...
Ela se levantou e levou os braos s costas, esticando-os com fora para trs enquanto endireitava os ombros. A delicada sombra dos seus mamilos projetou-se por debaixo da camiseta cor-de-rosa. No seu ventre, a fileira de botes que fechava o diminuto short se sobressaiu com o movimento.
	Lembrou o que se quebrou na mudana, Murphy?
	Frascos de perfumes.
	Oh! Eu costumava colecion-los.
	Eu sei.
Os olhos de Vivianne, arregalados de surpresa, fizeram com que Murphy se lembrasse de uma coruja assustada. Ele riu.
	Qual  a graa, Murphy?
	Voc, princesa.
	Ei, no  justo divertir-se s custas de uma trabalhadora. Voc deveria era estar dando graas aos cus por eu t-lo ajudado a empetecar o seu carro sem cobrar nada.
	Voc tambm riria ao ver-se assim, Vivianne. Precisava olhar-se no espelho: tem cola no nariz e lantejoulas nos cabelos.
	 no que d matar-se de trabalhar para...
	Fique quietinha e no se mova.
Murphy aproximou-se, passando-lhe as mos pelos cabelos com delicadeza. Vivianne tombou a cabea para trs e, em questo de instantes, lantejoulas coloridas que ele lhe soltava das mechas encaracoladas brilhavam sobre o piso poeirento.
Enrolando uma mecha sedosa entre os dedos, Murphy suspirou. Ela ento perguntou:
	Por que estava juntando frascos de perfume? Voc nunca foi do tipo que coleciona objetos considerados frvolos.
	Eram muito bonitos e delicados, princesa. Eu gostava deles.
Murphy no quis dizer que os frascos o faziam lembrar-se das fileirinhas de vidrinhos multicoloridos que reluziam ao sol sobre a penteadeira dela. Na verdade, essa concluso acabava de lhe ocorrer naquele instante. Ah, era estranho como a sua mente lhe pregava as peas mais incrveis... Era estranho como ele demorava a se dar conta disso...
Num gesto instintivo, levou a mo ao primeiro boto da camiseta que ela usava e tocou uma gotcula de suor que umedecia o tecido quela altura. Vivianne cobriu a mo dele com a sua.
	O que est fazendo, Murphy?
	Se ao menos eu soubesse... Para ser sincero, no fao a menor idia.
	Ah!
To cuidadoso como com qualquer coisa que fazia na vida, ele tomou o reluzente boto entre os dedos e soltou-o. Vivianne no se moveu, pois se sentia completamente paralisada. Naquele momento, nada parecia ser capaz de romper a bruma que lhe entorpecia os sentidos com a inexorvel mansido de uma onda que se derramasse sobre a areia numa tarde de vero.
Nada importava.
Uma borrasca poderia ter carregado para longe aquela cobertura nos fundos do quintal e ela no perceberia. Nem se incomodaria.
Empurrando-a levemente de encontro  parede, Murphy movia-se como se danasse uma msica que s existia na sua cabea, seus passos lentos e cautelosos, seus ombros largos projetando uma sombra lnguida sobre o rosto de Vivianne enquanto ele lhe abria o segundo boto da camiseta.
Experimentando uma forte sensao na parte baixa do ventre, ela ofegou. Murphy largou o terceiro boto, mas deslizou os ns dos dedos pela garganta dela.
 Vivianne?
Ela balanou a cabea, sem saber se lhe dizer que parasse ou que continuasse. Fechando os olhos, sentiu quando o terceiro boto se abriu.
A parede estava logo s suas costas e, enfraquecida pelo desejo, Vivianne encostou-se ao cimento frio. Numa frao de segundo viu-se aprisionada por Murphy, os braos dele esticados nas laterais de seu rosto, as mos dele espalmadas contra a parede. Seus joelhos se tocaram.
Na penumbra, ela s conseguia ver os olhos verdes de Murphy perigosamente estreitados, fixos na sua boca. Ele abaixou a cabea devagarzinho, devagarzinho... e Vivianne sentiu o gosto dos lbios sedentos, um gosto suave e insinuante. E um gosto que nunca mais haveria de esquecer pelo resto da vida.
Suavidade. Insinuao. Murphy.
Ela estremeceu, e o arrepio que lhe percorreu o corpo era gelado, pouco adequado a um dia de vero na Flrida. A sensao de frio parecia lhe embotar os sentidos.
Os lbios de Murphy moveram-se sobre os dela com uma urgncia inflamada. Algo muito diferente do conforto e da amizade que Vivianne queria lhe oferecer para apaziguar o lampejo de solido que vira nos olhos verdes.
Como ela se enganara!
O que Murphy lhe oferecia agora, o que lhe dava, o que lhe pedia, nada tinha a ver com conforto ou amizade. Era apenas desejo, um desejo to vido e intenso que chegava a assust-la. Os lbios dele eram exigentes, possessivos; Vivianne entreabriu os seus, permitindo que as lnguas se tocassem e se acariciassem. Num impulso, passou ento os braos ao redor do pescoo de Murphy, unindo-se a ele num abrao apertado.
No, ela jamais podia ter imaginado a onda de excitao que aquele contato lhe provocaria. Nunca havia experimentado nada parecido. Sequer julgara que sensao to forte pudesse existir.
As mos de Murphy lhe alcanaram o decote da camiseta. De olhos fechados, Vivianne sentiu o restante dos botes se abrirem, depois sentiu dedos fortes a lhe abarcarem o seio. Devolvendo a carcia, ela enfiou a mo por debaixo da velha camiseta e afagou o peito dele, sentindo-lhe o corao pulsar com vigorosa energia de encontro  sua palma.
Ele deslizou a mo at a cintura dela com gestos delicados, uma delicadeza que contrastava com a intensidade do seu beijo. Vivianne colou o corpo ao dele, deixando os braos tombarem sobre os ombros espadados para acarici-los.
Havia se esquecido de tudo naqueles instantes, s conseguia pensar em proporcionar a Murphy o que ele lhe proporcionava. A solido e a avidez que vinham dele lhe despertavam um sentimento novo, algo que desconhecera at aquele momento. S ento se deu conta de que o que havia sentido por Tony fora um arremedo de emoo perto das sensaes que Murphy criava no mais ntimo do seu ser. E aquilo era to bom, Senhor, to bom!... Poderia ficar ali, enlaada pelos braos fortes, at o fim dos seus dias.
De repente Murphy encostou a testa na dela, estremeceu e voltou a apoiar os braos na parede. Ofegante, no se moveu. Seu fsico robusto parecia lutar para retomar o controle.
Vivianne colocou as mos ao redor dos pulsos dele.
 Murphy? O que houve?
Num gesto abrupto, ele deu-lhe as costas e, aproveitando estarem parcialmente encobertos pelo carro, falou:
 E ento, Frances? Encontrou a sua Barbie?
Vinda da claridade que banhava o quintal, a menina aproximou-se deles com uma mozinha a lhe sombrear os olhos. Na outra, segurava uma figura de plstico, sem a cabea, com pernas longussimas e ps arqueados.
	Olhe a minha Barbie, Murphy! Ela vai ficar linda no carro.
	Claro que vai.
Ele dirigiu-se para junto de Frances, permitindo a Vivianne um momento de privacidade. Ah, que sorte Murphy ter ouvido a garotinha se aproximar...
Vivianne arrumou a camiseta o melhor que pde nas circunstncias, mas nada passava despercebido a Frances:
 Por que os botes da sua roupa esto abertos, mame?
Ao perceber que Vivianne estava corada e sem voz, Murphy se antecipou a ela:
	Por falar em botes... Por que no colamos alguns na frente do carro, ao redor da Barbie?  Ele apanhou botes coloridos numa caixa que estava no cho e mostrou-os a Frances:  Podemos fazer um lugar de destaque para ela. O que me diz?
	Sim, faremos uma espcie de trono para a sua Barbie e colaremos os botes ao redor  sugeriu Vivianne ao reencontrar a voz.  Ficar mais lindo ainda.
E foi o que fizeram.
Barbie ganhou o seu trono, uma embalagem de sorvete virada de cabea para baixo e parcialmente cortada para conter a boneca. Botes perolados recobriam o arco formado pela parte alta do trono.
Vivianne trabalhou em silncio. Devia graas aos cus por Murphy ter sido to rpido e engenhoso em resolver o momento de grande embarao que os envolvera minutos atrs. Ela no saberia o que dizer a Frances se... Oh, quando iria deixar de cometer loucuras?
De acordo com o plano traado anteriormente, os trs retomaram suas tarefas. Mas agora havia uma diferena, e Vivianne podia senti-la como uma espcie de eletricidade a estalar no ar a cada vez em que Murphy se aproximava dela. E, mesmo a distncia, tinha a impresso de conseguir ouvi-lo respirar. Lanava-lhe olhares de soslaio de quando em quando; ele, contudo, parecia-lhe totalmente absorto no que fazia.
Enfeitaram o veculo para o desfile por mais uma hora. Frances e Murphy deram o acabamento ao arranjo com a boneca e seu trono e logo depois declararam-se cansados: ele afirmou estar com fome, ela afirmou ter concludo a sua tarefa. Objetivo cumprido, ambos trocaram um forte aperto de mo.
	Os sanduches esto uma delcia, princesa.  Murphy colocou os ps na parte baixa da armao da cadeira de balano onde Vivianne e Frances estavam esparramadas.
	Sanduches de atum  explicou a menina, saltando do colo da me.  Porque mame falou que voc precisa repor as suas energias.
	Minhas... energias?  Ele quase engasgou com um gole de limonada.
	Sim, senhor  Vivianne foi taxativa.  Suas energias.
	Mas eu pensei que estivesse em boa forma j que...  Por sorte, ele acabou se engasgando de verdade.
	No precisa continuar  admoestou-o Vivianne.  Frances, bata de leve nas costas dele.
	Por que no preciso continuar?  quis saber Murphy, assim que se recuperou.
	Voc fala um monto de palavras  observou Frances, encostando-se nele.  Mas eu no contei todas ainda.
	Deixe isso para l, pequena, e venha me fazer companhia.  Murphy colocou-a no colo e recostou-se na cadeira de palha, de onde ficou olhando para Vivianne.
Haviam tomado um bom banho para livrarem-se da poeira e dos materiais utilizados para decorar a perua. A pele de Vivianne estava fresca e rosada, e, encolhida na cadeira de balano, ela parecia prestes a pegar no sono a qualquer instante. Em poucos meses, sua gravidez estaria mais do que aparente. Ela iria adquirir uma aparncia mais madura, com os seios mais fartos e o corpo inteiro mais arredondado.
E, com Frances, estaria em algum outro lugar.
E se alguma coisa lhe acontecesse quando apenas Frances estivesse por perto? O que a garotinha iria fazer? Saberia pedir ajuda a algum? A quem iria chamar? O que se passaria com Vivianne e o beb?
Os trs estariam sozinhos. Desamparados.
Vivianne pediria socorro a ele? No era provvel.
 Vivianne?
 Sim?  Com um gesto vagaroso, ela afastou uma mecha de cabelos do rosto.
Ainda com Frances no colo, Murphy debruou-se na direo dela to de repente que chegou a assust-la, fazendo-a endireitar-se na cadeira. Torcendo o nariz, ela riu e perguntou:
	O que foi, Murphy? Por que me chamou?
	Quem vai tomar conta de Frances quando voc tiver o beb?
	Ah, no sei. Ainda no pensei nisso. Tudo ficar bem assim que estivermos instaladas e eu tiver um emprego. Mas no fique me enchendo de perguntas a esse respeito, est certo?
	No estou enchendo voc de perguntas. S quero saber quais so os seus planos.
	J disse, ainda no sei. Mas vou me arranjar.
	Sim,  isso o que voc vive falando, mas e se as coisas no se arrumarem? O que vai acontecer? Est sozinha, se esqueceu? O que ir fazer?
	Bem, eu...
	Coisas ruins acontecem, Vivianne. Para todo mundo.
	Agora no  o momento para conversarmos sobre isso, Murphy.  Ela se levantou.  Venha, Frances. Temos algumas coisinhas para fazer.
	Eu quero ficar com o meu Murphy.  Frances debruou-se sobre os joelhos dele.  Voc quer que eu fique com voc, no quer?
	Claro que sim.  Murphy sabia que Vivianne tinha razo, ele no devia ter tocado naquele assunto diante da menina.  Frances pode ficar comigo, eu tomo conta dela. Que coisinhas voc tem para fazer?
	Procurar emprego. As entrevistas que fiz ontem foram uma perda de tempo.
	Por que no espera at segunda-feira?  Murphy tambm se ergueu, trazendo Frances consigo.  Sbado  tarde no  a ocasio mais recomendvel para se andar atrs de trabalho.
 O que no  recomendvel  eu ficar sentada aqui, como uma preguiosa, esperando que empregos caiam do cu.  Ela lhe fez uma careta.  Vou apenas deixar uns currculos por a. Tem certeza de que quer que Frances fique com voc?
Murphy queria que as duas permanecessem exatamente onde estavam, s que isso no dependia da sua vontade. E ele tinha de parar de pensar que o que Vivianne fazia era da sua conta, porque no era.
Havia dito a si mesmo que cuidar dela era o mnimo que podia fazer em considerao aos Chapman, mesmo que em seu peito o ressentimento ainda queimasse de quando em quando. Um ressentimento que s deixava de existir nos momentos em que a tocava. Nesses instantes, a raiva dava lugar a uma confusa mistura de emoes. Que ele simplesmente no sabia como explicar. Ou evitar.
O mais importante, o ponto principal, era que Vivianne e Frances necessitavam dele, dessem-se conta disso ou no. Por mais teimosa, cabea-dura e obstinada que fosse, Vivianne precisava dele. Por isso, tinha de engolir a raiva pelo que ela fizera e ajud-la a qualquer custo.
S que ela recusava terminantemente essa ajuda.
Pensativo, ficou a observ-la por alguns instantes. Em vez de levar em conta o que Vivianne queria ou no, era seu dever fazer o que fosse melhor para ela.
Decidindo que essa seria a atitude mais sensata a tomar, Murphy calculou o que iria lhe dizer. Nem que estivesse maluco iria permitir que ela partisse da sua casa, levando Frances pela mo e um beb no ventre, para viver sabe-se l onde. Ou em que condies.
Vivianne podia pensar o que bem entendesse. Mas ele no iria deix-la cometer mais uma loucura. De jeito nenhum.
Passando a mo pelos cabelos, ela disse:
	Frances, venha se trocar. Depois que eu tiver feito as visitas, vamos parar para tomar um sorvete. Eu tinha me esquecido de como o clima da Flrida  quente... O calor parece grudar na gente.
	Deixe Frances ficar comigo. Vamos pensar num passatempo que no a faa suar, no , pequena?
 , sim  a menina no perdeu tempo em concordar. 
 Tenho o oramento de um trabalho para fazer  continuou Murphy.  Frances pode ir comigo e me esperar na picape. O lugar fica perto da praia, l a brisa  bem fresquinha.
Ele realmente queria que a garotinha o acompanhasse.
Queria proporcionar a Vivianne um momento de descanso e despreocupao.
Frances no deu  me a oportunidade de dizer que no. Vivianne ainda tentou argumentar, mas logo percebeu que seria intil e entrou no sobrado para trocar de roupa.
Enquanto isso, Murphy e a menina ocuparam-se em juntar folhas e gravetos para fazer barquinhos. Frances planejava lev-los  praia para solt-los no mar.
Quando Vivianne retornou  varanda, ele tentou no admirar as longas pernas envoltas em meias de vero, o conjunto acinturado que ressaltava os seios empinados, o corpo que se movia com extrema feminilidade sobre as sandlias de salto alto.
Tentou. E no conseguiu.
	No d trabalho a Murphy, Frances  disse Vivianne, arqueando as sobrancelhas para ambos.
	V tranquila, princesa  correu a retrucar Murphy, antes que ela mudasse de idia.  Frances no dar trabalho algum.
	Voltarei o mais breve que puder.
	No se apresse, leve o tempo de que precisar.  Sem lhe dar tempo para reagir, Murphy abriu o zper da bolsa que ela carregava e colocou algumas notas dentro.  Esse  o dinheiro das compras que voc fez ontem. E se quiser trazer mais alguma coisa do supermercado, Frances e eu agradecemos.
Entre zangada e sem graa, Vivianne deu-lhe as costas e retornou para o interior do sobrado pisando duro. Pouco depois, saa pelo corredor da garagem no sed vermelho sem olhar para trs.
	Mame est furiosa com voc, Murphy.
	Parece que sim, pequena. Mas no se preocupe, isso passa.
	No sei, no... Ela parecia muito, muito zangada.
Murphy tentou sorrir. Talvez no tivesse feito a coisa da forma mais adequada, mas sabia que Vivianne precisava do dinheiro. Que outra opo lhe restava, a no ser obrig-la a aceit-lo?
	No se aborrea por causa da sua me, Frances. O orgulho dela ainda vai ter de enfrentar a realidade.
	Voc fala difcil s vezes...
	Ento no ligue para o que eu falo, certo? O importante  que tudo acabe bem.
	Mame  teimosa, no ?
	Sempre foi.  a boa e velha Vivianne que conheo. Talvez ela nunca mude.
Frances riu para ele, sem saber muito bem o que aquilo significava. Tomando a mo da garotinha, Murphy conduziu-a para a picape.

CAPTULO IX

Vivianne mal podia crer na pressa com que os dias passavam. Duas semanas, e ainda no conseguira encontrar um emprego.
Depois que os trs haviam terminado a ornamentao da caminhonete para as celebraes do feriado nacional, Murphy registrara o veculo no desfile, encarregando-se tambm do pagamento das taxas. A escolha das roupas ficara por conta de Frances.
Vivianne, por sua vez, passara o tempo na intil busca por um trabalho. Pensara que fosse ser tudo muito simples e rpido, pois estava preparada para aceitar qualquer oferta. S que as ofertas simplesmente no apareciam. No havia oportunidades para uma mulher com diploma de professora de um outro Estado e que precisava de um curso para obter especializao local. Uma mulher, alm do mais, grvida.
Num frenesi de atividade para dispersar a energia que vinha acumulando e que mexia com seus nervos, ela se ocupava em manter a casa de Murphy em ordem. Como uma forma de recompens-lo por tudo que ele estava fazendo por ela e por sua filha, cozinhava, limpava, lavava roupas. Colocava flores em pequenos vasos e os arrumava sobre a mesa da cozinha  hora do jantar. Transformara lenis velhos em cortinas e as prendera acima dos furos nas paredes da cobertura nos fundos do quintal. Usando lenis em melhor estado, fizera uma colcha para a cama de Murphy tomando o cuidado de pregar elsticos s bordas a fim de faz-la fixar-se direitinho em cima do colcho.
A cada nova idia sua ele se mostrava mais carrancudo.
Num domingo, num acesso de culpa, Vivianne ps-se a passar todos os jeans surrados dele. Murphy protestou:
 Meus colegas de trabalho vo pensar que ganhei na loteria. Fazer vincos nas minhas calas Levi's? Essa  demais!
Sabendo que ele s fazia aquelas objees com o intuito de poup-la, Vivianne empilhou os jeans passados e correu a levantar a tampa de um caldeiro que fervia sobre o fogo. Como pretendesse fazer uma boa quantidade de sopa, para durar uns dois ou trs dias, vinha cozinhando o caldo em fogo baixo havia j um tempinho.
Mas no teve tempo para ver o resultado de tanto trabalho: sem dizer uma palavra, Murphy foi at o fogo, apanhou o caldeiro e despejou todo o seu contedo fervente na pia.
Depois disso, ele no saiu mais de perto de Vivianne. E lhe tirava das mos todo e qualquer objeto que ela pegava, tratando ele mesmo de executar a tarefa pretendida.
Ela sabia que Murphy estava zangado.
E compreendia o estado de nimo dele. No importava quantas vezes Murphy repetisse que a presena dela e de Frances em sua casa no o incomodava, Vivianne no conseguia acreditar no que ele dizia. Murphy Jones faria qualquer coisa em considerao aos pais dela.
E, a cada dia que passava, esse esforo dele ia se transformando num fardo que ela no mais suportava carregar. Era-lhe vergonhoso permitir que Murphy tomasse conta dela e de sua filha. Aquilo no estava dando certo.
Ele pusera dinheiro em sua bolsa, esperando que ela o aceitasse com natural gratido. Vivianne compreendia que seria impossvel ele no ter feito isso, s que Murphy no compreendia que seria impossvel ela ter aceitado... muito menos com naturalidade.
O problema era claro demais: ela no tinha o que fazer por ele, pois no estavam em situao de igualdade. No relacionamento que tinham estipulado, no havia espao para reciprocidade. Era Murphy a oferecer e dar, e ela sem condies de retribuir.
Todos que o conheciam sabiam da sua natureza prtica e generosa. Murphy era um homem acostumado a cuidar de tudo. Do seu carro. Da sua picape. Da sua casa. Da sua vida Se se casasse, seria tambm superprotetor para com a sua famlia.
Ele podia no ter transformado sua moradia num lar, mas cuidava do bsico. Como sempre fizera com tudo. E sua casa, sendo ou no um lar, sobreviveria a cinco furaces, duraria uma eternidade, estaria ali at o fim dos tempos.
Uma residncia mais do que apropriada para abrigar uma famlia e, no entanto... Vivianne no queria pensar naquilo agora. Seu tempo se tornava escasso. Em breve, sua gravidez seria visvel, e arrumar um emprego seria ainda mais difcil. Seu tempo se tornava escasso, principalmente depois do que ocorrera entre ambos na cobertura nos fundos do quintal.
Ela tentava no pensar naquela manh. Algumas noites, porm, seu corpo se recordava da maneira com que Murphy a fizera sentir-se e voltava a arder num calor irreprimvel e indesejado. Vivianne no se permitia rememorar os instantes nos braos dele. No podia se permitir.
E tratava de no tornar a ficar sozinha na companhia de Murphy.
Porque, junto dele, o seu corao disparava e batia num compasso novo, to intenso e desconhecido, que a deixava assustada, com medo de no resistir e atirar-se nos braos dele de novo, pedindo-lhe que tomasse conta dela, da sua vida, de tudo.
No mais ntimo do seu ser, no queria que isso acontecesse. Havia lutado e trabalhado muito, por um longo perodo de tempo, para aprender a administrar a realidade em que vivia. No podia sacrificar todo esse duro aprendizado, no era justo para consigo mesma atirar tudo o que sofrera ao lu. Uma mulher no devia ser apenas um ornamento para um homem.
Mas uma mulher desesperada era capaz de qualquer coisa.
E ela era uma mulher desesperada.
Vivianne deixara currculos e preenchera fichas em todos os departamentos e escolas do condado, at mesmo em lojas e restaurantes. Jovens em frias escolares e pessoas com experincia ficavam com as vagas. Ela chegara a procurar trabalho inclusive em lanchonetes, mesmo sabendo que no lhe pagariam os benefcios sociais. Tambm isso no surtira resultados.
Ah, Deus, precisava tanto de um emprego! S assim as coisas iriam se ajeitar.
Tentava manter a casa de Murphy livre da baguna que parecia inerente a ela e a Frances como o ar que as rodeava. E justamente naquela manh o vira cerrar os dentes ao abrir caminho por entre as meias e peas ntimas que havia dependurado no suporte da cortina do banheiro. Naquele instante, teve vontade de desistir de tudo, sentar no cho e pr-se a chorar at esgotar as lgrimas.
E de que isso lhe adiantaria?
Oh, tinha de ser forte e agarrar-se ao pouco que j alcanara. Finalmente tinha conseguido abrir uma conta corrente com o dinheiro que recebera da venda do carro. No era muito e nem duraria para sempre, mas devia considerar o acontecimento, ainda que banal, como uma pequena e suada vitria.
Diante da fachada do restaurante onde o nome estava gravado em caracteres japoneses e uma placa escrita em ingls o identificava como A Casa do Sushi, Vivianne levou a mo ao peito, respirou fundo e entrou.
Naquela noite, durante o jantar, ela serviu uma poro de peito de frango empanado a Murphy antes de explicar:
	Ao que tudo indicava, A Casa do Sushi tinha acabado de despedir uma garonete. E eu consegui um emprego!
	, mame?  Frances no parecia muito animada.
	Estamos empregadas, docinho!  Vivianne inclinou-se para beijar a filha.  Vamos ter um cheque todo fim de ms.
	Parabns.  A frieza na voz de Murphy cortou-lhe o entusiasmo.
	O que foi?  perguntou Vivianne, sem saber muito bem o que dizer.
	Estou feliz por voc.  Ele colocou o garfo na beirada do prato.  Quando comea?
 Amanh. As gorjetas so distribudas todas as noites. Agora voc ter de nos aguentar s mais um pouquinho, depois estar livre de ns para sempre.
Frances deixou a colher cair sobre a mesa, mas no falou nada. Ela e Murphy ficaram olhando para Vivianne como se no tivessem compreendido o que acabaram de ouvir.
	Ns teremos o nosso cantinho muito em breve, Frances. Liu, o gerente, falou que as gorjetas so muito boas.  Vivianne cruzou as mos diante de si.  Vamos, docinho. Isso  motivo para comemorao.
	No, no .  A menina saltou para o cho e encaminhou-se para a sala, onde sua me deixara alguns caixotes de papelo da mudana de Murphy que finalmente esvaziara.  Vou brincar no meu castelo de caixas porque estou muito brava com voc, mame.
	Voc ter sua casa de volta s para si  Vivianne concentrou a ateno em Murphy, sabendo que seria melhor deixar Frances assimilar a idia antes de conversar com ela.  Sem peas ntimas penduradas no banheiro ou... Sei. que a sua vida no tem sido fcil, pois ns a viramos de cabea para baixo, no ?
	Pode ser.  Ele ergueu-se, apanhou seu prato e talheres e foi coloc-los na lava-loua.
	No estou entendendo  Vivianne tentou soar natural.  Pensei que voc fosse ficar contente.
	Pensou?  Murphy encostou-se  pia, cruzou os braos e ficou a encar-la com uma expresso tensa.  Estou feliz por ter conseguido o que queria, Vivianne. Era isso o que voc queria, no era?

	Bem, no  o melhor emprego do mundo, mas... O horrio  puxado, vou ter de passar vrias horas em p e...
	Trabalho duro.
	No ser para sempre. E vai me possibilitar fazer os cursos de que preciso para a habilitao do meu diploma aqui, na Flrida. Assim, quando recomear o perodo letivo nas escolas, vou poder lecionar em qualquer srie.
	E Frances? Quem vai tomar conta dela?
 J resolvi essa questo. Vou passar os dias de folga numa creche chamada Wee Ones; em troca disso, eles no cobraro o perodo que Frances ficar l. E  noite ela pode ir comigo para o restaurante e tirar uma soneca enquanto trabalho.
	Que beleza. E quando pretende dormir? Ou comer? Ah, j sei: vai comer no restaurante. Mas como vai do restaurante seja l para onde pretende morar para pendurar as suas roupas no banheiro?
	Pare com isso, Murphy. A vida  assim para quem  sozinha e tem uma filha para criar. D-se um jeito. Se precisar, arruma-se mais um emprego. Se no der para dormir, pacincia.
	Ah!
	Sinto muito se os meus planos no merecem a sua aprovao.
Vivianne teve vontade de chorar. Em vez disso, levantou-se e marchou pesadamente at a pia, detendo-se  frente dele. Cutucando-o de leve no ombro, disse:
	Sou muito grata por tudo o que voc tem feito. Se tivesse como recompens-lo, eu o faria de todo o corao. Mas Frances e eu precisamos refazer nossas vidas, e voc tem de retomar a sua.  isso o que precisa ser feito.  Alm do mais, quando necessitarmos de conduo, ns tomaremos um nibus.  como agem todas as pessoas que no tm condies para comprar um carro. Isso tambm  parte da vida.
	Estou vendo. E entendendo que voc vai insistir nessa idia.
	Vou, sim.  assim que tem de ser.
	Muito bem. Faa o que quiser. Como sempre fez, sendo a melhor deciso ou no.
	Do que voc est falando?
Murphy fez meno de deixar a cozinha, mas ela o seguiu e o segurou pela camisa, detendo-o no meio do caminho.
 Desde que vim para c, voc vive me dando esse tipo de indireta, Murphy. Quero saber do que est falando. At onde posso me lembrar, nunca lhe fiz nada de mal. Qual  o problema? Por que estou sempre com a impresso de que voc sente certa raiva de mim? Afinal, creio que no mereo isso.
Murphy virou-se e tomou as mos que ela agitava no ar, retrucando:
	No? Pois ento vamos direto ao assunto, princesa: como acha que foi a vida dos seus pais depois que voc partiu feito uma maluca de Manatee Creek e nunca mais voltou? Acha que isso no os fez sofrer? Acha que uma dzia de cartas e telefonemas compensaram a sua ausncia? Faz idia do quanto eles sentiram a sua falta e queriam rev-la? E Frances? Por que voc teve de ser to egosta? To obstinada em viver a sua prpria vida que no podia perder um tempinho para visit-los de vez em quando com a sua filha?
	Voc no sabe o que est dizendo! Eu os via. Voc sabe muito bem que eu jamais evitaria os meus pais. No entendo o porqu dessas acusaes. At lhe mandei um cheque com a metade do valor da venda da casa depois que eles morreram. E voc o mandou de volta para mim... rasgado em pedacinhos.
	E voc o enviou novamente, remendado com fita adesiva. Pensou que eu quisesse dinheiro? Depois de tudo o que eles fizeram por mim? Que tipo de insulto foi aquele?
	No foi insulto algum, era a parte que lhe cabia. De onde vm todas essas acusaes, Murphy? O que fiz no passado para voc agir assim? Estou cansada de tentar entender por que num momento voc est um anjo de bondade e no outro est frio como uma pedra de gelo. Quero saber o motivo disso.
Observando-lhe a expresso furiosa, quase ultrajada, ele teve uma enorme dificuldade em controlar a mgoa que trazia no peito em todos aqueles anos. Mesmo assim, foi adiante:
 Voc sempre fez o que quis, Vivianne, sem pensar um instante sequer na maneira com que isso afetava as outras pessoas. Como acha que os seus pais se sentiram quando partiu para estudar do outro lado do pas e no se deu ao luxo de vir para casa nas frias? Como acha que eles 
sentiram quando resolveu largar algumas matrias na faculdade porque lhe deu na cabea que no eram mais importantes para voc?
 Entendo. E voc alimentou esse fardo de amargura por todos estes anos? Por que no perguntou a mame e papai o quanto eles costumavam me ver? Alguma vez pensou em fazer isso? Aposto que no. E sabe o que eles teriam lhe dito, Murphy?
Alguma coisa estava errada. Como t-la obrigado a aceitar o seu dinheiro no outro dia, ele parecia estar cometendo outro engano agora. Cruzando os braos sobre o peito, Murphy perguntou:
 O que eles teriam me dito?
A voz dela veio baixa e fria, tomada por uma raiva que ele no conseguia entender:
	Teriam lhe dito que eu vim v-los sempre que pude. E que eles foram me visitar vrias vezes tambm. Aconteceu que nunca estive em casa nas mesmas oportunidades em que voc esteve. Eu nunca, jamais, os abandonei. Mas  esse o motivo para toda essa agresso, no ? Voc ficou furioso comigo por todos estes anos por algo que no fiz. Onde estava a sua confiana em mim? Como pde chegar a pensar que eu iria embora e daria as costas  minha famlia? Ou no  por isso que est me acusando?
	 por isso, sim.
	Pois saiba que no acredito. Alguma coisa me diz que o motivo  outro.
	Como assim?
	O problema no sou eu, Murphy,  voc. Voc no conseguia aceitar que ns o amvamos e se afastou. Ergueu uma barreira ao seu redor. E a minha partida o fez lembrar-se de que fora abandonado numa idade muito tenra para compreender o que lhe tinha acontecido. Aos cinco anos, voc no tinha como entender que no era culpado pela rejeio da sua me. E essa a fonte de toda a mgoa que voc traz dentro de si, no ?
	Eu...
	Voc no est sendo justo comigo. E nem com voc. Aquele garotinho de cinco anos no merecia o que lhe aconteceu.
Murphy cerrou os dentes. A dor que lhe consumia as entranhas era to intensa que ele chegou a pensar que no fosse suport-la. Mesmo assim, conseguiu murmurar:
	Sei disso.
	Aquele garotinho era to inocente quanto a minha Frances. Ah, Murphy, todos estes anos foram uma perda de tempo... Voc se manteve encerrado em si mesmo, com medo de correr toda e qualquer espcie de risco. E por isso que nunca quis se casar. E por isso que deixou esta linda residncia permanecer uma mera casa, e no um verdadeiro lar.
	Est tentando me psicanalisar, princesa? Quanta gentileza.
	Chame como quiser, mas  essa a verdade. Voc ficou com raiva de mim porque imaginou que eu tivesse abandonado os meus pais. S que no era realmente de mim que sentia raiva. Agora consigo ver isso com clareza. Todo esse tempo voc fez uso de uma fachada, mostrando-se prtico e objetivo quando, na verdade, morria de medo de perder o que havia atingido. No queria correr o risco de dar a ningum a oportunidade para abandon-lo outra vez.
Murphy quis retrucar, quis gritar com ela, quis dizer-lhe o quanto estava enganada. No conseguiu. Apenas deu-lhe as costas e saiu para a escurido. Para longe daquela casa. Para longe de Frances. Para longe de Vivianne.
Ps-se a caminhar pela calada e seguiu em frente mesmo quando chegou  estrada que levava ao centro da cidade. Continuou adiante, deixando para trs casas s escuras e a estrada ainda envolta pela ebulio das atividades noturnas. Prosseguiu sua caminhada por uma rua escura atrs da outra durante horas, sentindo-se mortalmente ferido.
Vivianne estava certa?
Pouco antes do amanhecer caiu uma chuva leve e quente que o encharcou. Nuvens volumosas prenunciavam uma manh cinzenta ao mesmo tempo em que detinham a claridade que o dia ameaava. Os pingos de chuva tinham um brilho prateado que parecia reverberar na penumbra.
Ao contornar uma esquina, Murphy viu-se diante de uma edificao deserta que assomava  luminosidade ainda fraca do alvorecer. Deteve-se no meio da rua e ficou a olh-la por alguns instantes. Depois, vagarosamente, encaminhou-se para o armazm de madeira, onde as tbuas do alpendre estavam empenadas e alguns degraus haviam se desfeito  intemprie. Bombas de gasolina cobertas de poeira e ferrugem assemelhavam-se a duas sentinelas na frente da construo.
Sem se dar conta, ele havia caminhando a noite inteira e chegara ao local onde sua vida tinha de fato se iniciado. Retornara ao posto de gasolina onde Rita e Bannister Chapman o haviam encontrado.
O armazm era menor do que se lembrava. Vinte e sete anos atrs, tudo aquilo lhe parecera imenso. E ele nunca mais tinha voltado ali. Sequer pensara em voltar.
Agarrando uma das vigas apodrecidas que ainda suportavam o telhado, Murphy ganhou impulso e elevou-se ao alpendre. Ento empurrou a porta prestes a se desmontar em suas mos e entrou. A chuva se insinuava pelos buracos no teto. Sob o peso dele, as pranchas de madeira que formavam o piso rangiam como num lamento.
Um local realmente muito pequeno.
Vazio, a no ser por uma nica recordao.
Sua me tinha parado  porta, dera meia-volta e acenara. Usava um vestido branco de vero. Deixara-o ali, com uma lata de refrigerante na mo, e descera os degraus com seu andar gingado.
Murphy voltou ao alpendre e olhou para as poas formadas pela chuva. Lembrou-se de que ela lhe sorrira. E desaparecera.
Ento os Chapman surgiram e o levaram... para casa. Deram-lhe um lar.
Ele no saberia dizer quanto tempo estivera ali, naquele alpendre caindo aos pedaos, olhando ao redor, pensando naquele dia to longnquo. Pensando em tudo o que Vivianne havia lhe dito.
O ronronar do motor de um carro ultramoderno o trouxe de volta ao presente. Devagarzinho, driblando as poas de lama, um seda vermelho aproximou-se. A chuva fazia uma cortina difana ao redor dele e do veculo, mas Murphy conseguiu distinguir o rosto delicado que o olhava atravs da janela do motorista.
Detendo o sed em frente ao alpendre, Vivianne chamou:
 Venha, Murphy. Vamos para casa.
Ele afastou-se do armazm e foi para o carro, com a impresso de que estivera doente por muito, muito tempo. Acomodou-se no banco do passageiro, junto a Frances.
A menina entregou-lhe uma toalha que tinha sobre o colo e disse com carinho:
	Meu pobre Murphy... Todo molhado!
	D-lhe tambm as toalhas que esto no banco de trs, docinho  pediu Vivianne, um tanto abatida.
	Como voc sabia onde eu estava?  perguntou ele com a voz meio entorpecida.
	No consegui dormir  explicou ela, enquanto dirigia com cuidado.  Esperei algumas horas e depois sa por a,  sua procura. Por fim, me lembrei de onde ficava o posto e... o resto voc j sabe.
	Ah, sim...  ele murmurou.
	Me desculpe por tudo o que eu lhe disse, Murphy. Sei que o magoei.
	Ns dois nos dissemos coisas muito duras. Mas vamos sobreviver. Afinal, j era hora de esclarecer certas questes. E eu tambm lhe devo um pedido de desculpas. Pensei que voc tivesse sido rude para com os seus pais e no pude perdo-la por isso.
	Mas eu j...
	Sim, voc estava certa: eu nunca falei com eles a esse respeito, por isso no sabia o que de fato se passava. Talvez tenha sido essa a forma que encontrei para continuar alimentando a minha mgoa, sei l. Seja como for, agora tenho certeza de uma coisa, Vivianne: eu estava errado.
Na semana que se seguiu, Vivianne manteve uma distncia cordial de Murphy. Seu corao havia se partido em mil pedaos quando ela vira o vulto slido e robusto no alpendre do velho posto de gasolina abandonado. Um homem ferido pelas recordaes e pelo sentimento de rejeio, emoes que ele vinha escondendo de todos por tanto tempo.
Murphy tambm se comportava com extrema cautela em relao a ela. A maneira educada com que se tratavam podia figurar em qualquer manual de etiqueta: evitavam olhares demorados, encontros imprevistos e at mesmo palavras desnecessrias. Era como se tivessem assinado um contrato para evitar qualquer situao que pudesse lhes causar algum tipo de constrangimento.
Mas alguma coisa havia mudado entre ambos, embora Vivianne no soubesse como defini-la. Apesar de todas as suas limitaes, fora capaz de encontr-lo no posto abandonado. Estivera ao lado dele quando ele precisara de algum. Esse algum podia ter sido qualquer pessoa... s que fora ela. Fora ela quem o encontrara e o levara para casa.
Essa constatao tornou-lhe mais fcil aceitar, ainda que relutantemente, a oferta de Murphy para cuidar de Frances enquanto ela estava no trabalho. No lhe custara perceber o quanto seria complicado carregar a filha para cima e para baixo, das aulas suplementares para o restaurante; Frances parecia se ressentir dessa situao e, aps alguns dias de tentativas, tornara-se mais quieta e calada.
Era quase meia-noite, num desses dias, quando Vivianne chegou do trabalho trazendo a menina nos braos. Tinha perto de cem dlares de gorjetas na bolsa, mas estava to cansada que quase sara da estrada por duas vezes quando os seus olhos se fecharam de tanto sono.
Murphy estava  sua espera na varanda. Sem dizer nada, apanhou Frances dos braos dela e levou-a para cima. Quando retornou, pediu-lhe que o acompanhasse at a cozinha. Ali, entregou-lhe um copo de leite e um comprimido de vitamina.
S depois de engolir a drgea com um gole de leite, Vivianne deu-se conta do que fizera e perguntou:
	O que  isso que tomei?
	Telefonei para uma amiga que trabalha como enfermeira numa clnica de ginecologia e obstetrcia, e ela me disse quais vitaminas voc deveria estar tomando. E como eu sabia que voc no estava tomando nenhuma...
	Mas eu no...
	No vamos discutir por causa disso, Vivianne. O seu beb precisa do melhor. E, por falar nele, quero que marque uma consulta mdica para os exames de rotina. E sem brigas por causa do preo, entendeu?
	No, no vou brigar com voc. Na verdade, no tenho foras nem para falar.
Ela afundou-se numa cadeira, desvencilhou-se dos sapatos e deixou escapar um gemido. Murphy arrastou outra cadeira para perto da dela, ergueu-lhe as pernas e acomodou-lhe os ps sobre os seus joelhos, pondo-se a massagear os ndulos de tenso.
Largando a cabea sobre o espaldar, Vivianne no se conteve:
	Que delcia, Murphy... Voc tem cinquenta anos para parar com isso.
	Voc no pode continuar com esse ritmo. No lhe faz bem. No faz bem para Frances. E no deve fazer bem para o beb tambm.
	Voc tem razo. Mas eu no conseguia pensar nisso trs semanas atrs.
	Deixe Frances ficar comigo durante o dia, assim voc no precisa passar suas folgas do restaurante na creche. Ela pode me ajudar a colar papel de parede e a pintar. Mas no vou estress-la, prometo. E, na certa, me divertirei com sua companhia. Eu no lhe faria essa oferta se no fosse o que realmente desejo. Dou-lhe a minha palavra.
	Ah, est bem... Obrigada, Murphy. Pensei que fosse dar conta de tudo, mas estou mesmo precisando de uma mozinha. E no quero que o meu orgulho acabe sacrificando Frances.
	Amanh voc no ter de passar a manh na creche. Aproveite para dormir at mais tarde e depois assista  sua aula despreocupada. Vou lhe deixar por escrito o endereo do local onde estou trabalhando.
	Combinado.
Essa foi a ltima coisa que Vivianne se lembrava de ter dito. Acordou no dia seguinte na cama de Murphy, mas ele e Frances no estavam mais em casa. O endereo que ele mencionara estava num papel sobre a mesa da cozinha.
Exausta, ela voltou para o quarto e armou o velho despertador de cabeceira. Tornou a adormecer antes mesmo de acomodar a cabea sobre o travesseiro.
Quando acordou novamente, dessa vez com o ruidoso alarme, deu uma gargalhada. Se bem conhecia Murphy, ele no iria mesmo confiar num rdio-relgio. E se faltasse energia eltrica durante a noite?
No final do dia, ela rumou para o endereo que ele lhe deixara. Como no fazia havia muito tempo, assobiou durante todo o trajeto.
Murphy pegou a broxa da mozinha de Frances, explicando:
	Tente assim, pequena: com a ponta do pincel virada para este lado.
	Pode deixar, sou boa nisso.  Ela pintou uma larga faixa azul ao longo do meio da parede.  Viu?
	, voc est indo muito bem. Muito bem mesmo.  Murphy sorriu para ela, divertindo-se ao v-la com a ponta da lngua para fora da boca.
Frances estava concentrada. E trabalhando duro.
Ele espantou-se com o cuidado com que a menina executava a sua tarefa. Foi depois de perceber que Frances o seguia o tempo todo pela casa onde estavam trabalhando que Murphy deu-se conta de que ela precisava de algo com o que se ocupar. Por isso, designara-lhe aquela parte da parede. E a garotinha estava se saindo realmente bem.
	Quando ser o desfile, Murphy?
	Na semana que vem. J decidiu o que vamos vestir?
	 segredo.  Com vagar e cuidado, Frances pintou outra faixa horizontal sob a primeira.  Mas voc vai gostar. Quer dizer, eu acho.
	Me d uma pista.  Com a ponta do dedo, ele lhe fez uma marquinha de tinta no narizinho.  Gosto de tentar adivinhar.
	Est bem.  Ela deteve-se, e alguns pingos de tinta lhe caram sobre o tnis.  Eu, voc e mame vamos iguais.
	Ei, no  justo, isso no  uma pista boa!  Murphy passou seu pincel ao longo da velha camisa que dera para ela usar.  Me d uma dica melhor.
	Ns somos a dica, seu bobo!
	Ah, j sei! Ento iremos todos vestidos de...
	Pintores!
	Que boa idia, pequena! Voc merece uma volta de helicptero por isso!
	Mereo, sim!
Assim que ambos largaram suas broxas sobre o jornal que forrava o piso, Murphy ergueu-a acima de sua cabea e girou-a no ar at que ficassem os dois meio zonzos. Deixando-se cair sobre um caixote, ele a ps de volta ao cho e deu-lhe um sorriso largo.
	Eu sei que no sou um pintor, Murphy. Mas gostaria de ser.
	Como assim, pequena? Voc ficou triste...
	Meu pai teria me amado se eu fosse um menino. Foi por isso que ele nos deixou. Porque eu era uma menininha.
Murphy colocou-a no colo e abraou-a com carinho.
 Isso no  verdade, Frances. E voc sabe muito bem que no. Alm de perfeita, voc  uma menininha adorvel, que todos amam. E sabe pintar. No  toda garota que sabe pintar. Mais do que isso: voc  a melhor decoradora de carros de desfile que conheo.
Murphy nunca se sentira to condodo. E era to pouco o que podia fazer para apagar a mgoa que percebera na voz dela! No entendia quase nada de crianas, no sabia muito bem o que dizer para anim-las. Mas, se tivesse Tony McAllister ao alcance da mo, iria esmurr-lo at a sua ltima gota de energia!
 Voc  uma grande pequena garota, Frances.
Ela pegou-lhe a mo e esboou um leve sorriso.
 Mas sou apenas uma garota. Voc no entende disso porque no tem bebs. No sabe por que os papais deixam os seus bebs. Seria bem melhor se eu fosse um menino. Se mame tiver um menino desta vez, tudo ser melhor. O meu pai no vai mais voltar porque mame falou que ele est no cu, mas voc vai gostar se ns tivermos um beb menino. At voc gosta mais de meninos, no gosta, Murphy? E a poderemos ficar todos juntos.
Murphy mal podia suportar a expresso que via no rostinho dela. No podia tolerar a idia de que aquela garotinha linda e inocente carregasse um fardo to pesado sobre seus diminutos ombros. No podia suportar o fato de no conseguir ajud-la.
Enrolando uma mecha dos cabelos dela no dedo, permaneceu em silncio por alguns instantes. Depois resolveu enfrentar a situao fosse qual fosse o resultado. O que no podia era deix-la sofrendo por uma bobagem.
	Sabe de uma coisa, Frances Bird? No sei se gosto de bebs meninos ou meninas. Voc tem razo quando diz que no entendo do assunto.
	.
	Mas de uma coisa eu tenho certeza absoluta: adoro voc, pequena. Muito mesmo. Do fundo do meu corao.
Murphy levantou-se e colocou-a sobre os ombros. Abaixando a cabea para passar o rosto no dele, Frances disse:
	Eu amo voc, meu Murphy.
	Eu tambm amo voc, minha pequena. De verdade. Virando-se, ele ergueu a cabea e viu Vivianne parada na porta em forma de arco. Ela os observava com olhos umedecidos.
	Bem...  Murphy rezava para que Vivianne no os tivesse ouvido.  Como foi a sua aula?
	Murphy, Murphy...  ela murmurou.  Voc  mesmo muito especial.
O corao dele deu um salto. E de repente, naquela sala cheirando a tinta e aguarrs, Murphy sentiu que uma nova possibilidade se descortinava  sua frente. Sorrindo para ela, sugeriu:
 Vamos fazer um piquenique, Vivianne.

CAPTULO X

Enquanto Vivianne o olhava  em  silncio, Murphy encaminhou-se para ela com um sorriso de pura expectativa.
 Vamos fazer um piquenique amanh cedinho junto ao rio. Voc, Frances Bird, eu... e o pequeno que est no seu ventre. Ento conversaremos a respeito daqueles planos que voc mencionou.
	Quais planos?  perguntou Vivianne, sem fazer a menor idia a respeito do que ele se referia.
	Os planos de ir embora l de casa. Vamos falar sobre isso e sobre o que  melhor para voc e Frances. No gostaria de relaxar um pouco num piquenique?
	Mas tenho de trabalhar at tarde no restaurante.
	Pea uma troca de turno.
	Como assim?
	No est vendo como estou sendo gentil, princesa? Estou lhe fazendo uma mera sugesto, em vez de lhe dar uma ordem incontestvel. Vamos, tire uma folga esta noite. Depois pensaremos em como ajeitar as coisas no restaurante. Venha comigo amanh, sim?  importante.
	Est bem.
Vivianne nem sabia por que havia concordado. E se Liu a despedisse? Havia gasto todo o dinheiro da venda do carro para pagar as aulas suplementares necessrias  atualizao do seu certificado de professora. Ah, droga! Se perdesse o trabalho como garonete, arrumaria um outro. J tinha feito isso, poderia fazer de novo. J tinha passado por coisas piores. E tinha sobrevivido, no tinha?
Era como se uma outra Vivianne tentasse convenc-la. Uma Vivianne que se escondia no ntimo da sua conscincia, que sabia mais do que ela, que entendia melhor a vida, que estava muito mais preparada para enfrentar o futuro.
Algo havia mudado em si mesma.
	Vou telefonar para o restaurante e ver se algum pode ficar no meu lugar por hoje.
	timo.
	Mal acredito que eu esteja fazendo isso, mas... Bem, nos veremos na sua casa. Frances fica com voc ou prefere que eu a leve comigo?
	Eu fico, mame!
Murphy sorriu para a menina antes de explicar:
	S mais uma ou duas horinhas, Vivianne. Meu colega Scotty e eu temos de completar a primeira demo num dos quartos antes de pararmos. Dirija com cuidado, sim?
	E alguma vez eu dirigi feito uma doida, Murphy?
	No,  claro que no.  apenas forma de falar. As mulheres McAllister sempre fazem tudo muito bem. Voc viu o trabalho de Frances?
Vivianne riu quando ele apontou as faixas azuis na parede. Mas a garotinha no se impressionou com o gracejo e, do alto dos ombros de Murphy, foi logo dizendo:
	Vou ajudar mame com as despesas, para ela no ter de trabalhar mais  noite.
	Essa tambm  uma tima idia  concordou ele, ajeitando a bandana sobre a testa.  Ser um outro assunto para ns conversarmos com calma no piquenique de amanh.
No trajeto de volta  casa de Murphy, Vivianne esforava-se para entender o que tinha acontecido. Experimentara uma sensao estranha quando detectara uma expresso de tristeza e solido nos olhos verdes de Murphy; o mesmo se passara quando tinham brigado e trocado acusaes. Hoje, ao v-lo com Frances sobre os ombros, era outra a sensao que a dominara: uma emoo calma e tranquila, uma vontade de abra-los e lev-los para a casa que agora, por algum motivo que no sabia explicar, comeava a lhe parecer um lar.
Um lar. Ela havia desfeito tantos caixotes de mudana, havia modificado tantas coisas naquele sobrado nas ltimas trs semanas... havia transformado salas e cmodos... num lar.
Vivianne teve a impresso de que sua vida desabrochava como um boto de flor, exalando um perfume doce e inebriante que s ela podia sentir. Curvando os lbios num sorriso espontneo, deixou que o volante do sed deslizasse sob suas mos.
Amanh. Um piquenique.
No dia seguinte os trs foram para Rye Bridge. Vivianne calculou que Murphy escolhera o local por dois motivos principais: recordaes e privacidade.
As guas escuras e salobras do rio corriam mansamente junto a eles. Uma longa corda balanava-se sobre a correnteza. Anos atrs, costumavam subir na corda numa das margens, balanar-se at onde conseguissem para depois largarem-se sobre as guas profundas.
Meio adormecida ao calor do sol, deitada no cobertor que haviam estendido na parte mais baixa da margem do rio, Vivianne sentiu algo roar ao longo do nariz e ao redor dos lbios. Abrindo os olhos, viu Murphy fitando-a com uma expresso muito sria. Seus traos marcantes estavam meio escondidos pelas mechas de cabelos que lhe caam sobre o rosto.
Ela estivera sonhando acordada com Murphy e Frances. E um beb cujo rostinho no conseguia distinguir. Uma luz suave e dourada os envolvia.
Balanando a cabea para afastar o devaneio, Vivianne perguntou:
	Onde est a minha filhinha querida?
	Fazendo tortinhas de lama. Posso v-la daqui, usando o seu coletinho salva-vidas. Est tudo bem.
Brincalhona, ela colocou um dedo no cs do short de banho de Murphy e o trouxe para junto de si, como havia feito algumas semanas atrs.
	Por que voc quis fazer este piquenique, Murphy? Est tramando alguma coisa, no est?
	Frances Bird precisa de um pai, Vivianne. Assim como esse beb que est no seu ventre. Case-se comigo. Deixe-me ser um pai para eles. E um marido para voc.
Ela sentiu a garganta apertar-se num n de ansiedade e arrependimento.
	Para que todo esse sacrifcio, Murphy? Desistir dos planos que fez para a sua vida... Renunciar a tudo por nossa causa... Voc trabalha duro e  um homem bom. Alis, eu nunca me dera conta do quo bom voc .
	Mas...
Vivianne levou a ponta do dedo aos lbios dele, fazendo-o calar-se. Adorava aqueles lbios. Amava aquele homem.
Sim, percebeu que sempre o amara.
Todos os medos que a tinham feito partir de Manatee Creek, todas as emoes e desejos que no entendia na poca... Tudo aquilo se devia ao fato de amar Murphy Jones do fundo do seu jovem corao. E ainda o amava com a mesma intensidade. Amava-o demais para permitir que ele fizesse aquele sacrifcio por ela e seus filhos. No podia aceitar tamanha abnegao.
Murphy merecia algum que o amasse de corao limpo, sem mgoas e sombras do passado, algum que no o fizesse recordar-se da me que o tinha abandonado.
 No posso, Murphy. No deve se casar com uma mulher por sentir-se responsvel... ou por pena. Eu sei, eu sei que vai dizer que no se trata de nada disso, mas... Conheo voc
muito bem, talvez melhor at mesmo do que voc conhece a si prprio. Pena, responsabilidade, bondade... Ah, Murphy, esses no so motivos que justifiquem um casamento.
Enquanto Vivianne falava, ele manteve a mo sobre o abdmen dela, transmitindo um calor e uma energia que pareciam contagiar o pequeno ser que ali se desenvolvia. Por um breve instante, ela teve a impresso de que o diminuto beb se movera. Devia ter sido imaginao, ainda era to cedo para isso...
 Est bem, vou me casar.
Vivianne ficou boquiaberta ao flagrar-se dizendo as palavras que tanto tentara reprimir. Oh, o que acabara de fazer? Se ao menos tivesse como voltar atrs... Sem saber como prosseguir, olhou fundo nos olhos dele.
Murphy lhe leu os pensamentos, compreendendo a expresso quase aterrorizada dela. Inclinando-se at que seus rostos se tocassem, murmurou:
 Tarde demais, Vivianne. Voc no tem como retirar o que afirmou, princesa.
Ela queria. Sabia que devia. Pensou em tentar.
S que no conseguiu.
Lembrou-se que Murphy e Frances pareciam ter feito algum tipo de pacto para tornarem-se a sombra um do outro. Aonde ele ia, a garotinha estava atrs como se ambos se ligassem atravs da cordas invisveis.
E Frances florescia como um boto de rosa que se abrisse dia a dia.
Analisando o efeito da companhia dele sobre sua filha, Vivianne sentiu uma ternura imensa. Amava Murphy. Amava Frances. Mas como podia deix-lo assumir um compromisso no altar por causa de uma obrigao imaginria? Com o passar dos anos, ele acabaria se arrependendo amargamente da atitude generosa que tivera. Ela no tinha o direito de lhe fazer uma coisa dessas.
Havia pintado de branco trabalhos em madeira num dos quartos que eles tinham escolhido para o beb. Ela, Murphy e Frances haviam comprado tinta para o quarto que seria da menina.
E Vivianne tinha verdadeiros ataques de pnico a cada nova idia. Continuava trabalhando na Casa do Sushi e no pretendia se demitir. No queria voltar a ser a mulher que aparecera do nada  porta da casa de Murphy com cinquenta dlares na bolsa.
Nunca mais.
Queria que aquele casamento desse certo.
Queria cancel-lo.
Trs dias antes da cerimnia, tempestades varreram as praias do Golfo. A queda da presso atmosfrica deixou-a ansiosa, irritvel. Mesmo sem ter o menor motivo, tinha vontade de chorar a cada vez em que Murphy ou Frances olhavam para ela.
Tinham combinado fazer um casamento simples mas formal, na igreja. Frances, porm, fez questo de que a festa se realizasse no quintal, com produtos servidos pela lanchonete Hamburger Hoedown. E argumentara com sua incrvel lgica infantil:
 Podemos pedir cachorros-quentes tambm, j que algumas pessoas no gostam de carne de vaca. E como sobremesa teremos sorvete napolitano, est bem?
A cerimnia seria de pequena proporo. Scotty e mais quatro colegas que formavam a equipe de reformas de Murphy viriam com as esposas. Vivianne havia convidado vrias pessoas da sua classe de Mudana Comportamental, mas mudou de idia e reduziu o nmero de convites em virtude do seu estado de exacerbada ansiedade.
Compraram um bero, e o corao dela ameaou se despedaar quando, depois de instalar o mvel no quarto reservado ao beb, Murphy dissera para Frances:
 Agora estou vendo o que devo ter perdido, pequena. Tenho certeza de que voc foi um amor de beb. Foi uma pena que eu no estivesse por perto para v-la nessa idade.
Vivianne tambm queria que ele tivesse estado.
Tony nunca estivera perto da filha. A nica presena masculina na vida de Frances Bird fora Thad, o pequeno destruidor de bonecos de armar. Agora, contudo, a menina tinha Murphy.
E ela tambm. Mesmo assim, no conseguia se livrar da terrvel impresso de que aquela fora a pior deciso que tomara numa vida repleta de decises absolutamente equivocadas.
Na noite anterior ao casamento, Vivianne correu para a cadeira de balano na varanda. Precisava afastar-se um pouco do constante e interminvel fluxo de energia de Murphy e Frances., Antes de se afundar na cadeira, ela lhes dissera:
 Vocs esto exercendo m influncia um sobre o outro.
Esto se contaminando reciprocamente pelo esprito de confuso e baguna.
Acomodada sobre a almofada que cobria a grande cadeira, ps-se a ruminar as suas comiseraes. As costas lhe doam. No havia jeito de conseguir arrumar os cabelos crespos que, talvez devido  umidade do tempo, estavam eltricos e rebeldes como nunca. E ela tinha a sensao de estar se atirando de cabea num precipcio sem fim. O medo de fracassar outra vez lhe corroa as entranhas, mas Vivianne no encontrava uma forma de lidar com esse mal-estar to profundamente desagradvel. Era uma coisa que crescia sem parar, como uma avalanche fora de controle.
Apoiando os ps no assento da cadeira, ela abraou os joelhos e deixou que as lgrimas lhe escapassem  vontade.
A porta da varanda rangeu. Mesmo na escurido, ela no precisava olhar para saber que era Murphy.
Ele sentou-se no cho, diante da cadeira de balano, puxando os ps de Vivianne para o seu colo.
	Est com medo, no est, princesa?
	Morta de medo. E melhor evitarmos isso enquanto  tempo, Murphy. Ser um erro sem tamanho.
	Tarde demais. Os cachorros-quentes j foram entregues. No temos sada. Como cancelar um casamento depois da chegada dos cachorros-quentes?
	Oh, estou falando a srio...
	Eu tambm. So regras que devo ter lido em algum livro para noivos.
Secando as lgrimas na bainha da camiseta, amparada pelo calor e pela escurido da noite sem estrelas, Vivianne tomou coragem e tentou argumentar novamente:
 No posso permitir que assuma a responsabilidade por mim e pelos meus dois filhos. Voc nunca quis uma famlia, Murphy. Nunca desejou essa vida, e agora est mergulhando em tudo o que sempre evitou. E no h como resistir a crianas; quando elas surgem, conquistam nosso corao mas viram tudo de pernas para o ar. E complicado: no se dorme direito, estamos sempre preocupados, qualquer coisa nos assusta. Alm do mais, voc est tendo de aguentar uma noiva grvida cheia de hormnios que muda de humor de um instante para outro... No era isso o que desejava para si, Murphy, eu sei que no. E no  o que voc merece tambm.
	Ah, princesa, voc est se torturando  toa. Acredite.
	Voc  to bom... E eu vou arruinar a sua vida. Ns lhe seremos um fardo to pesado que...
	J chega, Vivianne. Me escute, de uma vez por todas: quero me casar com voc, quero ser o pai de Frances Bird e do beb que vai nascer. Foi a escolha que fiz.
Vivianne queria ouvi-lo dizer que a amava. No queria mais escut-lo falando sobre o seu desejo de se responsabilizar por ela e pelas crianas. Depois de todos os anos de solido por que passara, queria mais. Queria tudo: os filhos, Murphy, amor.
Esforando-se para sentar-se direito, sentiu-o roar a mo pelo seu rosto.
 Shh, Vivianne. No se preocupe mais. Respire fundo e fique escutando a noite.
Na escurido, o carinho dele finalmente acalmou-a. Outra vez, como fizera em Rye Bridge, Murphy colocou-lhe a mo sobre o ventre agora mais protuberante. Mais do que isso: abaixando a cabea, levou os lbios ao abdmen dela e murmurou com imensa ternura:
	Ei, beb, est me ouvindo? Tenho umas coisinhas a lhe dizer, algo que precisa saber antes que venha para este belo mundo. Por isso, se est me escutando, preste bastante ateno: voc tem a me mais linda que j existiu, pequeno.
	E que ficar enorme dentro de mais alguns meses... Oh, voc ir se arrepender do que est fazendo, Murphy!
	Quietinha, princesa. Voc est interrompendo a nossa conversa.
Entre soluos e risos, Vivianne endireitou-se sobre a cadeira. Murphy prosseguiu:
 E voc ter a irm mais fabulosa que jamais poderia imaginar. Mas, se no abrir os olhos, ela vai se apoderar de toda a sua mesada. Por isso, venha preparado.
	Oh, Murphy...  Vivianne ps-se a passar a mo pelos cabelos dele.
	Ainda no terminei, trate de continuar quietinha.  Depois de olhar para ela, Murphy voltou a ateno ao beb novamente:  Vou me casar com a sua me porque a amo, e amo Frances Bird tambm, assim como vou amar voc. Seremos todos um s, para nos amarmos na sade e na doena, na pobreza e na riqueza, para nos protegermos e nos ajudarmos, para nos compreendermos e sermos felizes. Para sempre.
Murphy selou suas palavras com um beijo, e Vivianne viu-se enredada numa teia de amor e ternura que nunca conhecera na vida.
	Voc realmente me ama, Murphy?
	Claro que sim. Amo voc desde o instante em que a vi. Voc iria ser a minha irm, e eu j a amava. Mas o amor de homem para mulher veio quando eu tinha dezessete anos. E me deixou aterrorizado. Fiquei to confuso que no sabia mais o que era certo e o que era errado. Levei um bom tempinho para aprender a am-la como se deve, Vivianne. Agora, consegui. Amo voc do fundo do meu corao e da minha alma.
Ela aproximou-se e tomou entre as mos o rosto to adorado, o rosto que amara durante a vida inteira. Ento ouviu algo pelo que nunca havia esperado:
 Vivianne, voc conhece toda a sua famlia, todos os seus antepassados. Mas eu no sei quem sou, no sei de onde vim.
A dor expressa na voz dele impeliu-a a falar. Murphy, porm, no lhe permitiu dizer nada e continuou:
	Isso ser bom para os seus filhos? Ser bom para voc? Afinal, no passo de um joo-ningum que...
	Amo voc, Murphy Jones, no importa quem seja ou de onde tenha vindo. Isso no faz a menor diferena. O que conta  que agora voc  meu. E o seu lugar  e sempre ser dentro do meu corao.
Ele abraou-a com fora, seus coraes batendo no mesmo ritmo intenso e feliz. Tomado pela emoo, perguntou:
	J  amanh? J  o dia de eu me casar com voc e seus filhos, Vivianne, haja o que houver?
	Deve estar perto da meia-noite. Por qu?
 Porque no aguento mais esperar pelo dia mais feliz da minha vida.
E assim eles se casaram, com confetes, cachorros-quentes, hambrgueres e suco de uva. Com a companhia de poucos e sinceros amigos reunidos no quintal, num dia to quente e mido que a noiva ficou o tempo todo descala.
E no dia quatro de julho a famlia Jones subiu unida ao pedestal para receber o prmio ganho por ter apresentado o carro mais bem decorado durante o desfile de comemorao da independncia... apesar da Barbie sem cabea instalada em seu trono de papelo e botes coloridos na frente do veculo.

EPLOGO

Reluzentes fitas douradas se desprendiam da cabeceira da cama de casal de Murphy, enquanto folhas de papel para embrulho vermelho e verde se espalhavam pelo cho. Nesgas do frio sol de inverno penetravam pela janela, ressaltando o brilho das fitas e dos papis. Num salto preguioso, um grande gato da raa Maine Coon pulou para a cama, sacudindo de leve o suave colcho.
 Ei, seu gordo! V com calma!
Murphy passou um brao protetor ao redor de Vivianne e o beb. No mesmo instante, Frances e o gato, chamado Salomo, sacolejaram-se de novo  beirada da cama. As cobertas escorregaram at a cintura de Murphy quando ele se inclinou para coar a orelha do ronronante bichano. Com um suspiro feliz, Vivianne sorriu para o marido.
Aps receber os carinhos do dono, Salomo deu um miado manhoso, espreguiou-se demoradamente e foi colocar-se aos ps da cama, enrolando-se como um enorme novelo de l. Com seus olhos cor de marmelo, ficou a espreitar Murphy, Vivianne, Frances e o beb.
Olhando para Vivianne por sobre o ombro nu, Murphy comentou:
 Adorei o meu presente de Natal, princesa.
Tocando o rosto rosado do pequeno Bannister Murphy Jones, calmamente adormecido sobre o seu brao esquerdo, ela fez um ar inocente ao retrucar:
 Qual deles? A loo ps-barba?
	Tambm.  O sorriso de Murphy alargou-se e ele a trouxe para ainda mais perto, entrelaando uma perna s dela sob as cobertas.  Na verdade, gostei de todos os meus presentes.
	Mesmo?  Vivianne descansou a cabea no ombro dele.
	Bem, talvez uns mais do que outros...  Murphy passou-lhe a ponta do dedo pelo rosto para depois fazer o mesmo com o beb.
O pequeno Ban gorgolejou alegremente. Erguendo a diminuta mozinha, agarrou o dedo de Murphy com toda a sua fora de recm-nascido. Murphy ento olhou para Frances, que ainda se balanava na beirada da cama, e disse:
 Venha c, pequena.
Acomodando-se no colo dele, a menina apanhou um pedao das fitas que pendiam na cabeceira da cama e, estudando-o com um olhar muito grave, perguntou:
 Voc faz um lao para mim, meu Murphy?
Ele apanhou a fita dourada e ps-se a enrol-la, enquanto respondia:
	Por voc eu fao qualquer coisa, minha pequena. Vou lhe buscar a lua, as estrelas... o que voc quiser.
	Era o que eu pensava, ainda que estivesse um pouco preocupada  disse Frances, tomando o lao dourado entre os dedinhos.
Vivianne sabia o que a filha insinuava. Antes mesmo que Ban nascesse, j temia que a presena do irmozinho pudesse afetar a crescente autoconfiana e a alegria de Frances Bird. Alis, naqueles tempos ela temia tudo e qualquer coisa.
Mas, Murphy? Ah, Murphy passara pelos dias de gravidez dela com a suavidade de uma confortvel e protetora nuvem de algodo, rindo da sua irritabilidade, lavando-lhe os cabelos com extremado cuidado, massageando-lhe as costas com dedicada ateno. E, mais do que tudo, cuidando de Frances e fazendo o possvel e o impossvel para faz-la tranquila e feliz.
 Eu sei que voc estava preocupada, Frances.  Ele tomou-lhe o rostinho entre as mos.  Mas no havia motivo para isso.
	Voc ama mame como sempre, no ?  a menina quis certificar-se.  Mesmo que o beb esteja aqui, que eu esteja aqui... Voc no a ama menos por causa de ns, no ?
	Amo sua me do fundo do meu corao  Murphy declarou com sinceridade.  Como sempre. Para sempre.
	E voc tambm ama Salomo?  Frances no se esquecera do gato.
	Claro que sim.  Ele lhe acariciou os cabelos.  O amor  assim, pequena: h lugar para todos em nossos coraes. E quanto mais amamos, mais queremos amar.
Vivianne sorriu, emocionada. Frances passou a mo pela cabecinha de Ban e cochichou-lhe no minsculo ouvido:
	Est tudo bem, beb Ban. Voc vai gostar de ter uma irm. E no se preocupe por ser menino; eu e Murphy vamos lhe explicar tudo o que for preciso.
	Aposto que por essa voc no esperava  Murphy disse baixinho para Vivianne.
	Voc vai gostar desta famlia, beb  continuou Frances para o irmozinho.  Ns somos bem legais.
Olhando para os filhos, Vivianne sentiu o corao encher-se de ternura. O amor parecia eletrizar o ar que os envolvia.
Aos ps da cama, o intenso ronronar de Salomo a fez perceber que o gato estava profundamente adormecido. At mesmo a presena do bichano no seu lar contribua para alimentar a felicidade que a invadia. Agora o seu mundo estava completo.
Erguendo uma das mos, ela afagou o rosto de Murphy. Nesse momento, um raio de sol reverberou sobre a aliana de casamento no seu dedo anular. Vivianne sentiu uma deliciosa onda de calor aquec-la por inteiro.
Finalmente, depois de tanto tempo, sentiu-se de novo em casa.
Dessa vez, para sempre.

Dicas

Estou pensando em fazer vasectomia, mas receio que a operao afete minha virilidade. Isso pode acontecer?
Nada prova que a vasectomia tenha qualquer efeito sobre a virilidade ou outro aspecto da vida sexual, exceto a fertilidade. Pode ocorrer em alguns homens a diminuio temporria do desejo sexual aps a operao, mas isso  causado mais por fatores psicolgicos. A ansiedade, e no a operao, pode ter algum efeito sobre o desempenho ou o desejo sexuais.
Depois de uma vasectomia, qual o tempo que se deve observar para ter uma relao sexual sem o uso de contraceptivos?
Normalmente, o mdico que executa a vasectomia recomenda ao paciente que faa um espermograma  o exame ao microscpio de uma amostra do lquido ejaculado, para se ter certeza de que no sobraram espermatozides no lquido seminal. Isso  feito num prazo de seis a oito semanas aps a operao.
Minha esposa morreu pouco tempo depois de eu ter feito vasectomia. Agora estou planejando me casar novamente, e eu e minha futura mulher queremos filhos. Isso  possvel? A vasectomia pode ser revertida?
Muitos homens tm passado pelo processo de reverso da esterilizao com bons resultados, mas  preciso dizer que se trata de interveno sem garantia de sucesso total. A operao consiste na localizao das extremidades cortadas do vaso deferente e na sutura meticulosa das vrias camadas, que devem ser unidas novamente. Nem sempre o tubo interno est aberto. Mesmo no caso de ele ter permanecido aberto, os anticorpos -podem impedir o desenvolvimento de espermatozides frteis. At hoje, a taxa de fertilidade em homens que reverteram sua vasectomia  inferior a 60%.
A vasectomia deixa cicatrizes visveis?
Em geral a pele cicatriza to bem que  preciso olhar com muita ateno para encontrar o local do corte. Seguramente no h motivo para preocupao.
Um amigo fez uma vasectomia e me disse que toda a rea submetida  operao ficou inchada e azulada. Isto  comum?
Felizmente, no. Acontece que o seu amigo teve um hematoma no saco escrotal. Isso ocorre quando um vaso sanguneo lesado vaza dentro do escroto. De qualquer forma, fique tranquilo, pois isso raramente ocorre.
Quando um homem planeja submeter-se a uma vasectomia, o que deve ter em mente antes de realizar a operao?
O mais importante  encarar a esterilizao como permanente, pois a reverso  difcil e s s vezes d certo. Por isso,  fundamental no ir para a cirurgia j pensando na reverso. E bom que o homem e sua parceira tenham certeza de no quererem mais filhos no futuro. Precisam ainda estar certos da estabilidade de seu relacionamento, pois o homem vasectomizado no poder gerar novos filhos com outra parceira na eventualidade de o relacionamento atual no dar certo. A vasectomia  um mtodo de contracepo para homens j maduros.
As principais religies ocidentais manifestaram-se sobre a vasectomia?
A Igreja Catlica ope-se a qualquer meio de controle da natalidade que no seja o do calendrio. A posio dos judeus ortodoxos  to contrria  operao quanto a dos catlicos. Vrias denominaes protestantes, porm, deixam o assunto a cargo da conscincia de cada um, recomendando apenas que homens jovens e solteiros no se esterilizem.

LINDSAY LONGFORD, como a maioria dos escritores,  leitora voraz. Ex-professora de ingls para o colegial, com mestrado em literatura, comeou a escrever romances porque queria criar histrias que tocassem a emoo dos leitores ao transport-los a um mundo onde coisas boas acontecem a pessoas boas e viver feliz para sempre  possvel com um mnimo de esforo. Seu primeiro livro foi indicado aos prmios de Melhor Autor de Novas Sries, Melhor Romance Silhouette e recebeu uma Meno Especial como Melhor Livro de Primeiras Sries do Romantic Times Magazine. Ela tambm  finalista do Escritores de Romance do Prmio RITA das Amricas para Melhor Primeiro Livro.
